Feeds:
Posts
Comentários

Posts Tagged ‘adaptação’

Conforme exposto na seção “Leia-me” aqui do blogue, eu vinha já há algum tempo estudando as Alices, lendo sobre a vida do Lewis Carroll e pesquisando o contexto da Era Vitoriana a fim de elaborar uma monografia que relacionasse esses assuntos à área de tradução. À medida que os textos por mim preparados iam ficando prontos, eu os postava aqui para vocês, leitores, que sempre me motivaram a seguir em frente. Portanto, antes de mais nada gostaria de expressar aqui neste espaço meus sinceros agradecimentos a todos que vêm acompanhando o The Bloggerwocky e tecendo comentários sobre o site no Facebook, Orkut, Twitter ou aqui mesmo no blogue.

Agradecimentos feitos, é hora de irmos direto ao ponto principal deste post: no fim do ano passado concluí e defendi minha monografia, a qual foi muito elogiada e, para minha grande alegria, recebeu nota máxima por parte da banca examinadora. É então com muita satisfação que venho compartilhar esse trabalho com vocês. Espero que gostem e comentem:

RESUMO

Traduzir literatura é uma tarefa árdua, principalmente no caso de textos altamente polissêmicos. Nesse sentido, o presente trabalho tem como objetivo explicitar algumas das dificuldades e problemas com que se depara um tradutor literário frente aos desafios de uma obra altamente artística. Para tanto foram escolhidos os livros Alice no País das Maravilhas (1865) e Alice Através do Espelho (1871), escritos por Lewis Carroll (1832-1898): duas histórias das mais conhecidas e traduzidas no mundo, que por serem carregadas de referências à era vitoriana, jogos sonoros e poemas, trazem sempre dificuldades quando de sua transposição para outras línguas.
Ao longo deste trabalho, esses dois livros terão algumas de suas partes-chave analisadas a fim de que se possa ter uma ideia do quão plurissignificativos são, serão apresentadas algumas informações sobre o contexto histórico da escritura das narrativas, dados sobre a vida do autor e sobre sua psicologia estarão evidenciados e por fim encontrar-se-á uma sugestão de tradução para o capítulo 4 do Alice no País das Maravilhas, seguida de comentários feitos a partir do ponto de vista tradutório, de forma a ilustrar como toda a teorização e estudo da obra funcionam na prática.

Palavras-chave: Tradução literária, Alice no País das Maravilhas, Alice Através do Espelho, Lewis Carroll, literatura, era vitoriana.

Link: GONÇALVES, Higor B. Um sonho lúcido…

Read Full Post »

Comentários das traduções

Abaixo serão comentadas apenas as passagens mais interessantes do ponto de vista tradutório, seja pelas dificuldades encontradas em sua tradução ou por apresentarem alguma diferença digna de nota quando comparadas as versões inglesa, de Lewis Carroll, a tradução francesa, de Jacques Papy, e as duas traduções para o português, feitas por mim. Vale ressaltar também que, consequentemente, o intuito não é focar a análise dos textos a partir do ponto de vista literário.

Texto em inglês

Tradução do inglês

Texto em francês

Tradução do francês

“The Rabbit Sends in a Little Bill” “O Coelho envia Pedro e pedras” “Le Lapin Envoie Pierre et Pierres” “O Coelho envia Pedro e pedras”

Já no título do capítulo o tradutor se depara com um belo desafio, que advém de quatro elementos essenciais da construção da frase: o sintagma “The Rabbit” na posição sintática de sujeito, um verbo transitivo direto na voz ativa, o sintagma “a Little Bill” como o objeto direto (sofrendo a ação) e a polissemia do signo duplo “Bill”, este último elemento responsável por transformar os três anteriores em um quebra-cabeça complicado.

“Bill”, no caso, pode ser tanto o pequeno lagarto que é chutado pela chaminé (exercendo tal palavra uma função de substantivo próprio) como também pode significar “conta”, “fatura” (exercendo desse modo um papel de substantivo comum). Trata-se de uma brincadeira com o fato de Alice ter se hospedado, ainda que sem querer, na casa do Coelho. No tocante aos outros elementos, é interessante notar que quem pratica a ação de enviar alguém (“to send someone in”) é o Coelho, figura influente no País das Maravilhas, como o sugerem o pronome de tratamento “yer honour” pelo qual é chamado mais adiante no capítulo e o cargo por ele ocupado no tribunal do Rei de Copas ao fim do livro; por sua vez, é o lagarto Bill, em posição de serviçal, quem terá de cumprir a ordem do Coelho e descer pela chaminé.

