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Posts Tagged ‘Alice’s Adventures under Ground’

É com grande satisfação, contentamento e orgulho que compartilho com vocês, leitores, mais uma monografia minha sobre as Alices, dessa vez abordando questões concernentes à área de educação – a outra monografia, sobre as Alices e tradução literária, também já foi postada aqui no blogue. Sem mais, espero que gostem:

RESUMO

O presente estudo visa analisar literariamente alguns dos símbolos existentes nos livros Alice no País das Maravilhas (1865) e Alice Através do Espelho (1871), escritos por Lewis Carroll (1832-1898), a fim de propor como se trabalhar as obras supracitadas com fins didáticos, focando especificamente na docência de aulas de Língua Portuguesa para alunos da 8ª série (9º ano) do Ensino Fundamental.
Ao longo deste trabalho, será abordado como se deram o surgimento das atividades de escrita e de leitura e seu ensino em diferentes épocas; tratar-se-á o que os principais documentos brasileiros sobre educação defendem quanto ao ensino de Língua Portuguesa nas escolas; serão expostas algumas informações sobre o contexto histórico da escritura das narrativas carrollianas; dados sobre a vida de Lewis Carroll e sobre sua psicologia estarão evidenciados; os dois livros em questão terão algumas de suas partes-chave analisadas a fim de que se possa ter uma ideia do quão plurissignificativos são e para que o docente aqui encontre uma espécie de miniguia de leitura das histórias; e, por fim, será apresentada a proposta didática, que objetiva a introdução dos alunos aos estudos literários de maneira que lhes sejam estimulados o gosto e o prazer pela leitura.

Palavras-chave: Educação, docência, Alice no País das Maravilhas, Alice Através do Espelho, Lewis Carroll, literatura, era vitoriana.

Link: GONCALVES, Higor. Entrando na toca do Coelho

Arte por Su Blackwell

Arte por Su Blackwell

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Conforme exposto na seção “Leia-me” aqui do blogue, eu vinha já há algum tempo estudando as Alices, lendo sobre a vida do Lewis Carroll e pesquisando o contexto da Era Vitoriana a fim de elaborar uma monografia que relacionasse esses assuntos à área de tradução. À medida que os textos por mim preparados iam ficando prontos, eu os postava aqui para vocês, leitores, que sempre me motivaram a seguir em frente. Portanto, antes de mais nada gostaria de expressar aqui neste espaço meus sinceros agradecimentos a todos que vêm acompanhando o The Bloggerwocky e tecendo comentários sobre o site no Facebook, Orkut, Twitter ou aqui mesmo no blogue.

Agradecimentos feitos, é hora de irmos direto ao ponto principal deste post: no fim do ano passado concluí e defendi minha monografia, a qual foi muito elogiada e, para minha grande alegria, recebeu nota máxima por parte da banca examinadora. É então com muita satisfação que venho compartilhar esse trabalho com vocês. Espero que gostem e comentem:

RESUMO

Traduzir literatura é uma tarefa árdua, principalmente no caso de textos altamente polissêmicos. Nesse sentido, o presente trabalho tem como objetivo explicitar algumas das dificuldades e problemas com que se depara um tradutor literário frente aos desafios de uma obra altamente artística. Para tanto foram escolhidos os livros Alice no País das Maravilhas (1865) e Alice Através do Espelho (1871), escritos por Lewis Carroll (1832-1898): duas histórias das mais conhecidas e traduzidas no mundo, que por serem carregadas de referências à era vitoriana, jogos sonoros e poemas, trazem sempre dificuldades quando de sua transposição para outras línguas.
Ao longo deste trabalho, esses dois livros terão algumas de suas partes-chave analisadas a fim de que se possa ter uma ideia do quão plurissignificativos são, serão apresentadas algumas informações sobre o contexto histórico da escritura das narrativas, dados sobre a vida do autor e sobre sua psicologia estarão evidenciados e por fim encontrar-se-á uma sugestão de tradução para o capítulo 4 do Alice no País das Maravilhas, seguida de comentários feitos a partir do ponto de vista tradutório, de forma a ilustrar como toda a teorização e estudo da obra funcionam na prática.

Palavras-chave: Tradução literária, Alice no País das Maravilhas, Alice Através do Espelho, Lewis Carroll, literatura, era vitoriana.

