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Material encontrado no blogue da Sociedade Lewis Carroll do Brasil (clique nas imagens para ampliá-las).

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Abaixo, o prefácio escrito por Monteiro Lobato em 1938 para sua tradução de Alice no País das Maravilhas (clique nas imagens para ampliá-las).

Prefácio pág. 1

Prefácio pág. 2

Imagens encontradas no blogue Não Gosto de Plágio, da tradutora e historiadora Denise Bottmann.

Agradecimentos a Ricardo Ferreira, da Urupês.

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Por Lenir Fátima de Castro*


AliceO presente estudo objetiva fazer um confronto comparativo da obra Alice no país das maravilhas, de Lewis Carroll (1865), considerando o texto de algumas de suas versões. Por sua qualidade, tomamos a tradução feita pelo escritor Sebastião Uchoa Leite como ponto de partida e pretendemos comparar este trabalho com outras diversas publicações brasileiras (adaptações) em vários formatos e linguagens. Muitos destes livros têm páginas reduzidíssimas e visam tão somente à circulação para fins comerciais, sem servirem ao objetivo de proporcionar algum conhecimento sobre o enredo ou sobre o estudo da obra de Carroll. Uma de nossas metas é mostrar como os processos de redução e/ou supressão de passagens do texto original fazem o novo texto perder o sentido, além de apontar como se articulam cenas absurdamente descontextualizadas nestes livros de padrão inferior.

Na história original, os maiores atrativos são o “logos fantástico”, o nonsense e a capacidade que o autor tem de imprimir ao texto um encadeamento por imagens e sensações. Capítulos como a hora do chá ou o jogo do croqué com a rainha são de fundamental importância para que seja despertado e se realize o processo imaginativo do leitor. Em alguns textos examinados, esse mecanismo simplesmente não existe mais — quer seja por economia de imagens ou de palavras, ou ambos. De muitas adaptações, foram retirados o fantástico e o maravilhoso, exatamente o leitmotiv do texto original, o que encanta e fora construído para chamar o interesse do leitor, desafiando-o no campo da imaginação.

Devemos retomar uma ideia geral sobre os processos de singularização, tal como explica Chklovski (1970), a partir de exemplos presentes na obra de Leon Tolstoi. Em Guerra e paz, o autor trabalha com este procedimento o tempo todo para que os elementos de sua narrativa sejam convenientemente percebidos. O processo de singularização consiste em particularizar objetos para que o foco de atenção esteja sobre eles — ou seja, este procedimento diz respeito ao objeto que é descrito minuciosamente (muitas vezes sem ser nomeado). Em “Que vergonha”, Tolstoi assim singulariza a noção do chicote: “pôr a nu as pessoas que violam a lei, fazê-las tombar e bater nelas com varas no traseiro”… O chicote habitual é singularizado por sua descrição e pela proposição de mudar a forma sem mudar a essência (1970: 46).

Para a nossa reflexão, contaremos ainda com Ítalo Calvino (1990) que nos fala a respeito do processo de pensar por imagens, em sua concepção sobre visibilidade. A conversa aqui se inicia para desdobrar imagens, refazer contornos. Como um mosaico, cabe ao leitor refazer o caminho…

Sobre Alice no país das maravilhas – considerações

AliceInicialmente, consideremos o que, na obra original de Carroll, julgamos produzir seu núcleo fundador: o autor elabora, com perfeição e riqueza de detalhes, as imagens mentais das várias situações vividas pela menina Alice — os diversos apuros, as diversas dificuldades. Os diálogos travados com o coelho, o gato que sorri ou a rainha de copas, a lagarta que fuma o narguilé, o chá maluco, ou ainda a competição na lagoa, são cenas fundamentais para o leitor “encontrar” e se “encantar” com a história, fazendo surgir aquela dose de deslumbramento que nos cativa. Qual criança não ficaria absolutamente envolvida com todos aqueles bichos nadando na poça de lágrimas que Alice chorou?

Mas, para nosso espanto, existem versões absolutamente superficiais que pretendem dar conta da história em menos de meia dúzia de folhas, descaracterizando completamente o texto de Lewis Carroll. Deparamo-nos, em nossa pesquisa, com livros que continham somente três ou quatro folhas para narrar toda a Alice. Esse reducionismo constitui um crime de “leso-leitor”, por assim dizer. Nega-se a identidade da obra e a suposta versão (adaptação) passa a ter outro sentido, outro significado, alterando-se assim completamente o nonsense e o extraordinário contidos preliminarmente no texto do autor inglês.

