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Posts Tagged ‘Sebastião Uchoa Leite’

É com grande satisfação, contentamento e orgulho que compartilho com vocês, leitores, mais uma monografia minha sobre as Alices, dessa vez abordando questões concernentes à área de educação – a outra monografia, sobre as Alices e tradução literária, também já foi postada aqui no blogue. Sem mais, espero que gostem:

RESUMO

O presente estudo visa analisar literariamente alguns dos símbolos existentes nos livros Alice no País das Maravilhas (1865) e Alice Através do Espelho (1871), escritos por Lewis Carroll (1832-1898), a fim de propor como se trabalhar as obras supracitadas com fins didáticos, focando especificamente na docência de aulas de Língua Portuguesa para alunos da 8ª série (9º ano) do Ensino Fundamental.
Ao longo deste trabalho, será abordado como se deram o surgimento das atividades de escrita e de leitura e seu ensino em diferentes épocas; tratar-se-á o que os principais documentos brasileiros sobre educação defendem quanto ao ensino de Língua Portuguesa nas escolas; serão expostas algumas informações sobre o contexto histórico da escritura das narrativas carrollianas; dados sobre a vida de Lewis Carroll e sobre sua psicologia estarão evidenciados; os dois livros em questão terão algumas de suas partes-chave analisadas a fim de que se possa ter uma ideia do quão plurissignificativos são e para que o docente aqui encontre uma espécie de miniguia de leitura das histórias; e, por fim, será apresentada a proposta didática, que objetiva a introdução dos alunos aos estudos literários de maneira que lhes sejam estimulados o gosto e o prazer pela leitura.

Palavras-chave: Educação, docência, Alice no País das Maravilhas, Alice Através do Espelho, Lewis Carroll, literatura, era vitoriana.

Link: GONCALVES, Higor. Entrando na toca do Coelho

Arte por Su Blackwell

Arte por Su Blackwell

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Conforme exposto na seção “Leia-me” aqui do blogue, eu vinha já há algum tempo estudando as Alices, lendo sobre a vida do Lewis Carroll e pesquisando o contexto da Era Vitoriana a fim de elaborar uma monografia que relacionasse esses assuntos à área de tradução. À medida que os textos por mim preparados iam ficando prontos, eu os postava aqui para vocês, leitores, que sempre me motivaram a seguir em frente. Portanto, antes de mais nada gostaria de expressar aqui neste espaço meus sinceros agradecimentos a todos que vêm acompanhando o The Bloggerwocky e tecendo comentários sobre o site no Facebook, Orkut, Twitter ou aqui mesmo no blogue.

Agradecimentos feitos, é hora de irmos direto ao ponto principal deste post: no fim do ano passado concluí e defendi minha monografia, a qual foi muito elogiada e, para minha grande alegria, recebeu nota máxima por parte da banca examinadora. É então com muita satisfação que venho compartilhar esse trabalho com vocês. Espero que gostem e comentem:

RESUMO

Traduzir literatura é uma tarefa árdua, principalmente no caso de textos altamente polissêmicos. Nesse sentido, o presente trabalho tem como objetivo explicitar algumas das dificuldades e problemas com que se depara um tradutor literário frente aos desafios de uma obra altamente artística. Para tanto foram escolhidos os livros Alice no País das Maravilhas (1865) e Alice Através do Espelho (1871), escritos por Lewis Carroll (1832-1898): duas histórias das mais conhecidas e traduzidas no mundo, que por serem carregadas de referências à era vitoriana, jogos sonoros e poemas, trazem sempre dificuldades quando de sua transposição para outras línguas.
Ao longo deste trabalho, esses dois livros terão algumas de suas partes-chave analisadas a fim de que se possa ter uma ideia do quão plurissignificativos são, serão apresentadas algumas informações sobre o contexto histórico da escritura das narrativas, dados sobre a vida do autor e sobre sua psicologia estarão evidenciados e por fim encontrar-se-á uma sugestão de tradução para o capítulo 4 do Alice no País das Maravilhas, seguida de comentários feitos a partir do ponto de vista tradutório, de forma a ilustrar como toda a teorização e estudo da obra funcionam na prática.

Palavras-chave: Tradução literária, Alice no País das Maravilhas, Alice Através do Espelho, Lewis Carroll, literatura, era vitoriana.

Link: GONÇALVES, Higor B. Um sonho lúcido…

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Capa

Material encontrado no blogue da Sociedade Lewis Carroll do Brasil (clique nas imagens para ampliá-las).

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Por Lenir Fátima de Castro*


AliceO presente estudo objetiva fazer um confronto comparativo da obra Alice no país das maravilhas, de Lewis Carroll (1865), considerando o texto de algumas de suas versões. Por sua qualidade, tomamos a tradução feita pelo escritor Sebastião Uchoa Leite como ponto de partida e pretendemos comparar este trabalho com outras diversas publicações brasileiras (adaptações) em vários formatos e linguagens. Muitos destes livros têm páginas reduzidíssimas e visam tão somente à circulação para fins comerciais, sem servirem ao objetivo de proporcionar algum conhecimento sobre o enredo ou sobre o estudo da obra de Carroll. Uma de nossas metas é mostrar como os processos de redução e/ou supressão de passagens do texto original fazem o novo texto perder o sentido, além de apontar como se articulam cenas absurdamente descontextualizadas nestes livros de padrão inferior.