Link: GONÇALVES, Higor B. Um sonho lúcido…

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Os livros Alice no País das Maravilhas (1865) e Alice Através do Espelho (1871) são, desde o século XIX, quando foram escritos, não apenas clássicos da literatura inglesa, mas clássicos da literatura universal. Há gerações eles encantam crianças, jovens e adultos, e assim Alice sai do simples domínio do papel impresso para povoar o imaginário de todos que passam a conhecer suas aventuras, tornando-se a personagem um arquétipo do feminismo e da pureza, da sagacidade, da curiosidade e do espírito aventureiro infantis. Isso acontece de uma forma tal que atualmente grande número de releituras (muito variadas entre si) da personagem e das situações narradas nos livros aparecem em qualquer parte do mundo sob a forma de ilustrações, filmes, jogos, músicas, animações ou mesmo inseridas em outros livros, não necessariamente literários.

Lewis Carroll

Lewis Carroll

Todo esse sucesso decorre da originalidade e da destreza com que o autor, Lewis Carroll, pseudônimo de Charles Lutwidge Dodgson, consegue criar histórias polissêmicas e de consequente valor literário. Alice no País das Maravilhas e Alice Através do Espelho são independentes entre si, porém podem ser vistas como complementares por compartilharem muitos elementos e terem mais ou menos a mesma essência.

Convém salientar que a personagem Alice foi inspirada em uma menininha real, chamada Alice Pleasance Liddell[1]. Diferentemente do que as pessoas influenciadas pela famosa animação de Walt Disney[2] e pelas ilustrações de Tenniel possam imaginar, a Alice de carne e osso, filha do deão do Christ Church, tinha cabelo escuro. Foi para ela que Carroll criou o Alice no País das Maravilhas. É interessante ressaltar que ainda que Dodgson gostasse muito da menina e tenha tentado homenageá-la, o próprio nome “Alice” nas histórias não deve ser interpretado como um mero acaso: derivado do grego “Alétheia” (“ἀλήθεια”), ele significa “Verdade”, reforçando a interpretação mais ampla dos livros carrollianos para além dos fatos narrados e abrindo todo um escopo de possibilidade de entendimento dos diversos enigmas que abundam nas duas obras.

A ideia para o primeiro livro, aliás, surgiu durante um passeio de barco a 4 de julho de 1962, em que Alice e suas irmãs pediram para Dodgson, um amigo da família, lhes contar uma história. Ele então inventou um embrião oral da narrativa, o qual por sua vez transformou-se no Alice’s Adventures under Ground, um livro redigido à mão (e já com ilustrações, feitas pelo próprio Dodgson) que o autor deu à menina como presente de Natal. Algum tempo depois o escritor decide publicar a história, mexe consideravelmente no texto e entra em contato com um ilustrador profissional famoso da época, chamado John Tenniel, para fazer as ilustrações. Essa publicação é o Alice no País das Maravilhas tal como o conhecemos, e a primeira edição foi bancada pelo próprio Dodgson. Ele sempre se preocupou com qualidade, por isso cuidava para que o acabamento das edições fosse o melhor possível. O sucesso foi enorme já no lançamento, sendo o livro mais vendido, e de lá para cá nunca mais deixou de ser reeditado.

Dodgson é uma figura bastante enigmática. Da mesma forma como assinava seus trabalhos literários com um pseudônimo, há críticas que defendem que sua própria personalidade também era dupla: de um lado haveria o lado fortemente racional do Dodgson real, um matemático, professor, religioso, homem apegado à normalidade da época e autor de livros sobre lógica e matemática; e em oposição, haveria um lado sonhador, o lado Carroll, aquele do mundo interior que se abre ao fantástico e que se manifestava nos trabalhos literários.

Também, até hoje se discute se ele era ou não pedófilo, já que só gostava de ficar na companhia de menininhas e não se sentia muito confortável com garotos ou adultos. Eram muitas as suas amiguinhas, e ele gostava de lhes escrever cartas peculiares, com desenhos ao invés de palavras. Várias dessas cartas foram preservadas até hoje, com exceção daquelas escritas para Alice, as quais desapareceram todas. Se essa atração por garotas era de cunho sexual ou não só temos como especular, pois não há fatos concretos que provem o que quer que seja. Ainda quanto a essa polêmica, é curioso notar que Dodgson mantinha um diário, mas as páginas que podiam ter alguma informação sobre sua relação com as meninas, bem como as páginas que em teoria continham o motivo de os laços com a família da Alice terem sido cortados, foram misteriosamente arrancadas após sua morte, talvez por algum membro de sua família. E isso levanta algumas suspeitas, pois o que é que poderia haver ali para que fossem arrancadas? Será que era algo comprometedor? Que fim teriam levado as cartas escritas para Alice e o que haveria nelas?

