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Posts Tagged ‘neurologia’

Humpty Dumpty é um dos personagens mais conhecidos de Alice Através do Espelho. Ele é um ovo antropomórfico, filólogo e especialista em questões linguísticas, um ser extremamente orgulhoso e péssimo em matemática. Para ele e seu raciocínio invertido, as palavras comuns significam o que quer que ele queira, enquanto nomes próprios devem ter significação geral. Conforme sugere Sebastião Uchoa Leite no texto “O que a tartaruga disse a Lewis Carroll”[1], Humpty Dumpty faz uso de um nonsense lógico para justificar seus pontos de vista, nonsense esse diferente daquele presente ao longo do livro Alice no País das Maravilhas, por sua vez desvairado.

Originalmente, o personagem provém de uma cantiga infantil popular à época vitoriana:

“Humpty Dumpty num muro se aboletou,

Humpty Dumpty lá de cima despencou.

Todos os cavalos e os homens do Rei a arfar

Não conseguiram de novo lá para cima o içar.”[2]

Humpty DumptyEle é com frequência interpretado como o grande ovo cósmico cuja queda simboliza a queda de Lúcifer e do próprio homem. Em Finnegans Wake, do irlandês James Joyce, Humpty Dumpty é, nessa linha de raciocínio, um dos símbolos essenciais da obra, por exemplo. No contexto do livro de Carroll, uma outra interpretação possível (e óbvia) para o personagem seria enxergá-lo como uma sátira aos intelectuais pedantes que existiam à época e que continuam existindo até hoje.

O nome “Humpty Dumpty” é composto por um jogo de sons interessante, algo apropriado ao gosto de Carroll: o autor frequentemente escolhe usar palavras mais por sua dimensão lúdica, por sua sonoridade (significante), do que propriamente por seu sentido (significado). É interessante notar ainda que, em inglês, “Humpty-Dumpty” é uma expressão usada para ofender alguém de “baixinho e gordo”[3].

Humpty Dumpty é quem, ao seu modo, dá sentido ao nonsense presente no mundo além do espelho, explicando a Alice o que querem dizer algumas das palavras “difíceis” presentes no “The Jabberwocky”[4], um dos mais importantes poemas nonsense já escritos em língua inglesa e que ainda hoje é alvo de teorias e discussões diversas. Na verdade, tais palavras são o que chamamos de “palavras-valise” (“portmanteau words”, em inglês): tratam-se de vocábulos inventados por meio da junção de partes do significante de mais de uma palavra a fim de se formar um só termo que, como uma mala, carrega igualmente mais de um significado. As “palavras-valise”, aliás, são um exemplo de como Carroll brinca com a língua para criar efeitos. As explicações de Humpty Dumpty, além de possibilitarem ao leitor entender do que se trata o “The Jabberwocky”, do ponto de vista do tradutor tornam-se também uma ótima oportunidade para justificar algumas das escolhas tradutórias feitas na tradução do complicado poema, tarefa essa que exige um esforço tão grande quanto o do guerreiro que nos versos decapita a perigosa criatura.

Ao fim de seu encontro com Alice, Humpty Dumpty se despede dizendo:

“‒ Não vou poder reconhecê-la, se nos encontrarmos outra vez ‒ respondeu Humpty Dumpty em tom desgostoso, enquanto lhe estendia um dos seus dedos para ela apertar. ‒ Você é tão exatamente igual a todo mundo.

‒ Em geral, é pelo rosto que se reconhece as pessoas ‒ observou Alice em tom pensativo.

‒ É disso mesmo que estou me queixando ‒ explicou Humpty Dumpty. ‒ Sua cara é tão igual à de todo mundo… tem dois olhos (marcando o lugar dos olhos no ar com o dedo), o nariz está no meio, a boca em baixo. É sempre a mesma coisa. Agora, se você tivesse os dois olhos do mesmo lado do nariz, por exemplo… ou a boca em cima…”[5]

Humpty Dumpty despedidaConforme ressalta Maurício Horta em artigo para a revista “Superinteressante”[6], curiosamente temos aqui a descrição de uma desordem neurológica chamada prosopagnosia, ainda desconhecida à época em que Carroll viveu (ela foi descoberta só bem depois, em 1944, durante a 2ª Guerra Mundial). O prosopagnóstico consegue “reconhecer objetos, mas é incapaz de diferenciar rostos. Isso porque a face é processada em áreas específicas do cérebro, lesionada nos prosopagnósticos.”[7] A saída para conseguir reconhecer alguém em meio a outras pessoas é guiar-se seja pela roupa, pelo modo de andar ou pela presença de cicatrizes na face, por exemplo. A prosopagnosia é uma agnosia visual associativa que pode decorrer de um acidente, mas que comumente é algo já inato.

Tanto Alice no País das Maravilhas como Alice Através do Espelho são livros deveras profundos, divertidos e de grande qualidade. As leituras que deles fazemos evoluem conforme o tempo passa, novas descobertas são feitas e a sociedade se modifica. É isso o que se espera da boa literatura e o que foi comprovado neste texto. Como diz Nicolau Sevcenko, um dos tradutores de Alice, “Alice ainda é e sempre será a melhor lição de ética, de irreverência e de inconformismo, tanto para crianças quanto para adultos.”


[1] LEITE, Sebastião Uchoa. O que a tartaruga disse a Lewis Carroll. In: CARROLL, Lewis. Aventuras de Alice no país das maravilhas e Através do espelho e o que Alice encontrou lá. Tradução de Sebastião Uchoa Leite. 9. ed. São Paulo: Summus. pp. 7-31.

[2] CARROLL, Lewis. Alice – Edição Comentada. Notas de Martin Gardner. Tradução de Maria Luiza X. de A. Borges. 1. ed. São Paulo: Jorge Zahar Editor, 2002. p. 200.

[3] Idem, Ibidem, p. 199.

[4] Em português esse título foi traduzido de diversas formas: “Jaguadarte”, “Pargarávio”, “Tagarelão”, “Algaravião”, “Blablassauro”, “Bestialógico”, etc.

[5] CARROLL, Lewis. Aventuras de Alice no país das maravilhas e Através do espelho e o que Alice encontrou lá. Tradução de Sebastião Uchoa Leite. 9. ed. São Paulo: Summus. p. 200.

[6] HORTA, Maurício. Quando o cérebro não enxerga. Revista Superinteressante Especial – Mistérios da Mente, São Paulo, n. 290-A, pp. 14-21, abril de 2011.

[7] Idem, Ibidem, p. 18.

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