Na história original, os maiores atrativos são o “logos fantástico”, o nonsense e a capacidade que o autor tem de imprimir ao texto um encadeamento por imagens e sensações. Capítulos como a hora do chá ou o jogo do croqué com a rainha são de fundamental importância para que seja despertado e se realize o processo imaginativo do leitor. Em alguns textos examinados, esse mecanismo simplesmente não existe mais — quer seja por economia de imagens ou de palavras, ou ambos. De muitas adaptações, foram retirados o fantástico e o maravilhoso, exatamente o leitmotiv do texto original, o que encanta e fora construído para chamar o interesse do leitor, desafiando-o no campo da imaginação.

Devemos retomar uma ideia geral sobre os processos de singularização, tal como explica Chklovski (1970), a partir de exemplos presentes na obra de Leon Tolstoi. Em Guerra e paz, o autor trabalha com este procedimento o tempo todo para que os elementos de sua narrativa sejam convenientemente percebidos. O processo de singularização consiste em particularizar objetos para que o foco de atenção esteja sobre eles — ou seja, este procedimento diz respeito ao objeto que é descrito minuciosamente (muitas vezes sem ser nomeado). Em “Que vergonha”, Tolstoi assim singulariza a noção do chicote: “pôr a nu as pessoas que violam a lei, fazê-las tombar e bater nelas com varas no traseiro”… O chicote habitual é singularizado por sua descrição e pela proposição de mudar a forma sem mudar a essência (1970: 46).

Para a nossa reflexão, contaremos ainda com Ítalo Calvino (1990) que nos fala a respeito do processo de pensar por imagens, em sua concepção sobre visibilidade. A conversa aqui se inicia para desdobrar imagens, refazer contornos. Como um mosaico, cabe ao leitor refazer o caminho…

Sobre Alice no país das maravilhas – considerações

AliceInicialmente, consideremos o que, na obra original de Carroll, julgamos produzir seu núcleo fundador: o autor elabora, com perfeição e riqueza de detalhes, as imagens mentais das várias situações vividas pela menina Alice — os diversos apuros, as diversas dificuldades. Os diálogos travados com o coelho, o gato que sorri ou a rainha de copas, a lagarta que fuma o narguilé, o chá maluco, ou ainda a competição na lagoa, são cenas fundamentais para o leitor “encontrar” e se “encantar” com a história, fazendo surgir aquela dose de deslumbramento que nos cativa. Qual criança não ficaria absolutamente envolvida com todos aqueles bichos nadando na poça de lágrimas que Alice chorou?

Mas, para nosso espanto, existem versões absolutamente superficiais que pretendem dar conta da história em menos de meia dúzia de folhas, descaracterizando completamente o texto de Lewis Carroll. Deparamo-nos, em nossa pesquisa, com livros que continham somente três ou quatro folhas para narrar toda a Alice. Esse reducionismo constitui um crime de “leso-leitor”, por assim dizer. Nega-se a identidade da obra e a suposta versão (adaptação) passa a ter outro sentido, outro significado, alterando-se assim completamente o nonsense e o extraordinário contidos preliminarmente no texto do autor inglês.

Por outro lado, identificamos adaptações que não desmerecem o original. A versão de Monteiro Lobato, dentre muitas adaptações e traduções que examinamos, é a que mais se aproxima do texto de Alice, inclusive com divertidíssimas intervenções de Emília, tia Nastácia, Dona Benta, Pedrinho e todo o pessoal do Sítio do Pica Pau Amarelo. Toda a obra está repleta de construções geniais e uma passagem significativa diz respeito à explicação que o Coelho Branco dá a Pedrinho ao perguntar se ele conhecia alguém que tivesse um despertador: — A Rainha tem, mas usa o ponteiro para fazer tricot. Lobato, de forma primorosa, usa os próprios personagens do Sítio para “recontar” Alice e o resultado são diálogos criativos, inusitados e completamente surpreendentes.

O processo de singularização, descrito por diversos autores (como Chklovski e também Guatari), encaminha o leitor a uma percepção particular de um objeto, uma cena ou evento, de modo a romper com um estágio de letargia para construir novas experiências, fazendo-o reagir e interrogar cotidianamente o mundo. A arte oferece caminhos para que as escolhas possam efetivamente se concretizar de forma livre e consciente.

A imaginação

Imaginação (do latim “imaginatione”) é a faculdade que tem o espírito de representar imagens; fantasia (Aurélio, 1971:742). Entre suas seis propostas, Calvino (1990) começa a descrever e nortear o processo da imaginação através de Dante que, em sua Divina Comédia, nos fala das visões que nos chegam como que projetadas em telas cinematográficas (com a licença do anacronismo); e divide a imaginação em dois campos distintos: imagens que pertencem às suas personagens e às suas próprias visões ou aquilo que acredita ver — recordações, inclusive. Assim, diz Calvino, o que Dante procura definir é a parte visual, que acompanha a expressão verbal. Mais adiante, são definidos dois processos imaginativos: um que parte da palavra para a imagem e outro, inverso, da imagem para a palavra. O primeiro processo se dá quando estamos em contato com a leitura; o segundo, ao nos deparamos com a imagem propriamente dita: como nos filmes, imagens de noticiários ou acontecimentos. Nossa acuidade visual nos faz guardar na memória cenas que visualizamos, embora muitas vezes estas nos cheguem de forma fragmentária, indistinta.