Dodgson tinha afeição pela lógica, por escrever e por meninas, e tinha como hobby a fotografia (à época uma novidade). Gostava de fotografar suas amiguinhas, fazendo por vezes até nus, mas tudo sempre com o consentimento das famílias e das próprias meninas. Esses nus, vale frisar, não têm nada de erótico, são apenas ensaios artísticos. E aí destaca-se outro traço importante da personalidade de Carroll: ele sempre foi muito nostálgico e inclusive escreveu poemas dizendo que gostaria de voltar a ser criança e que trocaria tudo por ser jovem de novo. E o que é que há de mais nostálgico do que a própria arte da fotografia? Fotografar nada mais é do que “congelar” alguma coisa em um determinado espaço e tempo. Dessa maneira, Carroll poderia ter as amiguinhas para sempre imutáveis. Já que é impossível não crescer, ao menos a juventude e a inocência delas estariam para sempre preservadas nos retratos, reificadas, uma réplica vulgar da essência. Meninas presas porém ausentes.

Outra peculiaridade interessante é que Carroll tinha uma coleção de bonecas, que alguns dizem servir para “atrair” as meninas. Mas se isso for analisado com mais calma, pode-se perceber que, psicologicamente falando, talvez o que aconteça nesse caso seja o mesmo que acontece no da fotografia, isto é, uma maneira consciente ou não que o autor encontrou de amenizar a nostalgia que havia dentro de si. Basta parar para pensar na semelhança entre bonecas e a imagem feminina (analogia que aliás é feita desde a antiguidade). Dodgson talvez tivesse o sonho de possuir uma menininha que nunca envelhecesse. A dedicação em escrever histórias nonsense para crianças, aliás, talvez tivesse como fim estabelecer um contato com o mundo infantil, que ele tanto admirava.

Com o tempo, a nostalgia de Carroll cresce e isso se reflete nas suas obras literárias. Por exemplo, ao compararmos o Alice no País das Maravilhas com o Alice Através do Espelho, notaremos que no segundo, escrito seis anos mais tarde, Alice sofre um tipo de crueldade sutil que diverge do tom do primeiro livro e que a personagem também passa por acontecimentos melancólicos impensáveis no contexto de sua primeira aventura, como por exemplo no capítulo cinco:

Assim deixou-se o barco seguir pelo ribeirão ao seu bel-prazer, até que deslizou suavemente para o meio dos juncos oscilantes. Então as manguinhas foram cuidadosamente arregaçadas, e os bracinhos mergulhados até os cotovelos para pegar os juncos bem mais abaixo antes de quebrá-los… e por algum tempo a Ovelha e seu tricô sumiram da cabeça de Alice, enquanto ela se debruçava sobre a borda do barco, só as pontas dos cabelos emaranhados mergulhando na água… e, com olhos faiscantes e sôfregos, apanhava feixe após feixe dos encantadores juncos perfumados.

“Espero que o barco não vire!” disse para si mesma. “Oh, que lindo é aquele. Só que não consegui alcançá-lo.” E certamente parecia um pouco enervante (“quase como se fosse de propósito”, ela pensou) que, embora conseguisse colher quantidades de lindos juncos à medida que o bote deslizava, houvesse sempre um mais lindo que não podia alcançar.

“Os mais bonitos estão sempre mais longe!” disse por fim, com um suspiro ante a teimosia dos juncos em crescerem tão afastados, enquanto, faces afogueadas e cabelo e mãos pingando, tentava voltar a seu lugar e começava a arrumar seus recém-descobertos tesouros.

Que lhe importava naquele momento que os juncos tivessem começado a murchar e a perder seu perfume e beleza, desde o momento em que os colhera? Até juncos perfumados reais, como você sabe, duram só por pouco tempo… e esses, sendo juncos de sonho, derretiam quase como neve enquanto repousavam em feixes aos pés dela… mas Alice mal percebeu isso, tantas outras coisas curiosas tinha para pensar. (CARROLL, 2002, p.58)

Seriam os juncos uma metáfora para a efemeridade da beleza das crianças de que Carroll gostava, ou mais além, para a fugacidade de todo tipo de beleza?