Jacques Papy resolve bem esses problemas, adaptando o nome Bill, cujo correspondente em português seria Guilherme e em francês, Guillaume, para Pierre (Pedro), brincando assim com a raiz comum existente entre “Pierre” (“Pedro”) e “pierre” (“pedra”) a fim de criar um jogo sonoro que ao mesmo tempo compense as perdas da tradução e possibilite manter a estrutura sintática da frase em inglês, com toda a significação já discutida que ela encerra. Tomou-se emprestada essa ótima solução do tradutor francês para a tradução apresentada do texto inglês.

Texto em inglês

Tradução do inglês

Texto em francês

Tradução do francês

“Where can I have dropped them, I wonder?” Onde é que posso ter deixado cair?” “Où diable ai-je bien pu les laisser tomber ?” “Onde raios pude tê-los deixado cair?”

Ao longo das Alices, Carroll emprega com muita frequência o efeito itálico a fim de enfatizar algumas palavras. Contudo, o tradutor francês, ao menos no capítulo tomado para análise (capítulo 4), elimina a maior parte desses destaques e busca imprimir as ênfases por intermédio de construções gramaticais ligeiramente diferentes das existentes no texto em inglês. Detenhamo-nos à passagem acima como forma de exemplificação de tais adaptações: ao empregar “où diable”, traduzido por “onde raios”, Pappy faz uso do determinante “diable” (eufemizado em português por tratar-se de um livro infantil) como tentativa de transmitir a mesma inflexão presente em “where can I”, esse último, por sua vez, traduzido como “onde é que”.

E isso nos leva a mais uma ponderação relevante: na tradução inglês-português todos os itálicos enfáticos foram mantidos, ainda que com ligeiras adaptações, as quais objetivaram buscar uma melhor fluência na língua de chegada. Assim, deslocou-se a ênfase do verbo modal “can”, que na tradução corresponderia ao verbo “posso”, para o pronome interrogativo “onde”, em inglês, “where”.

Texto em inglês

Tradução do inglês

Texto em francês

Tradução do francês

“Why, Mary Ann, what are you doing out here?” “Por Deus, Amélia, o que você está fazendo aqui fora?” “Eh bien, Marie-Anne, que diable faites-vous là ?” “Oras, Mariana, que raios você está fazendo aqui?”

Sobre o significado de “Mary Ann”, Martin Gardner esclarece que:

Segundo Roger Green, Mary Ann era na época um eufemismo britânico para “criada”. A amiga de Dodgson, sra. Julia Cameron, uma apaixonada fotógrafa amadora, tinha realmente uma criada de 15 anos chamada Mary Ann e há uma fotografia dela na biografia de Carroll escrita por Anne Clark para prová-lo. Mary Anne Paragon era a criada desonesta que cuidava da casa de David Copperfield (ver cap.44 do romance de Dickens). Sua natureza, nos é dito, era “debilmente expressa” por seu último nome [paragon é modelo, exemplo].

Dicionários de gíria dão outros sentidos para Mary Ann correntes na época de Carroll. O mostruário de uma modista era chamada [sic] de Mary Ann. Mais tarde, especialmente em Sheffield, o nome ficou associado a mulheres que combatiam lojistas que exploravam os empregados. Ainda mais tarde, tornou-se um termo vulgar para sodomitas.

Antes da Revolução Francesa, Mary Anne era um termo genérico para organizações republicanas, bem como uma gíria para a guilhotina. Marianne tornou-se e ainda é um símbolo feminino mítico das virtudes republicanas, um símbolo francês comparável ao John Bull da Inglaterra e ao Tio Sam. É tradicionalmente representada, em charges políticas e estatuetas, carregando o barrete frígio vermelho usado pelos republicanos na Revolução Francesa. É provavelmente por coincidência que o uso do nome por Carroll antecipa a obsessão pela decapitação partilhada pela Duquesa e a Rainha de Copas.