AliceNo caso do contato com o livro, em que primeiro visualizamos as imagens, a imaginação funciona como meio de colocar as personagens em ação de acordo com o que concebemos. Personagens ou situações narradas nos permitem dispor delas de diversas formas, ora são matizes, ora caleidoscópio de nossas sensações — e estão à mercê de nossa vontade. Como Kant definia, em Espírito e Imaginação, “a imaginação está ligada ao princípio insondável das coisas. É uma faculdade extraordinária, um talento excepcional, um dom inato”, propício à fertilização do conhecimento através do contato com a literatura. Ítalo Calvino também colocou em foco a questão das imagens visuais para que pudesse elaborar seus contos fantásticos. As primeiras imagens que lhe vinham à mente eram, sem dúvida, propícias para que sua criação partisse rumo ao visual e, depois, para o conceitual.

Em sua proposta sobre a visibilidade, podemos notar grande preocupação com a perda da capacidade de formar imagens de olhos fechados. Diante de tal dificuldade, privilegiam-se imagens já prontas, e a própria elaboração de idéias vai se perdendo, dando lugar a um mundo cada vez mais embotado pela poluição visual. O ato da leitura resgata, por assim dizer, a capacidade de visualização de imagens mentais, pois conduz o leitor às visões que fazem parte de seu “arcabouço imaginário”.

A comparação entre as obras

Por ser breve nossa abordagem, escolhemos apenas uma versão de Alice no país das maravilhas a fim de compreender como as adaptações se distanciam do original. Primeiramente, faremos alusão à passagem quando Alice toma da garrafa e torna-se menor, cada vez. No texto integral:

“Alice arriscou-se a prová-la. Achou o gosto muito bom (de fato, o sabor era uma mistura de torta de cereja, creme de leite, suco de abacaxi, peru assado, doce puxa-puxa e torradas quentes com manteiga) e bebeu até o finzinho. — Que sensação mais curiosa! — exclamou Alice, — devo estar encolhendo como um telescópio!” (1980: 45)

Esta é a passagem da tradução de Sebastião Uchoa Leite. Em nenhuma outra versão consultada, menciona-se o nome de Lewis Carroll como o autor adaptado em novo texto. Nossa comparação indicará passagens que se distanciam enormemente da obra original, com textos redutores e ilustrações empobrecedoras que dificultam a leitura e subtraem do leitor a magia de Alice. A versão que selecionamos para comparar a mesma passagem está descrita desta forma:

“…felizmente, atingiu o fundo sem se machucar. Viu uma porta muito pequena e exclamou: “Não poderei passar, esta porta é pequena demais!” “Beba um gole desta bebida e você ficará pequenininha”, disse-lhe um simpático ratinho. Alice engoliu aquele líquido e tornou-se muito pequena. Do outro lado da porta havia um jardim maravilhoso, no qual as árvores e os cogumelos possuíam portas e janelas.” (p. 3)

Muito se perdeu da riqueza em detalhes, quando atentamos para a descrição minuciosa do “sabor da bebida” que a adaptação não nos mostra. Há que se levar em conta o fato de que as ilustrações também não condizem em nada com o livro original. Por exemplo, o coelho, ao passar por Alice, leva na mão um despertador enorme, não mais o famoso relógio de bolso que é seu charme diferencial.

AliceOutra passagem importante, suprimida das adaptações meramente comerciais, diz respeito ao choro de Alice, quando esta não acha a chave dourada — e chora tanto que, com suas lágrimas, surge uma lagoa. Nos livros que analisamos, não há nenhuma referência a esta experiência vivida pela personagem, e a corrida promovida por Alice e os bichos simplesmente deixa de existir nas adaptações que estudamos. Como eliminar uma seqüência tão encantadora quanto aquela em que vemos Alice esforçando-se em nadar para “sair” do mar e, enquanto isto, se questiona: seria melhor que não tivesse chorado tanto! … serei castigada agora por isso, parece, afogando-me nas minhas próprias lágrimas! (1980:50) (tornando literal uma metáfora clichê). O diálogo com os bichos na lagoa faz com que o leitor preste atenção redobrada à história, principalmente para saber quem vai ganhar a corrida. Quando estas passagens são retiradas, corta-se muito do encantamento.

A linguagem extremamente econômica e a supressão dos diálogos interessantes fazem com que não haja nenhuma reflexão sobre o que está sendo lido. Acrescentam-se figuras, algumas frases desconexas e simplistas e já temos, aí, outro livro sem nenhum contato com a obra original.

Procuramos dirigir nossas leituras da obra de Carroll e suas adaptações a partir de dois pressupostos complementares: a imaginação ativa e a singularidade das descrições que permitem ao leitor uma experiência única no campo da leitura. Buscamos trazer ambas as definições para que este leitor se capacite a “visualizar as imagens de olhos fechados” e, a partir delas, formar seu “arsenal” profícuo de personagens fantásticos. Começar do zero — assevera Calvino.