A vida de Dodgson sempre foi envolta em muito mistério. Foram vários os biógrafos e comentadores de suas obras que se propuseram a tentar desvendar os inúmeros enigmas e lacunas que envolvem criador e obras. De uma forma ou de outra, é disso que é feita a boa literatura: de releituras sempre novas e atualizadas e de, por vezes, dados biográficos que instigam a curiosidade das mentes curiosas.

 


[1] É interessante atentar na simetria existente entre os nomes “Alice Liddell” e “Lewis Carroll”. O número de letras é o mesmo e a relação consoante-vogal também chama a atenção: no primeiro nome, onde em um há consoante, no outro há vogal; e no sobrenome, a posição das consoantes e das vogais é a mesma.

[2] Essa versão de Walt Disney é na verdade uma mistura das histórias dos dois livros, apesar de levar o título “Alice no País das Maravilhas”.

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Link para download:

http://www.4shared.com/document/mCp_s414/Prface_de_Jean_Gattgno.html

Agradecimentos a Teresa de Almeida Arco e Flexa pelo material.

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Capa

Material encontrado no blogue da Sociedade Lewis Carroll do Brasil (clique nas imagens para ampliá-las).

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LEITE, Sebastião Uchoa. O universo visual de Lewis Carroll. In: Crítica de ouvido. 1. ed. São Paulo: Cosac & Naify, 2003.

 

O universo visual de Charles Lutwidge Dodgson, conhecido como Lewis Carroll, é muito amplo, e não dá para ser abordado em um simples artigo, mesmo se nos restringíssemos ao seu universo imagético ativo, isto é, o que foi produzido pelo próprio Carroll como desenhista e fotógrafo. Aqui, será considerado não só este universo ativo como também o passivo, o que se criou graficamente, desenhos e gravuras ou aquarelas em cor. Quanto ao primeiro caso, o de Carroll produtor de imagens visuais, é conhecido dos que se aproximaram estreitamente da sua obra, mas não é avaliado nem divulgado com freqüência para um público mais amplo. O legado visual passivo de Carroll esteve presente para os seus contemporâneos, com os seus diversos ilustradores, e deve-se citar particularmente o caso das gravuras feitas em vida de Carroll pelo ilustrador e cartunista John Tenniel. Tão populares ficaram tais gravuras que passaram a ser reproduzidas até em produtos amplamente consumidos no cotidiano, como latas de biscoitos, por exemplo. No ano posterior à morte de Carroll, publicou-se um The Lewis Carroll Picture Book, gravadas em dourado na sua hardcover vermelha as imagens ultraconhecidas, através das ilustrações de Tenniel, do Grifo e do Coelho Branco. Editado por Stuart Dodgson Collingwood, sobrinho do autor, trazia “Uma seleção de escritos inéditos e desenhos de Lewis Carroll, junto com reimpressões de obra rara e desconhecida”, entre eles pequenos textos de prosa e poemas retirados de The Rectory Magazine, jornalzinho de um Carroll iniciante, acompanhados de desenhos humorísticos, os quais já revelavam a inclinação do jovem escritor para o humor nonsense que desenvolveria depois. Os desenhos eram, naturalmente, espontâneos e não muito trabalhados, porém já carregados do fino espírito que revelaria depois. Os dons gráficos de Carroll foram inequívocos, sem terem sido amplamente desenvolvidos, de acordo com os padrões de acabamento da época. Ele, porém, tinha um espírito mais livre, tendo se colocado sempre como um amador. Quer dizer, Carroll jamais quis se igualar aos desenhistas profissionais, tanto que, ao editar comercialmente os livros de Alice, chamou o famoso John Tenniel para cuidar das ilustrações, apesar de desentender-se com ele várias vezes. Mas isso já faz parte do rico anedotário em torno do autor, sobretudo suas implicâncias e razinzices. Não parece jamais ter feito questão de ser “simpático”.

