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Posts Tagged ‘contos de fadas’

Durante o século XIX, os contos de fadas foram fortemente criticados por não ensinarem nada específico e por não conterem valores cristãos, sendo malvista a própria presença do elemento fantástico nas histórias. Acreditava-se que os livros infantis deveriam ter conteúdo educacional, e assim, em 1840, os contos clássicos passam a ser reformulados e refinados de acordo com a nova postura moralizante. Nas décadas de 1840 e 1850, além da reescrita, muitos contos de fadas novos são criados, entretanto tratam-se de histórias fracas e sem originalidade.

E é nesse contexto que, em 1865, o livro Alice no País das Maravilhas é lançado, seguido seis anos depois pelo Alice Através do Espelho. Contudo, diferentemente das outras várias histórias infantis escritas à época, a devoção, o moralismo e o cunho didático não se fazem presentes nas obras de Carroll. Ainda assim, as Alices foram muito bem recebidas pela crítica e pelo público, sobreviveram ao tempo e suas aventuras são hoje das mais traduzidas e lidas no mundo. Por quê?

Para alguns, especialmente para as crianças, o que encanta nas aventuras de Alice é o fantástico (as mudanças de tamanho, os animais que falam, os acontecimentos imprevisíveis…), e para outros, é a lógica usada por Carroll para desenvolver as idéias, incluindo aí a habilidade do autor na escolha das palavras para criar, dentre outros, piadas, ironias e sensações diversas. Mas talvez o que mais faz com que os leitores se identifiquem é a forma como o nonsense é colocado em oposição à rotina diária e enfadonha da escola.

Seja no País das Maravilhas ou no mundo do outro lado do espelho, Alice é constantemente lembrada de coisas que aprendeu, mas sempre de maneira distorcida, o que faz com que tais coisas fiquem sem sentido. Por exemplo, os versos moralizantes que as crianças tinham que decorar nas escolas são ironizados na forma de paródias; fatos históricos sobre os anglo-saxões são repetidos pelo Rato como as coisas mais “secas” que ele conhece; a personagem Duquesa, que tem o hábito de encontrar uma moral irrelevante e absurda em tudo, é um escárnio contra se querer moralizar todas as histórias infantis; as matérias que a Tartaruga Falsa diz ter estudado na escola são uma crítica clara ao sistema de ensino; o final do Através do Espelho, em que Alice sacode a Rainha Vermelha, a essência concentrada de toda governanta (ela gosta de dar a todo momento instruções rápidas de etiqueta), também é bastante sugestivo; dentre outras muitas passagens satíricas.

Assim, pode-se ver como os dois livros de Alice vêm numa direção contrária às tendências moralizantes da época. Tratando tudo com bom humor e nonsense, Carroll reduz as dificuldades do dia-a-dia infantil de algo assustador para uma realidade tolerável. Ainda que Alice seja questionada e maltratada por outros personagens, o controle final é dela, e com isso o leitor se identifica e percebe que não é apenas um sujeito passivo dentro do mundo em que vive.

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Link para download:

http://www.4shared.com/document/mCp_s414/Prface_de_Jean_Gattgno.html

Agradecimentos a Teresa de Almeida Arco e Flexa pelo material.

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O texto abaixo, escrito por Anne-Marie Meudal e por mim traduzido, é parte da monografia intitulada Le Merveilleux Littéraire au Cinéma : Alice au Pays des Merveilles, disponível integralmente aqui.


sapo e princesaO que é o gênero maravilhoso?

Comecemos esta abordagem genérica com uma citação que já determina alguns limites essenciais:

“O termo maravilhoso qualifica o registro em que o sobrenatural se une de forma harmoniosa à realidade para encantar o leitor.”¹

O maravilhoso, portanto, subordinar-se-ia a priori ao sobrenatural se retomarmos esta definição de Henri Bénac, e o sobrenatural, quanto a ele, designaria:

“O conjunto das manifestações que contradizem as leis da natureza.”²

Originalmente, o maravilhoso pertencia ao gênero épico. Com efeito, as epopeias continham as mirabilia, isto é, feitos dignos de admiração, manifestações de Deus sobre a terra, bizarrices geográficas, seres anormais, etc. Posteriormente apareceu o que chamou-se de “Maravilhoso Cristão”, ou “Matéria de França” e “Matéria da Bretanha”. Dessa vez, os milagres tinham Deus como origem. No entanto, a data de maturação do maravilhoso literário remonta efetivamente ao século XVIII, visto que é nesse período que os contos orais transmitidos de geração a geração foram escritos. Do ponto de vista etimológico, se o adjetivo “maravilhoso” aparece desde o século XII, é necessário contudo esperar igualmente até o século XVIII para registrar de fato os primeiros usos do substantivo como designação de uma categoria literária tal como é.

