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É com grande satisfação, contentamento e orgulho que compartilho com vocês, leitores, mais uma monografia minha sobre as Alices, dessa vez abordando questões concernentes à área de educação – a outra monografia, sobre as Alices e tradução literária, também já foi postada aqui no blogue. Sem mais, espero que gostem:

RESUMO

O presente estudo visa analisar literariamente alguns dos símbolos existentes nos livros Alice no País das Maravilhas (1865) e Alice Através do Espelho (1871), escritos por Lewis Carroll (1832-1898), a fim de propor como se trabalhar as obras supracitadas com fins didáticos, focando especificamente na docência de aulas de Língua Portuguesa para alunos da 8ª série (9º ano) do Ensino Fundamental.
Ao longo deste trabalho, será abordado como se deram o surgimento das atividades de escrita e de leitura e seu ensino em diferentes épocas; tratar-se-á o que os principais documentos brasileiros sobre educação defendem quanto ao ensino de Língua Portuguesa nas escolas; serão expostas algumas informações sobre o contexto histórico da escritura das narrativas carrollianas; dados sobre a vida de Lewis Carroll e sobre sua psicologia estarão evidenciados; os dois livros em questão terão algumas de suas partes-chave analisadas a fim de que se possa ter uma ideia do quão plurissignificativos são e para que o docente aqui encontre uma espécie de miniguia de leitura das histórias; e, por fim, será apresentada a proposta didática, que objetiva a introdução dos alunos aos estudos literários de maneira que lhes sejam estimulados o gosto e o prazer pela leitura.

Palavras-chave: Educação, docência, Alice no País das Maravilhas, Alice Através do Espelho, Lewis Carroll, literatura, era vitoriana.

Link: GONCALVES, Higor. Entrando na toca do Coelho

Arte por Su Blackwell

Arte por Su Blackwell

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Conforme exposto na seção “Leia-me” aqui do blogue, eu vinha já há algum tempo estudando as Alices, lendo sobre a vida do Lewis Carroll e pesquisando o contexto da Era Vitoriana a fim de elaborar uma monografia que relacionasse esses assuntos à área de tradução. À medida que os textos por mim preparados iam ficando prontos, eu os postava aqui para vocês, leitores, que sempre me motivaram a seguir em frente. Portanto, antes de mais nada gostaria de expressar aqui neste espaço meus sinceros agradecimentos a todos que vêm acompanhando o The Bloggerwocky e tecendo comentários sobre o site no Facebook, Orkut, Twitter ou aqui mesmo no blogue.

Agradecimentos feitos, é hora de irmos direto ao ponto principal deste post: no fim do ano passado concluí e defendi minha monografia, a qual foi muito elogiada e, para minha grande alegria, recebeu nota máxima por parte da banca examinadora. É então com muita satisfação que venho compartilhar esse trabalho com vocês. Espero que gostem e comentem:

RESUMO

Traduzir literatura é uma tarefa árdua, principalmente no caso de textos altamente polissêmicos. Nesse sentido, o presente trabalho tem como objetivo explicitar algumas das dificuldades e problemas com que se depara um tradutor literário frente aos desafios de uma obra altamente artística. Para tanto foram escolhidos os livros Alice no País das Maravilhas (1865) e Alice Através do Espelho (1871), escritos por Lewis Carroll (1832-1898): duas histórias das mais conhecidas e traduzidas no mundo, que por serem carregadas de referências à era vitoriana, jogos sonoros e poemas, trazem sempre dificuldades quando de sua transposição para outras línguas.
Ao longo deste trabalho, esses dois livros terão algumas de suas partes-chave analisadas a fim de que se possa ter uma ideia do quão plurissignificativos são, serão apresentadas algumas informações sobre o contexto histórico da escritura das narrativas, dados sobre a vida do autor e sobre sua psicologia estarão evidenciados e por fim encontrar-se-á uma sugestão de tradução para o capítulo 4 do Alice no País das Maravilhas, seguida de comentários feitos a partir do ponto de vista tradutório, de forma a ilustrar como toda a teorização e estudo da obra funcionam na prática.

Palavras-chave: Tradução literária, Alice no País das Maravilhas, Alice Através do Espelho, Lewis Carroll, literatura, era vitoriana.

Link: GONÇALVES, Higor B. Um sonho lúcido…

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O texto abaixo, a exemplo daquele do post sobre o gênero maravilhoso (clique aqui para lê-lo), é parte integrante da monografia intitulada Le Merveilleux Littéraire au Cinéma : Alice au Pays des Merveilles, escrita por Anne-Marie Meudal. A tradução para o português foi mais uma vez feita por mim.


relógioUma temporalidade própria à obra

Uma das aspirações de Lewis Carroll não está expressa claramente em sua obra, contudo aparece de forma implícita: trata-se de um retorno desejado ao mundo da infância. Lewis Carroll quer efetivamente congelar o processo de maturação que faz com que todas as pessoas um dia tornem-se adultas. Com esse pensamento, ele deseja fervorosamente deter a evolução natural da vida. Tal recusa do mundo real caracteriza e condiciona a temporalidade de sua narrativa, já que ele vai, nesse âmbito, destruir as convenções relativas ao tempo. Uma prova disso é a sequência do chá maluco.

O tempo não existe no País das Maravilhas: o Chapeleiro Louco e a Lebre de Março tornam a representar ininterruptamente a mesma cena, a noção de hora se torna uma verdadeira piada e toma-se o chá a qualquer momento, o que aliás é considerado uma blasfêmia na Inglaterra, com a sacro-santa “Tea Time”…

“‒ Em que dia do mês estamos? ‒ perguntou o Chapeleiro Louco à Alice. (Ele havia tirado seu relógio do bolso e olhava para ele com um ar inquieto, sacudindo-o e levando-o ao ouvido de vez em quando.) […]

‒ Que relógio engraçado! Ele mostra o dia do mês mas não marca a hora!