 

O desenhista do underground

 

Seu talento original aparece mais no manuscrito da primeira versão da história de Alice, narrada oralmente em 1863 e depois intitulada Alice’s adventures under ground, ao ser escrita em 1864 e presenteada pelo autor à menina Alice Liddell (ampliada e publicada em 1865-66 como Alice’s adventures in Wonderland). Os desenhos originais de Carroll são altamente expressivos e despojados. São intertextuais, situados nas bordas ou ocupando curiosos espaços, como o desenho da menina que se estica de repente e tem o pescoço crescido, o qual se estende pela margem esquerda interna do texto, de alto a baixo. Os desenhos têm todos uma linha fina muito simples, ao contrário do rebuscamento das gravuras de John Tenniel. Alguns ocupam uma página inteira dentro de molduras retangulares, horizontais ou verticais, como aquele em que aparece Alice seguida por todos os bichos dentro do lago criado por suas lágrimas. Os dedicados ao poema “You are old Father William” se destacam pelo humorismo nonsense peculiar e podem ser comparados aos que Edward Lear dedicou aos seus limericks. Pertencem ao mesmo clima de figuras nonsense. Vários outros mereceram ainda destaque pelos comentários críticos comparativos sobre Carroll versus Tenniel. E uma observacão merece ser feita, pelo menos: os desenhos de Carroll lembram intensamente as histórias de quadrinhos do século xx. Isto é, têm a mesma fluidez e graça dos melhores newspaper comics dos anos 20 e 30 do século xx, como o Krazy Kat, de George Herrimann, por exemplo, embora algumas características, como a invasão das margens, digamos, surjam ainda em quadrinhos modernos, sobretudo alguns mais inventivos, dedicados a minisséries, como as de Frank Miller ou Allan Moore.

Lewis Carroll

ilustração de Lewis Carroll

Donald Rackin, em seu ensaio “O que é tão engraçado em Alice no país das maravilhas?” (“What’s so funny about Alice in Wonderland?”), para fundamentar sua hipótese dos livros de Alice como “comédia do horror”, vale-se dos desenhos de Carroll em contraposição aos de Tenniel. No primeiro exemplo que cita, o pescoço de Alice, que se estica e tem no alto a fisionomia resignada e sonhadora da personagem, Rackin supõe se expressar muito mais a sensação dolorosa de aceitação, tal como (ele irá dizer depois) no Gregório Samsa de A metamorfose, de Franz Kafka. Esta sensação absolutamente não é transmitida pela gravura de Tenniel. O segundo exemplo é o de Alice na casa do Coelho Branco. Ela cresce e ocupa todo o espaço, e nele se aloja, encolhida, sem escapatória, com o corpo na posição fetal, que transpiraria, segundo outros, a fantasia de regresso carrolliana. No desenho de Tenniel, há uma janela por onde sai o braço de Alice, uma brecha para o conforto dos perturbados leitores. Tanto Rackin quanto William Empson, no seu complicado mas brilhante ensaio sobre Carroll, observam que no desenho deste a posição drástica da menina dentro do quadro está relacionada com a memória do corpo na sua fase fetal, o que remete para as interpretações psicanalíticas de Carroll. Mais uma vez, observa Rackin, nota-se a expressão resignada e sonhadora da menina. Finalmente, Rackin compara as imagens de Alice com o Grifo e a Falsa Tartaruga: na gravura de Tenniel, os dois parecem figuras cômico-ridículas, apenas, e compõem, na dança com Alice, um pas de trois levemente grotesco. No desenho de Carroll, os dois, ao dançarem, são hiperdimensionados em relação à figura da menina, estão soltos no espaço e têm (para Rackin) um ar mais ameaçador. Pode-se acrescentar, ao comentário de Rackin, um outro, no sentido de que o salto das figuras expressa um delírio nonsense que não é transmitido pelas imagens de Tenniel, muito mais contidas. A conclusão de Rackin é que as imagens criadas por Carroll são mais verdadeiras porque mais estreitamente relacionadas com o texto original. Além disso, as gravuras de Tenniel, embora bem mais “técnicas”, suavizaram o original mais radical, ou, mais precisamente, segundo o comentário de Rackin, “adoçaram” a imagética carrolliana. Adoçaram no sentido de que as imagens criadas por Tenniel são mais digeríveis pelo gosto médio da época, enquanto o estilo de desenho de Carroll, que parece naïf, está mais perto da modernidade bastante posterior de um Paul Klee, por exemplo, na trilha de revalorização de certo traço “primitivo” e na exploração do nonsense.