Todavia, também não se deve negligenciar as contribuições de Charles Perrault, de Madame d’Aulnoy e de Madame Le Prince de Beaumont em toda a esfera de influência dos contos de fadas e do maravilhoso do séculos XVII ao XVIII. Na literatura popular, quer seja nos contos, nas lendas ou nas trovas, a representação do mundo se exprime através dos mitos. Essa literatura é povoada de imagens que apelam ao maravilhoso a fim de despertar os sentidos para o entendimento do mundo. As imagens transmitem mensagens. Elas funcionam como símbolos. Após essa época, o maravilhoso desaparece completamente da produção francesa mas perdura na Inglaterra por meio das canções infantis conhecidas do outro lado do Canal da Mancha como “Nursery Rhymes”.

flautistaNa Idade Média, quando se pretendia assinalar a entrada em cena do portento ou do supranatural, os autores medievais falavam em maravilha, e não em maravilhoso, levando assim em conta o acontecimento em detrimento à escrita. Os milagres de Deus e as tentações do diabo pertencem à maravilha, tipos de maravilhoso cristão que evocam espontaneamente as canções de gesta ou as lendas de santos. Neles unem-se igualmente os encantos da Bretanha, o maravilhoso celta de onde bebem os romances arturianos e os lais com elementos fantásticos.

As mirabilia (do verbo mirari, que significa “ver”) instauram não somente um conflito entre a percepção das coisas e sua compreensão, mas são além disso frequentemente marcadas por uma ambiguidade inquietante: como saber se tratam-se de uma manifestação do bem ou do mal? Para compreendermos, é necessário recordar que o imaginário com freqüência recorreu ao corpo. Jean-Jacques Le Goff faz sempre uma aproximação estreita entre o imaginário e a sensibilidade. Em sua obra sobre o maravilhoso medieval³, ele precisa que se trata de uma categoria que vem desde a Antiguidade, e mais exatamente do saber romano na Idade Média cristã. Não se deve confundir o maravilhoso com o miraculoso reservado a Deus, que se manifesta por um ato divino desafiador das leis da natureza, nem com o mágico que é uma forma condenável de bruxaria atribuível ao diabo e aos seus sequazes.

O substantivo maravilha originou posteriormente o verbo maravilhar(-se), no sentido de admirar(-se).

Por maravilhoso, compreende-se a priori, que os eventos inexplicáveis respondem às convenções alegóricas. As mirabilia são coisas admiráveis, espantosas, assumindo a designação de “aquilo que se afasta do curso ordinário das coisas”4. A imagem do maravilhoso transporta seu leitor para um outro lugar, autoriza tal deslocamento fantástico a um outro espaço, outro mundo; trata-se realmente de um outro universo desconhecido, mágico, estranho. É próprio da temática da evasão que transporta os protagonistas a um outro local diferente daquele por eles conhecido, um espaço ignoto onde eles vão sem nenhuma dúvida ser levados a fazer várias descobertas.

três porquinhosDo ponto de vista da recepção no interior da narrativa, que podemos qualificar então de “intra-diegética”, é interessante notar que o maravilhoso não provoca em geral reação particular alguma nas personagens. O leitor sabe que está entrando no domínio do irracional e que nada será justificado, na medida em que tudo nesse universo é então considerado como óbvio. As personagens não são surpreendidas em demasia pelos acontecimentos circunvizinhos, pelas novas leis ambientes, mas aceitam tacitamente as novas regras estabelecidas. Uma coerência autêntica se instala entre a personagem e o novo universo onde essa evoluirá.

O maravilhoso permanece antes de mais nada uma figura simbólica da real ordem da evidência e do cotidiano. É o leitor quem se admira, que “se maravilha” no sentido original do termo, e é isso o que institui a magia da narrativa maravilhosa. Na verdade, o termo maravilhoso, tomado em seu sentido etimológico, aplica-se então à reação do público leitor, referindo-se mais à postura particular das pessoas do que à escrita em si.


Referências:

¹ Guide des idées littéraires, Paris, Hachette, 1988. Tradução nossa.

² Le Fantastique, de Joël Malrieu, Paris, Hachette, (Contours Littéraires), 1992. Tradução nossa.

³ Héros et merveilles du Moyen-Age, Jean-Jacques Le Goff, Paris, Seuil, 2005.

4 Dictionnaire international des termes littéraires, disponível online no sítio <http://www.ditl.info&gt;. Tradução nossa.

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