Quem sabe não seria este o caminho para que pudéssemos re-iniciar com propostas aptas a abrirem um espaço de interlocução e conduzir os leitores (sem qualquer tipo de amarra) a uma leitura de fruição, de retorno ao fantástico e ao maravilhoso? Construir uma escola pautada pela alegria e pelo afeto, baseada na reflexão, seria uma utopia? Não. Nossa proposta é por uma sociedade de inclusão em que todos possam participar, democratizando, assim, o saber e repartindo os bens culturais. Que princípios éticos, morais, sociais e igualitários sejam para todos e não para alguns. Uma sociedade inclusiva poderá contar com a história integral de Alice no país das maravilhas para todas as crianças, quer sejam elas de escola pública ou privada. Aqui nutrimos nosso sonho: um lugar em que se “desdobre” a literatura, atraindo o leitor para o desejo e a posse total da significação da linguagem, re-inaugurada a cada dia no seu cotidiano.

*Lenir Fátima de Castro (UFF) apresentou este trabalho no III Congresso Internacional de Leitura e Literatura Infantil e Juvenil do Oeste Paulista – “A criança e o livro: das teorias às práticas educativas”, realizado na Universidade Estadual Paulista – UNESP/Campus Presidente Prudente, em 28 de agosto de 2006.

Referências Bibliográficas:

[1] BENJAMIN, W. O Narrador (1936). In: Magia, Técnica, Arte e Política. São Paulo: Brasiliense, 1985.

[2] CALVINO, I. Seis propostas para o próximo milênio. São Paulo: Companhia das Letras, 1990.

[3] CHKLOVSKI, V. A arte como procedimento. In: EIKHENBAUM et al. Teoria da literatura: formalistas russos. Porto Alegre: Globo, 1970.

[4] FREIRE, P. Pedagogia do oprimido. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987.

[5] LAJOLO, M. Do mundo da leitura para a leitura do mundo. 3ª ed. São Paulo: Ática, 1997.

[6] NUNES, B. Introdução à filosofia da arte. São Paulo. Ática, 1989.

[7] PAULINO, G. (org.). O jogo do livro infantil. Belo Horizonte: Dimensão, 1997.

[8] PENNAC, D. Como um romance. Rio de Janeiro: Rocco, 1995.

[9] SERRA, E. (org.). Ler é preciso. São Paulo: Global Editora, 2002.

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LEITE, Sebastião Uchoa. O universo visual de Lewis Carroll. In: Crítica de ouvido. 1. ed. São Paulo: Cosac & Naify, 2003.

 

O universo visual de Charles Lutwidge Dodgson, conhecido como Lewis Carroll, é muito amplo, e não dá para ser abordado em um simples artigo, mesmo se nos restringíssemos ao seu universo imagético ativo, isto é, o que foi produzido pelo próprio Carroll como desenhista e fotógrafo. Aqui, será considerado não só este universo ativo como também o passivo, o que se criou graficamente, desenhos e gravuras ou aquarelas em cor. Quanto ao primeiro caso, o de Carroll produtor de imagens visuais, é conhecido dos que se aproximaram estreitamente da sua obra, mas não é avaliado nem divulgado com freqüência para um público mais amplo. O legado visual passivo de Carroll esteve presente para os seus contemporâneos, com os seus diversos ilustradores, e deve-se citar particularmente o caso das gravuras feitas em vida de Carroll pelo ilustrador e cartunista John Tenniel. Tão populares ficaram tais gravuras que passaram a ser reproduzidas até em produtos amplamente consumidos no cotidiano, como latas de biscoitos, por exemplo. No ano posterior à morte de Carroll, publicou-se um The Lewis Carroll Picture Book, gravadas em dourado na sua hardcover vermelha as imagens ultraconhecidas, através das ilustrações de Tenniel, do Grifo e do Coelho Branco. Editado por Stuart Dodgson Collingwood, sobrinho do autor, trazia “Uma seleção de escritos inéditos e desenhos de Lewis Carroll, junto com reimpressões de obra rara e desconhecida”, entre eles pequenos textos de prosa e poemas retirados de The Rectory Magazine, jornalzinho de um Carroll iniciante, acompanhados de desenhos humorísticos, os quais já revelavam a inclinação do jovem escritor para o humor nonsense que desenvolveria depois. Os desenhos eram, naturalmente, espontâneos e não muito trabalhados, porém já carregados do fino espírito que revelaria depois. Os dons gráficos de Carroll foram inequívocos, sem terem sido amplamente desenvolvidos, de acordo com os padrões de acabamento da época. Ele, porém, tinha um espírito mais livre, tendo se colocado sempre como um amador. Quer dizer, Carroll jamais quis se igualar aos desenhistas profissionais, tanto que, ao editar comercialmente os livros de Alice, chamou o famoso John Tenniel para cuidar das ilustrações, apesar de desentender-se com ele várias vezes. Mas isso já faz parte do rico anedotário em torno do autor, sobretudo suas implicâncias e razinzices. Não parece jamais ter feito questão de ser “simpático”.