 

Alice interpretada por seus ilustradores

 

Tenniel

ilustração de Tenniel

É impossível negar que John Tenniel, o ilustre desenhista-cartunista de Punch, a mais famosa revista inglesa de humor no século XIX, se tornou um clássico com as gravuras para as Alices. Seu relacionamento com Dodgson foi péssimo, e o mínimo que Tenniel disse foi que ele era um “pernosticozinho”. Foi difícil Carroll convencê-lo a ilustrar também Through the looking-glass, recusado por outros ilustradores, talvez temerosos da fama de impertinente do autor. O fato é que Tenniel passou à posteridade ao ter o nome ligado ao de Carroll, e hoje é impossível dissociar um do outro, pois Tenniel foi universalmente “adotado” pelos editores de todo o mundo como o ilustrador “oficial” das Alices. Tampouco é possível desprezar suas gravuras. Equivocadas ou não (Carroll teria confessado a outro ilustrador, Harry Furniss, que não gostara do trabalho de Tenniel, exceto a criação de Humpty-Dumpty para o Looking-glass), são magistrais. É certo que são rígidas, que a sua Alice é inexpressiva e que as figuras são às vezes acadêmicas. Neste item, compare-se com a de Carroll, por exemplo, a sua série de quadros de “You are old, Father William”: ela é bem-comportada diante da série de desenhos hiper-espirituosos do autor. Este último, na óptica moderna, dá de cem a zero. Diz-se que Carroll era um “amador” se comparado à maestria técnica de Tenniel. Mas é preciso que se discuta o sentido desse termo. O que é ser “amador” dentro de artes tão individuais como, por exemplo, a poesia, a composição musical, sobretudo a não-mass media, a escultura, sem objetivo público, ou o desenho criativo, não-técnico? Tem sentido o termo nesses casos (e muitos outros)? Em troca da inventividade inquietante de Carroll, o desenhista dito naïf, as gravuras do “profissional” Tenniel atingem um grau máximo de homogeneidade e são tecnicamente perfeitas. Muito embora hoje não se valorize, tanto quanto no século XIX, o “acabamento” no processo artístico. Por exemplo, hoje parecem se valorizar bem mais os esboços e as peças inacabadas, como sucedeu nos casos das paisagens de Constable e no Balzac de Rodin. As gravuras de Tenniel estabelecem um padrão de valor mínimo de identificação com o texto e a elas sempre se pode recorrer. Talvez a loura Alice não satisfaça tanto (e desgostou a Carroll, que fez uma Alice de cabelos negros e finos, e recomendava a Tenniel que não pusesse tanta “crinolina” (fibra feita de crina) em Alice, referindo-se, talvez, à vasta cabeleira loura…), mas outros personagens são nele memoráveis, como a Duquesa, o Gato de Cheshire e o Chapeleiro Louco, em Wonderland. Na abertura de Looking-glass, temos uma imagem notável de Alice atravessando, de costas, o espelho, e saindo do outro lado. Ela atravessa o espelho e a página, e esta imagem curiosa de relação isomórfica texto-imagem deve ser creditada a Tenniel (a não ser que Carroll a tivesse sugerido, o que não seria impossível, mas não há comprovação). Chame-se a atenção, nesse livro, para as imagens de Tweedledum & Tweedledee, da Morsa e do Carpinteiro e, particularmente, de Humpty-Dumpty. São criações originais de Tenniel, sem nenhuma indicação anterior de Carroll, que inspirariam depois numerosos ilustradores. Elas estabeleceram um padrão básico universalmente adotado e incansavelmente imitado. Este padrão tornou-se uma marca registrada do universo carrolliano, transmitida através dos anos.

