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Posts Tagged ‘Walt Disney’

Este é o último dos textos retirados da monografia Le Merveilleux Littéraire au Cinéma : Alice au Pays des Merveilles, escrita por Anne-Marie Meudal, que postarei aqui no blogue. A tradução para o português foi novamente feita por mim.


As contribuições do cinema para a obra literária

Este seria o momento de refletir quanto às estéticas específicas de cada artista e de ver o que elas puderam acrescentar à obra de Lewis Carroll, quais contribuições trouxeram a ela. Estabelecendo uma ligação com a definição de maravilhoso elaborada no início deste estudo, gostaríamos de organizar aqui uma espécie de análise do desenvolvimento dessas estéticas em termos de transposição imagética e de consideração do tema, insistindo também nos meios utilizados.

Visão de pesadelo ou de realidade, o País das Maravilhas é marcado antes de mais nada pelas influências dos cineastas. É necessário precisar também que a palavra veicula uma análise da realidade que lhe é específica e sobretudo diferente daquela veiculada pela imagem. Assim, o cinema traz uma nova visão do mundo por meio da imagem, como naquele exemplo do prisma ao mesmo tempo reverberante e divergente, aprofundado por Jeanne-Marie Clerc¹.

Alice floresO País das Maravilhas é não só o mundo dos sonhos como também o do absurdo e do nonsense caro a Lewis Carroll. Teriam os diretores se obstinado em restituir sua atmosfera estranha ou optado por uma representação mais próxima do real e do ordinário? Nas versões estudadas, o mundo maravilhoso aparece seja de forma assustadora, seja de forma divertida, ou mesmo realista, sendo que a representação varia em função das diferentes leituras que são feitas da obra de Lewis Carroll. A zoologia fantástica transformada em imagens é um bom exemplo da representação da obra de cada um de nossos dois cineastas. Em Walt Disney, as cores escuras acentuam a impressão de pesadelo e de delírio quando Alice perambula e canta pela floresta.

As noções essenciais do gênero maravilhoso são revisitadas: reencontramos assim o espelho, o sonho, a evasão, o desejo, o absurdo, o mágico, a descida em si mesma, etc.

O cenário antes de qualquer elemento estabelece uma atmosfera particular e própria do maravilhoso. Em Walt Disney, ele é realmente colocado ali como um cenário de teatro, ao mesmo tempo em que é lúdico: somos transportados de uma casa de boneca para a casa da rainha, passando pelo jardim do coelho branco. É uma verdadeira deambulação lúdica que dá vida aos personagens que evoluem nessas diferentes paragens. Disney desejava que seu filme respondesse a três imperativos: uma atmosfera britânica, um certo lado infantil e, finalmente, o lado absurdo.

Em Alice no País das Maravilhas, Lewis Carroll instaura de fato uma confusão entre o sonho e a realidade, que tomará formas diversas. Ele recorre então a diferentes processos de neutralização da realidade que têm em comum fazer com que o leitor penda para uma interpretação ou para outra. No cinema, nas duas adaptações pelas quais estamos interessados, a opção feita é de levar às telas uma narrativa sonial. Sonho que, nesse caso, cria digressões bastante desestabilizantes no filme de Jan Svankmajer, com uma mise en abyme do sentido geral das ações dos personagens. Trata-se aqui de um ponto essencial da construção do cenário. Como em um sonho, para esse tipo de situacionalização, o personagem se encontra em um estado mal definido que o distancia de sua realidade. Jan Svankmajer faz com que sua Alice submeta-se, ela própria, a provações.

Assim como sua prima literária, Alice de Svankmajer nos conta uma verdadeira descida precipitada ao país dos sonhos, mas que se veste às vezes de uma visão relativamente pesadelar. Para dirigir esse filme, ele teve de se confrontar com as diversas interpretações de Alice no País das Maravilhas já existentes. No Cahier de Notes sur Alice², Pascal Vimenet explica:

“Alice pertence à minha mitologia. A maior parte do tempo, sua história é apresentada como um conto para crianças. Para mim, não se trata de um conto de fadas, mas de um sonho.”

Alice SvankmajerA interpretação que Jan Svankmajer nos oferece visualmente é uma interpretação radical que depura todos os arquétipos que cercam a imagística habitual e tradicional veiculada em torno de Alice no País das Maravilhas. Ele com efeito devolve toda a liberdade da história ao nosso imaginário por meio do uso abundante dos processos de descontinuidade e de ruptura. Seu trabalho de direção escapa totalmente à afetação e à especiosidade das imagens animadas e frequentemente desvitalizadas que várias vezes prejudicaram o alcance do texto original de Lewis Carroll. Aliás, Svankmajer afirmará não ter nada em comum com Walt Disney a não ser o fato de ambos gravarem usando câmeras.

Em seu epílogo, Jan Svankmajer se liberta efetivamente da narrativa original e a traduz a seu modo. Há certamente horror, humor negro e crueldade no mundo imaginário de Alice.  Encontramos em Svankmajer esses sentimentos de medo e de ansiedade, que dão vida ao filme e ao seu devaneio; trata-se de uma interpretação subjetiva do tema carrolliano original. Ao mesmo tempo em que respeita o mito carrolliano, Jan Svankmajer o transforma quando aquele encontra-se no interior do universo particular desse. Fazendo uso dos meios de expressão cinematográfica, o cineasta cria uma verdadeira extensão à narrativa de Lewis Carroll.


Referências:

¹CLERC, Jeanne-Marie; CARCAUD-MACAIRE, Monique. L’adaptation cinématograohique et littéraire. Paris, Klincksieck, 2004, p.14.

² VIMENET, Alice Pascal. Cahier de notes sur Alice. Paris, Les Enfants de Cinéma-Yellow Now. Tradução nossa.

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Mickey Através do Espelho é uma animação inspirada no livro Alice Através do Espelho. Ela foi televisionada pela primeira vez nos EUA no dia 30 de maio de 1936.

Agradeço à amiga Daniela Mayumi por me avisar sobre esse trabalho dos estúdios Walt Disney.

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