 

O desenhista do underground

 

Seu talento original aparece mais no manuscrito da primeira versão da história de Alice, narrada oralmente em 1863 e depois intitulada Alice’s adventures under ground, ao ser escrita em 1864 e presenteada pelo autor à menina Alice Liddell (ampliada e publicada em 1865-66 como Alice’s adventures in Wonderland). Os desenhos originais de Carroll são altamente expressivos e despojados. São intertextuais, situados nas bordas ou ocupando curiosos espaços, como o desenho da menina que se estica de repente e tem o pescoço crescido, o qual se estende pela margem esquerda interna do texto, de alto a baixo. Os desenhos têm todos uma linha fina muito simples, ao contrário do rebuscamento das gravuras de John Tenniel. Alguns ocupam uma página inteira dentro de molduras retangulares, horizontais ou verticais, como aquele em que aparece Alice seguida por todos os bichos dentro do lago criado por suas lágrimas. Os dedicados ao poema “You are old Father William” se destacam pelo humorismo nonsense peculiar e podem ser comparados aos que Edward Lear dedicou aos seus limericks. Pertencem ao mesmo clima de figuras nonsense. Vários outros mereceram ainda destaque pelos comentários críticos comparativos sobre Carroll versus Tenniel. E uma observacão merece ser feita, pelo menos: os desenhos de Carroll lembram intensamente as histórias de quadrinhos do século xx. Isto é, têm a mesma fluidez e graça dos melhores newspaper comics dos anos 20 e 30 do século xx, como o Krazy Kat, de George Herrimann, por exemplo, embora algumas características, como a invasão das margens, digamos, surjam ainda em quadrinhos modernos, sobretudo alguns mais inventivos, dedicados a minisséries, como as de Frank Miller ou Allan Moore.

Lewis Carroll

ilustração de Lewis Carroll

Donald Rackin, em seu ensaio “O que é tão engraçado em Alice no país das maravilhas?” (“What’s so funny about Alice in Wonderland?”), para fundamentar sua hipótese dos livros de Alice como “comédia do horror”, vale-se dos desenhos de Carroll em contraposição aos de Tenniel. No primeiro exemplo que cita, o pescoço de Alice, que se estica e tem no alto a fisionomia resignada e sonhadora da personagem, Rackin supõe se expressar muito mais a sensação dolorosa de aceitação, tal como (ele irá dizer depois) no Gregório Samsa de A metamorfose, de Franz Kafka. Esta sensação absolutamente não é transmitida pela gravura de Tenniel. O segundo exemplo é o de Alice na casa do Coelho Branco. Ela cresce e ocupa todo o espaço, e nele se aloja, encolhida, sem escapatória, com o corpo na posição fetal, que transpiraria, segundo outros, a fantasia de regresso carrolliana. No desenho de Tenniel, há uma janela por onde sai o braço de Alice, uma brecha para o conforto dos perturbados leitores. Tanto Rackin quanto William Empson, no seu complicado mas brilhante ensaio sobre Carroll, observam que no desenho deste a posição drástica da menina dentro do quadro está relacionada com a memória do corpo na sua fase fetal, o que remete para as interpretações psicanalíticas de Carroll. Mais uma vez, observa Rackin, nota-se a expressão resignada e sonhadora da menina. Finalmente, Rackin compara as imagens de Alice com o Grifo e a Falsa Tartaruga: na gravura de Tenniel, os dois parecem figuras cômico-ridículas, apenas, e compõem, na dança com Alice, um pas de trois levemente grotesco. No desenho de Carroll, os dois, ao dançarem, são hiperdimensionados em relação à figura da menina, estão soltos no espaço e têm (para Rackin) um ar mais ameaçador. Pode-se acrescentar, ao comentário de Rackin, um outro, no sentido de que o salto das figuras expressa um delírio nonsense que não é transmitido pelas imagens de Tenniel, muito mais contidas. A conclusão de Rackin é que as imagens criadas por Carroll são mais verdadeiras porque mais estreitamente relacionadas com o texto original. Além disso, as gravuras de Tenniel, embora bem mais “técnicas”, suavizaram o original mais radical, ou, mais precisamente, segundo o comentário de Rackin, “adoçaram” a imagética carrolliana. Adoçaram no sentido de que as imagens criadas por Tenniel são mais digeríveis pelo gosto médio da época, enquanto o estilo de desenho de Carroll, que parece naïf, está mais perto da modernidade bastante posterior de um Paul Klee, por exemplo, na trilha de revalorização de certo traço “primitivo” e na exploração do nonsense.

 

Alice interpretada por seus ilustradores

 