‒ Por que ele mostraria a hora? ‒ resmungou o Chapeleiro Louco. ‒ E seu relógio lhe mostra o ano em que estamos?

‒ Certamente que não ‒ respondeu Alice sem hesitar ‒ mas isso é porque ficamos em um mesmo ano por bastante tempo.

‒ E esse é exatamente o caso desse meu relógio ‒ afirmou o Chapeleiro.”¹

Aqui, o paradoxo está posto em evidência. Gilles Deleuze realiza uma aproximação entre o paradoxo do sentido e o do tempo:

“A questão não tem resposta, visto que é próprio do sentido não ter direção alguma, não ter uma só face correta, mas sempre duas a um mesmo tempo, em um passado-futuro infinitamente subdividido e prolongado.”²

Lo tempo e o homemewis Carroll utiliza com frequência este processo do nonsense, como um material realmente maleável. Assim combinadas em trocadilhos ou em equívocos, as palavras produzem então um efeito de sentido que é na realidade um efeito de nonsense. Nessa cena emblemática do chá, as observações do Chapeleiro Louco são por exemplo completamente desprovidas de sentido, e no entanto estritamente corretas do ponto de vista gramatical. Comensurou-se bem aqui o quanto a palavra para Lewis Carroll não é mais do que um conjunto de letras, o que confere a ela ao mesmo tempo toda a sua dimensão lúdica. As personagens dessa parte do chá são normais em seus atos, mas seu raciocínio é defeituoso por estar impregnado de nonsense.

Jean Gattégno nos explica³ a esse respeito que Lewis Carroll rompe com uma das convenções tácitas do conto de fadas, que postula decerto que as leis da imaginação levam vantagem sobre as da realidade, mas sem tocar a lógica discursiva, ao mesmo tempo em que lançam ao mundo real um olhar destruidor.

Aqui, a relação com o tempo é delirante, o Chapeleiro Louco o considera como um ser inteiramente a parte:

“‒ Se você conhecesse o Tempo tão bem quanto eu, ‒ disse o Chapeleiro Louco ‒ não falaria em perdê-lo. O Tempo é um ser vivo. […] Suponho que você nunca conversou com o Tempo!”4

A mise en abyme dessa fascinação dos mundos encaixados provoca também uma anulação do tempo. Tal anulação é do mesmo modo a consequência de uma

“Simultaneidade em devir cuja propriedade é furtar-se ao presente”5.

A multiplicação do motivo do relógio no bolso nos faz relembrar também da temática da fuga eterna do tempo. É daí que vem o refrão do coelho de Walt Disney que se torna uma lenga-lenga devido a tanto se repetir:

“É tarde! É tarde! Tão tarde até que arde! Ai, ai, meu Deus! Alô, adeus! É tarde, é tarde, é tarde!”

A ligação de Alice com o mundo que a cerca vai determinar a leitura. Assim, a criança deixar-se-á levar plenamente pelo desvario do País das Maravilhas caso a ligação dessa com aquela mantenha-se estreita. Contrariamente, a insensibilidade da personagem favorecerá uma certa distanciação por parte do leitor. Enfim, uma ligação ambivalente deixará ao leitor a escolha de qual conduta tomar. Em todos os casos, um verdadeiro problema de envergadura é apresentado à criança, que se vê confrontando a angústia de crescer, e não somente o fato de mudar de altura e de tamanho.

Alice evolui no caminho dessa descoberta de si, a qual desdobra-se no estado de adulto. A temporalidade se decompõe aqui em projeções permanentes bem como em regressos, os dois coexistindo até certo ponto, gerando mais ou menos pavor e angústia. Mas o regresso traz também o tema da morte: Alice em seu mar de lágrimas se debate entre fósseis. A Morte se faz onipresente na versão de Jan Svankmajer visto que ele utiliza esqueletos para representar uma boa parte das criaturas habitantes do País das Maravilhas.

Alice no País das Maravilhas problematiza então o devir em sua temporalidade. Alice do mesmo modo brinca de ser grande porque impacienta-se por não crescer tão depressa. Esse tempo da metamorfose que nos é relatado corresponde de fato a um parêntese do mundo dos vivos; trata-se do sono da Alice. Para seu despertar, efetua-se então um retorno à temporalidade a fim de que o simples passar das horas e dos dias possa recomeçar e para que a vida possa retomar seu curso.

Erelógiom todos os casos, há um recurso à participação ativa do leitor ou do espectador para reconstruir o que falta. A criação do imaginário centra-se aqui no destinatário e não no locutor. Assiste-se a uma real inversão da focagem, e por conseguinte da narração em contato com a imagem que retoma a problemática do espelho e do duplo. É uma maneira de utilizar a linguagem como instrumento nessa experiência da ilusão.


Referências:

¹ Edition Gallimard, p. 96, capítulo 7. Tradução nossa.

² Logique du Sens, Gilles Deleuze, Paris, Minuit, (Critique), 1969, p. 95. Tradução nossa.

³ Œuvres, de Lewis Carroll, Paris, Gallimard, 1990, (Bibliothèque de la Pléiade), p. 1657. Tradução nossa.

4 Edition Gallimard, p. 97, capítulo 7. Tradução nossa.

5 Logique du Sens, Gilles Deleuze, Paris, Minuit, (Critique), 1969, p. 7. Tradução nossa.

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