Arthur Rackham

ilustração de Arthur Rackham

Um rival mais sério poderia ter sido Arthur Rackham, ilustrador famosíssimo do começo do século XX, ao qual se devem ilustrações notáveis, inclusive as (posteriormente) muito celebradas dos contos de Edgar Allan Poe. A edição ilustrada de Wonderland por Rackham é de 1907 e foi recebida com tantas controvérsias que, parece, não estimularam Rackham a ilustrar também o Looking-glass. Os admiradores fanáticos de Tenniel protestaram contra a “invasão” do que supunham ser um universo privado. Por outro lado, houve um comentador que disse ser a Alice de Tenniel uma “boneca rígida [stiff puppet]”, enquanto a de Rackham era viva. O periódico Punch, órgão de origem de Tenniel, zombou dos novos ilustradores e em particular de Rackham numa charge intitulada “A Alice de Tenniel reina suprema”, na qual Alice, entronizada, pergunta ao Chapeleiro quem eram aquelas criaturazinhas engraçadas ao ver outras Alices, e, quando chega às imagens de Rackham, exclama ironicamente: “Curiouser and curiouser!” (exclamação de Alice quando seu pescoço se encomprida). Rackham, por sua vez, expressava todo o respeito por Tenniel e certamente o tomou como base para suas próprias ilustrações, mas Carroll (com certeza, a fonte primária de Tenniel) talvez tenha sido a fonte com quem mais se tenha identificado. Para começar, sua própria Alice, mesmo loura, diverge da de Tenniel pela suavidade do traço e pela simplicidade. As belas ilustrações coloridas de Alice entre os animais do lago superam de longe o tratamento dado ao episódio por Tenniel. A lição de radicalidade dos desenhos de Carroll está presente em Rackham. Esta similaridade se vê, por exemplo, no violento contraste entre as imagens de Alice com o pescoço crescido e depois quando diminui vertiginosamente a ponto de o queixo tocar o chão. A imagem de Rackham para esta segunda situação tem semelhanças com a de Carroll. Nela, o pescoço esticado se desenvolve em curva, lembrando, segundo o crítico Patrick Hearn, a “linha serpentina” (linea serpentinata, que veio da arte maneirista de meados do século XVI e foi incorporada à estética art nouveau). O pescoço se enreda nos galhos da árvore e faz a pomba gritar “Serpente!”, supondo que Alice quisesse roubar-lhe os ovos do ninho. Enquanto a arte tradicionalista de Tenniel respeita o equilíbrio clássico da composição, a de Rackham, bem mais “maneirista” no sentido moderno do século XIX, tende à distorção e ao labirinto nessa imagem do pescoço confundido entre os galhos de árvore. Segundo Hearn, Tenniel é teatral e hierático na sua arte (e por isso a imagem da “stiff puppet”), enquanto Rackham é dramático. Ele adotou, além disso, uma extrema liberdade de composição, como as criaturas amontoadas no quadro em que representa a “lagoa de lágrimas”, que seguiu, sem dúvida, a lição carrolliana, mas extremando-a, com uma nova interpretação do episódio. A casa da Duquesa em Rackham exprime a idéia de ritmo e caos do episódio (linhas curvas de fumaça, figuras convulsionadas de Alice e da Cozinheira, pratos e panelas esvoaçantes) com perfeição, embora as figuras da Duquesa e da Cozinheira permaneçam inexcedíveis em Tenniel. Muitos detalhes, enfim, fazem da edição de Wonderland por Rackham uma preciosidade à parte.

As inumeráveis versões ilustradas de Alice pós-Tenniel começaram desde o ano da morte de Carroll, com a edição brilhantemente ilustrada por Blanche McManus em 1898, com o autor ainda vivo (mas não há registros de comentários dele sobre McManus). Entre 1899 e 1904, registraram-se outras edições, sendo a mais conhecida a de Peter Newell. A partir de 1907, com a extinção do copyright inglês, as edições explodiram por toda parte. Assinalem-se como as mais interessantes, além das do próprio Rackham, as de Charles Robinson, Harry Furniss, A.E. Jackson e A.L. Bowley. Mas só em 1929 surge, segundo os comentários críticos de hoje, outra edição de grande destaque, com o trabalho de Willy Pogany, que nos trouxe uma Alice surpreendentemente renovada e inspirada no estilo art déco, com traços muito nítidos e definidos. A Alice de Pogany é, segundo os comentadores, uma garota americana típica, bobby soxer, de saia e meias curtas e com o cabelo bem curto da época, no estilo page boy americano. Pogany também incorpora outras americanices, como o desfile de cartas como o naipe de paus que parecem cadetes de West Point, enquanto as de ouros e copas lembram Ziegfeld Follies Chorus Line. Um detalhe característico do ambiente americano é a ilustração da casa da Duquesa, em que se vê uma cozinheira negra, ainda comum na América, mas não imaginável numa cozinha tradicional inglesa vitoriana.