Tenniel

ilustração de Tenniel

É impossível negar que John Tenniel, o ilustre desenhista-cartunista de Punch, a mais famosa revista inglesa de humor no século XIX, se tornou um clássico com as gravuras para as Alices. Seu relacionamento com Dodgson foi péssimo, e o mínimo que Tenniel disse foi que ele era um “pernosticozinho”. Foi difícil Carroll convencê-lo a ilustrar também Through the looking-glass, recusado por outros ilustradores, talvez temerosos da fama de impertinente do autor. O fato é que Tenniel passou à posteridade ao ter o nome ligado ao de Carroll, e hoje é impossível dissociar um do outro, pois Tenniel foi universalmente “adotado” pelos editores de todo o mundo como o ilustrador “oficial” das Alices. Tampouco é possível desprezar suas gravuras. Equivocadas ou não (Carroll teria confessado a outro ilustrador, Harry Furniss, que não gostara do trabalho de Tenniel, exceto a criação de Humpty-Dumpty para o Looking-glass), são magistrais. É certo que são rígidas, que a sua Alice é inexpressiva e que as figuras são às vezes acadêmicas. Neste item, compare-se com a de Carroll, por exemplo, a sua série de quadros de “You are old, Father William”: ela é bem-comportada diante da série de desenhos hiper-espirituosos do autor. Este último, na óptica moderna, dá de cem a zero. Diz-se que Carroll era um “amador” se comparado à maestria técnica de Tenniel. Mas é preciso que se discuta o sentido desse termo. O que é ser “amador” dentro de artes tão individuais como, por exemplo, a poesia, a composição musical, sobretudo a não-mass media, a escultura, sem objetivo público, ou o desenho criativo, não-técnico? Tem sentido o termo nesses casos (e muitos outros)? Em troca da inventividade inquietante de Carroll, o desenhista dito naïf, as gravuras do “profissional” Tenniel atingem um grau máximo de homogeneidade e são tecnicamente perfeitas. Muito embora hoje não se valorize, tanto quanto no século XIX, o “acabamento” no processo artístico. Por exemplo, hoje parecem se valorizar bem mais os esboços e as peças inacabadas, como sucedeu nos casos das paisagens de Constable e no Balzac de Rodin. As gravuras de Tenniel estabelecem um padrão de valor mínimo de identificação com o texto e a elas sempre se pode recorrer. Talvez a loura Alice não satisfaça tanto (e desgostou a Carroll, que fez uma Alice de cabelos negros e finos, e recomendava a Tenniel que não pusesse tanta “crinolina” (fibra feita de crina) em Alice, referindo-se, talvez, à vasta cabeleira loura…), mas outros personagens são nele memoráveis, como a Duquesa, o Gato de Cheshire e o Chapeleiro Louco, em Wonderland. Na abertura de Looking-glass, temos uma imagem notável de Alice atravessando, de costas, o espelho, e saindo do outro lado. Ela atravessa o espelho e a página, e esta imagem curiosa de relação isomórfica texto-imagem deve ser creditada a Tenniel (a não ser que Carroll a tivesse sugerido, o que não seria impossível, mas não há comprovação). Chame-se a atenção, nesse livro, para as imagens de Tweedledum & Tweedledee, da Morsa e do Carpinteiro e, particularmente, de Humpty-Dumpty. São criações originais de Tenniel, sem nenhuma indicação anterior de Carroll, que inspirariam depois numerosos ilustradores. Elas estabeleceram um padrão básico universalmente adotado e incansavelmente imitado. Este padrão tornou-se uma marca registrada do universo carrolliano, transmitida através dos anos.

Arthur Rackham

ilustração de Arthur Rackham

Um rival mais sério poderia ter sido Arthur Rackham, ilustrador famosíssimo do começo do século XX, ao qual se devem ilustrações notáveis, inclusive as (posteriormente) muito celebradas dos contos de Edgar Allan Poe. A edição ilustrada de Wonderland por Rackham é de 1907 e foi recebida com tantas controvérsias que, parece, não estimularam Rackham a ilustrar também o Looking-glass. Os admiradores fanáticos de Tenniel protestaram contra a “invasão” do que supunham ser um universo privado. Por outro lado, houve um comentador que disse ser a Alice de Tenniel uma “boneca rígida [stiff puppet]”, enquanto a de Rackham era viva. O periódico Punch, órgão de origem de Tenniel, zombou dos novos ilustradores e em particular de Rackham numa charge intitulada “A Alice de Tenniel reina suprema”, na qual Alice, entronizada, pergunta ao Chapeleiro quem eram aquelas criaturazinhas engraçadas ao ver outras Alices, e, quando chega às imagens de Rackham, exclama ironicamente: “Curiouser and curiouser!” (exclamação de Alice quando seu pescoço se encomprida). Rackham, por sua vez, expressava todo o respeito por Tenniel e certamente o tomou como base para suas próprias ilustrações, mas Carroll (com certeza, a fonte primária de Tenniel) talvez tenha sido a fonte com quem mais se tenha identificado. Para começar, sua própria Alice, mesmo loura, diverge da de Tenniel pela suavidade do traço e pela simplicidade. As belas ilustrações coloridas de Alice entre os animais do lago superam de longe o tratamento dado ao episódio por Tenniel. A lição de radicalidade dos desenhos de Carroll está presente em Rackham. Esta similaridade se vê, por exemplo, no violento contraste entre as imagens de Alice com o pescoço crescido e depois quando diminui vertiginosamente a ponto de o queixo tocar o chão. A imagem de Rackham para esta segunda situação tem semelhanças com a de Carroll. Nela, o pescoço esticado se desenvolve em curva, lembrando, segundo o crítico Patrick Hearn, a “linha serpentina” (linea serpentinata, que veio da arte maneirista de meados do século XVI e foi incorporada à estética art nouveau). O pescoço se enreda nos galhos da árvore e faz a pomba gritar “Serpente!”, supondo que Alice quisesse roubar-lhe os ovos do ninho. Enquanto a arte tradicionalista de Tenniel respeita o equilíbrio clássico da composição, a de Rackham, bem mais “maneirista” no sentido moderno do século XIX, tende à distorção e ao labirinto nessa imagem do pescoço confundido entre os galhos de árvore. Segundo Hearn, Tenniel é teatral e hierático na sua arte (e por isso a imagem da “stiff puppet”), enquanto Rackham é dramático. Ele adotou, além disso, uma extrema liberdade de composição, como as criaturas amontoadas no quadro em que representa a “lagoa de lágrimas”, que seguiu, sem dúvida, a lição carrolliana, mas extremando-a, com uma nova interpretação do episódio. A casa da Duquesa em Rackham exprime a idéia de ritmo e caos do episódio (linhas curvas de fumaça, figuras convulsionadas de Alice e da Cozinheira, pratos e panelas esvoaçantes) com perfeição, embora as figuras da Duquesa e da Cozinheira permaneçam inexcedíveis em Tenniel. Muitos detalhes, enfim, fazem da edição de Wonderland por Rackham uma preciosidade à parte.