Assim, por ser “Mary Ann” além de um substantivo próprio também um eufemismo para “criada”, buscou-se evocar na tradução do inglês para o português os semas de mulher submissa, muito sugestivos no contexto em questão, por intermédio da adaptação do nome para “Amélia”, também um signo duplo, cuja acepção segundo o dicionário Houaiss é:

amélia s.f. (1942) B infrm. mulher amorosa, passiva e serviçal. ETIM antr. Amélia, do samba Ai! que saudades da Amélia, de autoria de Ataulfo Alves e Mário Lago (1942)

Já na tradução feita a partir do francês, uma vez que o nome “Marie-Anne” não evoca nenhum outro sentido importante (ainda que de acordo com a definição supracitada de Martin Gardner pudéssemos estabelecer daí uma relação, a meu ver não tão relevante, com a Revolução Francesa), optou-se em português pelo nome equivalente “Mariana”, simplesmente.

Texto em inglês

Tradução do inglês

Texto em francês

Tradução do francês

“”Sure, it’s an arm, yer honour!” (He pronounced it “arrum.”)” “— Claro, é um braço, S’Excelência! (Ele pronunciava “umbrás”.)” “‒ Pour sûr que c’est un bras, not’ maît’ ! » (Il prononçait : brâââs).” “— Com certeza que é um braço, senhô! (Ele pronunciava “braaaço”.)”

Conforme aponta o estudioso Martin Gardner (CARROLL, 2002, p.38), o personagem Pat, da maneira como foi originalmente criado por Carroll, tem nome e sotaque irlandeses. Era comum (e é ainda hoje) explorar variações linguísticas e desvios da chamada norma-padrão como elementos humorísticos em textos cômicos, orais ou escritos.

Tendo isso em mente, pode-se notar que tanto na tradução francesa de Papy como nas para o português levou-se mais em conta a preservação do tom oral e do humor presentes nesse diálogo do que a adaptação da fala de Pat para um determinado sotaque regional e notório. Traduzir variações lingüísticas é sempre um desafio para o tradutor, e assim há que se trabalhar constantemente com base em compensações: ora alguma nuance se perde, ora outra nuance se ganha.

Vale ressaltar também a preocupação em se traduzir com uniformidade o vício de linguagem de Pat, que em inglês inicia todas as falas dizendo “sure”, palavra vertida na tradução inglês-português por “claro”, na tradução inglês-francês, pela expressão “pour sûr” (que, convém frisar, nem sempre está no início da fala) e, na francês-português, por “com certeza”.

Texto em inglês

Tradução do inglês

Texto em francês

Tradução do francês

“”Where’s the other ladder?—Why, I hadn’t to bring but one. Bill’s got the other—Bill! Fetch it here, lad!—Here, put ‘em up at this corner—No, tie ‘em together first—they don’t reach half high enough yet (…)” ““Onde está a outra escada? — Ora, eu tinha que trazer só uma. O Pedro está com a outra — Pedro! Traga ela aqui, rapaz! — Aqui, bote de pé nesse canto — Não, amarre uma na outra antes… elas ainda não chegam nem na metade da altura (…)” “« Ousqu’est l’autre échelle? — On m’a dit d’en apporter qu’une ; c’est Pierre qu’a l’autre. — Pierre, amène-là ici, mon gars ! — Mettez-les à ce coin-ci. — Non, faut d’abord les attacher bout à bout ; elles arrivent point assez haut.” “— Onde é que tá a outra escada? — Só me falaram pra trazer uma; é o Pedro que tá co’a outra. — Pedro, traga ela aqui, meu rapaz! — Coloquem as duas neste canto aqui. — Não, precisa primeiro prender as pontas delas juntas, senão não vão alcançar até lá.”

A exemplo do personagem Pat, os outros animaizinhos e aves que aparecem para ajudar o Coelho a tirar Alice de dentro da casa não falam de acordo com a norma-padrão. Dessa forma, aqui mais uma vez compensaram-se perdas em algumas partes com ganhos em outras, conforme as especificidades de cada língua.

É relevante destacar que a tradução francesa apresenta mais desvios da norma-padrão do que o texto de Carroll, talvez por não haver na língua inglesa uma distância tão grande no que tange às diferenças de registro quando em comparação com as línguas francesa e portuguesa. De qualquer forma, as traduções para o português refletem essas diferenças. Assim, pode-se notar que a tradução feita a partir do francês tem um tom ligeiramente mais informal do que a tradução inglês-português.

Read Full Post »

Capa

Material encontrado no blogue da Sociedade Lewis Carroll do Brasil (clique nas imagens para ampliá-las).

Read Full Post »

Mickey Através do Espelho é uma animação inspirada no livro Alice Através do Espelho. Ela foi televisionada pela primeira vez nos EUA no dia 30 de maio de 1936.