Willy Pogany

ilustração de Willy Pogany

Já da segunda metade do século XX é o trabalho de Ralph Steadman, em 1967, o primeiro a tentar, a partir de traços decididamente modernos, uma reinterpretação do universo carrolliano, drasticamente distante das origens da iconografia aliciana. Há também, pouco acessíveis, edições muito limitadas e raras com ilustrações de Salvador Dalí (1969) e de Max Ernst (1970). Tudo isso quanto às ilustrações para Wonderland, que foi realmente o livro de Carroll preferido para as edições ilustradas diversificadas. Through the looking-glass tem muito menos ilustradores. Tenniel, que assinou a edição básica, criou protótipos que seriam depois recriados incessantemente. Veja-se a versão-chave de Tenniel para compor a imagem de Humpty-Dumpty, e compare-se particularmente com a imagem criada por Philip Gough em 1940: a de Tenniel assinala o lado caricato, o seu Humpty-Dumpty é mais perfeitamente um homem-ovo, enquanto Gough destaca a vaidade e elegância dândi do personagem com roupas finas, cartola e bengala, mas esquece-se da confusão entre cinto-ou-gravata de Alice. Assinalem-se as edições com ilustrações de Blanche McManus (1899), Peter Newell (1901), Franklin Hughes e Philip Gough, especialmente destacadas pela crítica. Segundo a recepção crítica Mervyn Peake (1954), teria sido mais bem-sucedido como ilustrador de Looking-glass do que com Wonderland. Mas o grande destaque são as aquarelas brilhantemente coloridas de Peter Blake em 1970, chamando-se a atenção para o fato de que Blake era um pintor bastante famoso nos meios artísticos. Por isso, talvez, o aspecto plástico brilhante e o colorido exuberante sejam mais marcados do que o aspecto semântico (isto é, suas conotações de sentido) nessas ilustrações.

Millicent Sowerby

ilustração de Millicent Sowerby

Alguns pontos merecem ser assinalados: a) folha-de-rosto da edição de 1907, de Chatto & Windus, ilustrada por Millicent Sowerby, com duas aves enormes de longos bicos que se tocam, formando uma “moldura”; b) o delicioso infantilismo das ilustrações de A.L. Bowley, de 1921, em que Alice aparece com um vestido curto e florido e meias curtas, ao contrário da tradição do vestido e meias longos desde Tenniel até Newell (1902), Thomas Maybank (1907), Thomas Heath Robinson (1922), Gough (1940) e outros; em contraste, versões despojadas como a de Helen Munro (1933) e sobretudo a de Willy Pogany, com vestidos e cabelos curtos, derrubaram o estereótipo vitoriano para impor uma visão moderna da personagem; c) seria curioso, ainda, comparar, por exemplo, as versões de Tenniel e Pogany para o capítulo “A quadrilha da lagosta”: o contraste entre a rigidez da dança em Tenniel com a lepidez de quase vôo da corrida de Alice com o Grifo em Pogany; d) veja-se a notável versão de Philip Gough, com o traço nítido da sua gravura, para “You are old Father William”, e observe-se como ele fundiu e reinterpretou as lições de Carroll e Tenniel; e) enfim, as versões do tribunal valeriam muitas comparações: enquanto Thomas Maybank e K.M.R., por exemplo, mostram uma Alice espectadora, a de Harry Furniss (1926) expõe uma garota assustada que assume uma posição defensiva em meio à desordem. As inúmeras possibilidades simbólicas interpretativas alicianas, aqui mal enumeradas, existem por causa da riqueza referencial desses textos. Outros textos não foram tão férteis. Rhyme? and reason?, livro que contém poemas diversos e o célebre The Hunting of the Snark, depois muitas vezes editado em separado, foi, na primeira edição, espirituosamente ilustrado por Arthur B. Frost quanto aos poemas humorísticos, e Henry Holiday tornou-se o ilustrador clássico para The Hunting of the Snark. Tanto Frost quanto Holiday são bons quando o texto lhes fornece um fundamento que gere a originalidade do traço. No resto, as ilustrações são muito bem acabadas, em adequação ao espírito da época. Também as ilustrações de Harry Furniss para Sylvie and Bruno tornaram-se “oficiais” para esse livro desigual, mas eventualmente rico de referências e de elementos nonsense. As melhores imagens de Furniss são as dos melhores momentos do livro, como, por exemplo, de “A canção do jardineiro”. Mas são em boa parte pictorialmente convencionais, como também muitas passagens do livro.

 

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Texto encontrado no blogue Alicenations. Clique aqui para acessá-lo.

Se quiser saber mais sobre o livro Alice’s adventures under ground, bem como ver as ilustrações feitas por Carroll, clique aqui.

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Eis um material muito interessante: o livro predecessor de Alice no País das Maravilhas. Trata-se de uma edição ilustrada e escrita à mão pelo próprio Carroll como presente de Natal para sua amiguinha Alice Liddell. É curioso notar as mudanças que a história sofreu mais tarde, quando foi publicada com o título que conhecemos hoje.

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