As inumeráveis versões ilustradas de Alice pós-Tenniel começaram desde o ano da morte de Carroll, com a edição brilhantemente ilustrada por Blanche McManus em 1898, com o autor ainda vivo (mas não há registros de comentários dele sobre McManus). Entre 1899 e 1904, registraram-se outras edições, sendo a mais conhecida a de Peter Newell. A partir de 1907, com a extinção do copyright inglês, as edições explodiram por toda parte. Assinalem-se como as mais interessantes, além das do próprio Rackham, as de Charles Robinson, Harry Furniss, A.E. Jackson e A.L. Bowley. Mas só em 1929 surge, segundo os comentários críticos de hoje, outra edição de grande destaque, com o trabalho de Willy Pogany, que nos trouxe uma Alice surpreendentemente renovada e inspirada no estilo art déco, com traços muito nítidos e definidos. A Alice de Pogany é, segundo os comentadores, uma garota americana típica, bobby soxer, de saia e meias curtas e com o cabelo bem curto da época, no estilo page boy americano. Pogany também incorpora outras americanices, como o desfile de cartas como o naipe de paus que parecem cadetes de West Point, enquanto as de ouros e copas lembram Ziegfeld Follies Chorus Line. Um detalhe característico do ambiente americano é a ilustração da casa da Duquesa, em que se vê uma cozinheira negra, ainda comum na América, mas não imaginável numa cozinha tradicional inglesa vitoriana.

Willy Pogany

ilustração de Willy Pogany

Já da segunda metade do século XX é o trabalho de Ralph Steadman, em 1967, o primeiro a tentar, a partir de traços decididamente modernos, uma reinterpretação do universo carrolliano, drasticamente distante das origens da iconografia aliciana. Há também, pouco acessíveis, edições muito limitadas e raras com ilustrações de Salvador Dalí (1969) e de Max Ernst (1970). Tudo isso quanto às ilustrações para Wonderland, que foi realmente o livro de Carroll preferido para as edições ilustradas diversificadas. Through the looking-glass tem muito menos ilustradores. Tenniel, que assinou a edição básica, criou protótipos que seriam depois recriados incessantemente. Veja-se a versão-chave de Tenniel para compor a imagem de Humpty-Dumpty, e compare-se particularmente com a imagem criada por Philip Gough em 1940: a de Tenniel assinala o lado caricato, o seu Humpty-Dumpty é mais perfeitamente um homem-ovo, enquanto Gough destaca a vaidade e elegância dândi do personagem com roupas finas, cartola e bengala, mas esquece-se da confusão entre cinto-ou-gravata de Alice. Assinalem-se as edições com ilustrações de Blanche McManus (1899), Peter Newell (1901), Franklin Hughes e Philip Gough, especialmente destacadas pela crítica. Segundo a recepção crítica Mervyn Peake (1954), teria sido mais bem-sucedido como ilustrador de Looking-glass do que com Wonderland. Mas o grande destaque são as aquarelas brilhantemente coloridas de Peter Blake em 1970, chamando-se a atenção para o fato de que Blake era um pintor bastante famoso nos meios artísticos. Por isso, talvez, o aspecto plástico brilhante e o colorido exuberante sejam mais marcados do que o aspecto semântico (isto é, suas conotações de sentido) nessas ilustrações.