Por outro lado, identificamos adaptações que não desmerecem o original. A versão de Monteiro Lobato, dentre muitas adaptações e traduções que examinamos, é a que mais se aproxima do texto de Alice, inclusive com divertidíssimas intervenções de Emília, tia Nastácia, Dona Benta, Pedrinho e todo o pessoal do Sítio do Pica Pau Amarelo. Toda a obra está repleta de construções geniais e uma passagem significativa diz respeito à explicação que o Coelho Branco dá a Pedrinho ao perguntar se ele conhecia alguém que tivesse um despertador: — A Rainha tem, mas usa o ponteiro para fazer tricot. Lobato, de forma primorosa, usa os próprios personagens do Sítio para “recontar” Alice e o resultado são diálogos criativos, inusitados e completamente surpreendentes.

O processo de singularização, descrito por diversos autores (como Chklovski e também Guatari), encaminha o leitor a uma percepção particular de um objeto, uma cena ou evento, de modo a romper com um estágio de letargia para construir novas experiências, fazendo-o reagir e interrogar cotidianamente o mundo. A arte oferece caminhos para que as escolhas possam efetivamente se concretizar de forma livre e consciente.

A imaginação

Imaginação (do latim “imaginatione”) é a faculdade que tem o espírito de representar imagens; fantasia (Aurélio, 1971:742). Entre suas seis propostas, Calvino (1990) começa a descrever e nortear o processo da imaginação através de Dante que, em sua Divina Comédia, nos fala das visões que nos chegam como que projetadas em telas cinematográficas (com a licença do anacronismo); e divide a imaginação em dois campos distintos: imagens que pertencem às suas personagens e às suas próprias visões ou aquilo que acredita ver — recordações, inclusive. Assim, diz Calvino, o que Dante procura definir é a parte visual, que acompanha a expressão verbal. Mais adiante, são definidos dois processos imaginativos: um que parte da palavra para a imagem e outro, inverso, da imagem para a palavra. O primeiro processo se dá quando estamos em contato com a leitura; o segundo, ao nos deparamos com a imagem propriamente dita: como nos filmes, imagens de noticiários ou acontecimentos. Nossa acuidade visual nos faz guardar na memória cenas que visualizamos, embora muitas vezes estas nos cheguem de forma fragmentária, indistinta.

AliceNo caso do contato com o livro, em que primeiro visualizamos as imagens, a imaginação funciona como meio de colocar as personagens em ação de acordo com o que concebemos. Personagens ou situações narradas nos permitem dispor delas de diversas formas, ora são matizes, ora caleidoscópio de nossas sensações — e estão à mercê de nossa vontade. Como Kant definia, em Espírito e Imaginação, “a imaginação está ligada ao princípio insondável das coisas. É uma faculdade extraordinária, um talento excepcional, um dom inato”, propício à fertilização do conhecimento através do contato com a literatura. Ítalo Calvino também colocou em foco a questão das imagens visuais para que pudesse elaborar seus contos fantásticos. As primeiras imagens que lhe vinham à mente eram, sem dúvida, propícias para que sua criação partisse rumo ao visual e, depois, para o conceitual.

Em sua proposta sobre a visibilidade, podemos notar grande preocupação com a perda da capacidade de formar imagens de olhos fechados. Diante de tal dificuldade, privilegiam-se imagens já prontas, e a própria elaboração de idéias vai se perdendo, dando lugar a um mundo cada vez mais embotado pela poluição visual. O ato da leitura resgata, por assim dizer, a capacidade de visualização de imagens mentais, pois conduz o leitor às visões que fazem parte de seu “arcabouço imaginário”.

A comparação entre as obras

Por ser breve nossa abordagem, escolhemos apenas uma versão de Alice no país das maravilhas a fim de compreender como as adaptações se distanciam do original. Primeiramente, faremos alusão à passagem quando Alice toma da garrafa e torna-se menor, cada vez. No texto integral:

“Alice arriscou-se a prová-la. Achou o gosto muito bom (de fato, o sabor era uma mistura de torta de cereja, creme de leite, suco de abacaxi, peru assado, doce puxa-puxa e torradas quentes com manteiga) e bebeu até o finzinho. — Que sensação mais curiosa! — exclamou Alice, — devo estar encolhendo como um telescópio!” (1980: 45)

Esta é a passagem da tradução de Sebastião Uchoa Leite. Em nenhuma outra versão consultada, menciona-se o nome de Lewis Carroll como o autor adaptado em novo texto. Nossa comparação indicará passagens que se distanciam enormemente da obra original, com textos redutores e ilustrações empobrecedoras que dificultam a leitura e subtraem do leitor a magia de Alice. A versão que selecionamos para comparar a mesma passagem está descrita desta forma:

“…felizmente, atingiu o fundo sem se machucar. Viu uma porta muito pequena e exclamou: “Não poderei passar, esta porta é pequena demais!” “Beba um gole desta bebida e você ficará pequenininha”, disse-lhe um simpático ratinho. Alice engoliu aquele líquido e tornou-se muito pequena. Do outro lado da porta havia um jardim maravilhoso, no qual as árvores e os cogumelos possuíam portas e janelas.” (p. 3)

Muito se perdeu da riqueza em detalhes, quando atentamos para a descrição minuciosa do “sabor da bebida” que a adaptação não nos mostra. Há que se levar em conta o fato de que as ilustrações também não condizem em nada com o livro original. Por exemplo, o coelho, ao passar por Alice, leva na mão um despertador enorme, não mais o famoso relógio de bolso que é seu charme diferencial.