Millicent Sowerby

ilustração de Millicent Sowerby

Alguns pontos merecem ser assinalados: a) folha-de-rosto da edição de 1907, de Chatto & Windus, ilustrada por Millicent Sowerby, com duas aves enormes de longos bicos que se tocam, formando uma “moldura”; b) o delicioso infantilismo das ilustrações de A.L. Bowley, de 1921, em que Alice aparece com um vestido curto e florido e meias curtas, ao contrário da tradição do vestido e meias longos desde Tenniel até Newell (1902), Thomas Maybank (1907), Thomas Heath Robinson (1922), Gough (1940) e outros; em contraste, versões despojadas como a de Helen Munro (1933) e sobretudo a de Willy Pogany, com vestidos e cabelos curtos, derrubaram o estereótipo vitoriano para impor uma visão moderna da personagem; c) seria curioso, ainda, comparar, por exemplo, as versões de Tenniel e Pogany para o capítulo “A quadrilha da lagosta”: o contraste entre a rigidez da dança em Tenniel com a lepidez de quase vôo da corrida de Alice com o Grifo em Pogany; d) veja-se a notável versão de Philip Gough, com o traço nítido da sua gravura, para “You are old Father William”, e observe-se como ele fundiu e reinterpretou as lições de Carroll e Tenniel; e) enfim, as versões do tribunal valeriam muitas comparações: enquanto Thomas Maybank e K.M.R., por exemplo, mostram uma Alice espectadora, a de Harry Furniss (1926) expõe uma garota assustada que assume uma posição defensiva em meio à desordem. As inúmeras possibilidades simbólicas interpretativas alicianas, aqui mal enumeradas, existem por causa da riqueza referencial desses textos. Outros textos não foram tão férteis. Rhyme? and reason?, livro que contém poemas diversos e o célebre The Hunting of the Snark, depois muitas vezes editado em separado, foi, na primeira edição, espirituosamente ilustrado por Arthur B. Frost quanto aos poemas humorísticos, e Henry Holiday tornou-se o ilustrador clássico para The Hunting of the Snark. Tanto Frost quanto Holiday são bons quando o texto lhes fornece um fundamento que gere a originalidade do traço. No resto, as ilustrações são muito bem acabadas, em adequação ao espírito da época. Também as ilustrações de Harry Furniss para Sylvie and Bruno tornaram-se “oficiais” para esse livro desigual, mas eventualmente rico de referências e de elementos nonsense. As melhores imagens de Furniss são as dos melhores momentos do livro, como, por exemplo, de “A canção do jardineiro”. Mas são em boa parte pictorialmente convencionais, como também muitas passagens do livro.

 

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Texto encontrado no blogue Alicenations. Clique aqui para acessá-lo.

Se quiser saber mais sobre o livro Alice’s adventures under ground, bem como ver as ilustrações feitas por Carroll, clique aqui.

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Antes de começarmos, uma pequena nota: acho importante ressaltar que aqui empregarei as palavras “tradução”, “adaptação” e relacionadas mais ou menos como sinônimas para evitar entrar em discussões demasiado técnicas neste momento e perder o foco. Isso posto, vamos ao que interessa.

Suponhamos que você esteja pensando em ler Alice, mas não saiba qual tradução escolher. Essa, aliás, é uma das dúvidas mais comuns que vejo por aí. Bom, fico feliz em dizer que em português brasileiro temos ótimas traduções dos dois livros, principalmente do primeiro (Alice no País das Maravilhas).

Dentre as diversas opções disponíveis, há três que chamam atenção por sua qualidade diferenciada, sendo inclusive usadas em muitos estudos das áreas de Tradução e de Literatura: as de Sebastião Uchoa Leite (editora Summus), Nicolau Sevcenko (editora Cosac Naify) e Ana Maria Machado (editora Ática). Façamos uma rápida análise de cada uma.

Ana Maria Machado traduziu apenas a primeira obra e se preocupou em produzir uma adaptação voltada mais para o público infantil, substituindo as paródias de poemas e de músicas do livro inglês de 1865 por paródias de poemas e de músicas atuais. Através de tais mudanças, ela manteve a intenção do autor de parodiar textos infantis que fossem conhecidos à época em seu país, porém ajustando essa ideia à sociedade brasileira atual e fazendo assim uma tradução domesticadora, como chamamos na área de tradução. Vale ressaltar que salvo essas mudanças, a tradutora verteu o livro integralmente, assim como todos os outros profissionais citados ao longo deste post.

A tradução de Sebastião Uchoa Leite é considerada por muitos a melhor. Ele verteu os dois livros e encontrou muitas soluções felizes para os diversos (ênfase no “diversos”) desafios tradutórios que a prosa nonsense de Carroll encerra. Por levar em consideração que o leitor seja capaz de reconhecer e interpretar as diversas referências à Inglaterra vitoriana e também por conta do nível de linguagem empregado, trata-se de uma tradução para o público adulto.

Em comparação com as outras duas, a versão de Sevcenko é equilibrada, isto é, contém todas as paródias criadas por Carroll aliadas a uma linguagem simples e ao mesmo tempo sofisticada e artística. Ele também traduziu apenas o primeiro livro, e sua adaptação teve o mérito de ser escolhida pelo Instituto de Cegos do Brasil para ser transcrita em braile.

Há também uma outra edição muito boa, traduzida por Maria Luiza X. de A. Borges (editora Jorge Zahar), que traz os dois livros de Alice em um só volume e é enriquecida com ótimos comentários escritos por Martin Gardner, que ajudam em muito na interpretação das histórias. Essa tradução não foi citada anteriormente porque (ao menos ainda) não goza do mesmo status que as supracitadas. Resolvi incluí-la devido à qualidade dos comentários.

Essas traduções todas têm grande valor e mantêm cada uma a sua maneira o espírito carrolliano. Tentei aqui montar um panorama bem geral, porém em ocasiões futuras analisarei mais a fundo os aspectos formais de cada versão. Espero que vocês tenham gostado do texto e que ele lhes seja útil. Cheers.

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