AliceOutra passagem importante, suprimida das adaptações meramente comerciais, diz respeito ao choro de Alice, quando esta não acha a chave dourada — e chora tanto que, com suas lágrimas, surge uma lagoa. Nos livros que analisamos, não há nenhuma referência a esta experiência vivida pela personagem, e a corrida promovida por Alice e os bichos simplesmente deixa de existir nas adaptações que estudamos. Como eliminar uma seqüência tão encantadora quanto aquela em que vemos Alice esforçando-se em nadar para “sair” do mar e, enquanto isto, se questiona: seria melhor que não tivesse chorado tanto! … serei castigada agora por isso, parece, afogando-me nas minhas próprias lágrimas! (1980:50) (tornando literal uma metáfora clichê). O diálogo com os bichos na lagoa faz com que o leitor preste atenção redobrada à história, principalmente para saber quem vai ganhar a corrida. Quando estas passagens são retiradas, corta-se muito do encantamento.

A linguagem extremamente econômica e a supressão dos diálogos interessantes fazem com que não haja nenhuma reflexão sobre o que está sendo lido. Acrescentam-se figuras, algumas frases desconexas e simplistas e já temos, aí, outro livro sem nenhum contato com a obra original.

Procuramos dirigir nossas leituras da obra de Carroll e suas adaptações a partir de dois pressupostos complementares: a imaginação ativa e a singularidade das descrições que permitem ao leitor uma experiência única no campo da leitura. Buscamos trazer ambas as definições para que este leitor se capacite a “visualizar as imagens de olhos fechados” e, a partir delas, formar seu “arsenal” profícuo de personagens fantásticos. Começar do zero — assevera Calvino.

Quem sabe não seria este o caminho para que pudéssemos re-iniciar com propostas aptas a abrirem um espaço de interlocução e conduzir os leitores (sem qualquer tipo de amarra) a uma leitura de fruição, de retorno ao fantástico e ao maravilhoso? Construir uma escola pautada pela alegria e pelo afeto, baseada na reflexão, seria uma utopia? Não. Nossa proposta é por uma sociedade de inclusão em que todos possam participar, democratizando, assim, o saber e repartindo os bens culturais. Que princípios éticos, morais, sociais e igualitários sejam para todos e não para alguns. Uma sociedade inclusiva poderá contar com a história integral de Alice no país das maravilhas para todas as crianças, quer sejam elas de escola pública ou privada. Aqui nutrimos nosso sonho: um lugar em que se “desdobre” a literatura, atraindo o leitor para o desejo e a posse total da significação da linguagem, re-inaugurada a cada dia no seu cotidiano.

*Lenir Fátima de Castro (UFF) apresentou este trabalho no III Congresso Internacional de Leitura e Literatura Infantil e Juvenil do Oeste Paulista – “A criança e o livro: das teorias às práticas educativas”, realizado na Universidade Estadual Paulista – UNESP/Campus Presidente Prudente, em 28 de agosto de 2006.

Referências Bibliográficas:

[1] BENJAMIN, W. O Narrador (1936). In: Magia, Técnica, Arte e Política. São Paulo: Brasiliense, 1985.

[2] CALVINO, I. Seis propostas para o próximo milênio. São Paulo: Companhia das Letras, 1990.

[3] CHKLOVSKI, V. A arte como procedimento. In: EIKHENBAUM et al. Teoria da literatura: formalistas russos. Porto Alegre: Globo, 1970.

[4] FREIRE, P. Pedagogia do oprimido. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987.

[5] LAJOLO, M. Do mundo da leitura para a leitura do mundo. 3ª ed. São Paulo: Ática, 1997.

[6] NUNES, B. Introdução à filosofia da arte. São Paulo. Ática, 1989.

[7] PAULINO, G. (org.). O jogo do livro infantil. Belo Horizonte: Dimensão, 1997.

[8] PENNAC, D. Como um romance. Rio de Janeiro: Rocco, 1995.

[9] SERRA, E. (org.). Ler é preciso. São Paulo: Global Editora, 2002.

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