Agradeço à amiga Daniela Mayumi por me avisar sobre esse trabalho dos estúdios Walt Disney.

Read Full Post »

Por Lenir Fátima de Castro*


AliceO presente estudo objetiva fazer um confronto comparativo da obra Alice no país das maravilhas, de Lewis Carroll (1865), considerando o texto de algumas de suas versões. Por sua qualidade, tomamos a tradução feita pelo escritor Sebastião Uchoa Leite como ponto de partida e pretendemos comparar este trabalho com outras diversas publicações brasileiras (adaptações) em vários formatos e linguagens. Muitos destes livros têm páginas reduzidíssimas e visam tão somente à circulação para fins comerciais, sem servirem ao objetivo de proporcionar algum conhecimento sobre o enredo ou sobre o estudo da obra de Carroll. Uma de nossas metas é mostrar como os processos de redução e/ou supressão de passagens do texto original fazem o novo texto perder o sentido, além de apontar como se articulam cenas absurdamente descontextualizadas nestes livros de padrão inferior.

Na história original, os maiores atrativos são o “logos fantástico”, o nonsense e a capacidade que o autor tem de imprimir ao texto um encadeamento por imagens e sensações. Capítulos como a hora do chá ou o jogo do croqué com a rainha são de fundamental importância para que seja despertado e se realize o processo imaginativo do leitor. Em alguns textos examinados, esse mecanismo simplesmente não existe mais — quer seja por economia de imagens ou de palavras, ou ambos. De muitas adaptações, foram retirados o fantástico e o maravilhoso, exatamente o leitmotiv do texto original, o que encanta e fora construído para chamar o interesse do leitor, desafiando-o no campo da imaginação.

Devemos retomar uma ideia geral sobre os processos de singularização, tal como explica Chklovski (1970), a partir de exemplos presentes na obra de Leon Tolstoi. Em Guerra e paz, o autor trabalha com este procedimento o tempo todo para que os elementos de sua narrativa sejam convenientemente percebidos. O processo de singularização consiste em particularizar objetos para que o foco de atenção esteja sobre eles — ou seja, este procedimento diz respeito ao objeto que é descrito minuciosamente (muitas vezes sem ser nomeado). Em “Que vergonha”, Tolstoi assim singulariza a noção do chicote: “pôr a nu as pessoas que violam a lei, fazê-las tombar e bater nelas com varas no traseiro”… O chicote habitual é singularizado por sua descrição e pela proposição de mudar a forma sem mudar a essência (1970: 46).

Para a nossa reflexão, contaremos ainda com Ítalo Calvino (1990) que nos fala a respeito do processo de pensar por imagens, em sua concepção sobre visibilidade. A conversa aqui se inicia para desdobrar imagens, refazer contornos. Como um mosaico, cabe ao leitor refazer o caminho…

Sobre Alice no país das maravilhas – considerações

AliceInicialmente, consideremos o que, na obra original de Carroll, julgamos produzir seu núcleo fundador: o autor elabora, com perfeição e riqueza de detalhes, as imagens mentais das várias situações vividas pela menina Alice — os diversos apuros, as diversas dificuldades. Os diálogos travados com o coelho, o gato que sorri ou a rainha de copas, a lagarta que fuma o narguilé, o chá maluco, ou ainda a competição na lagoa, são cenas fundamentais para o leitor “encontrar” e se “encantar” com a história, fazendo surgir aquela dose de deslumbramento que nos cativa. Qual criança não ficaria absolutamente envolvida com todos aqueles bichos nadando na poça de lágrimas que Alice chorou?

Mas, para nosso espanto, existem versões absolutamente superficiais que pretendem dar conta da história em menos de meia dúzia de folhas, descaracterizando completamente o texto de Lewis Carroll. Deparamo-nos, em nossa pesquisa, com livros que continham somente três ou quatro folhas para narrar toda a Alice. Esse reducionismo constitui um crime de “leso-leitor”, por assim dizer. Nega-se a identidade da obra e a suposta versão (adaptação) passa a ter outro sentido, outro significado, alterando-se assim completamente o nonsense e o extraordinário contidos preliminarmente no texto do autor inglês.

Por outro lado, identificamos adaptações que não desmerecem o original. A versão de Monteiro Lobato, dentre muitas adaptações e traduções que examinamos, é a que mais se aproxima do texto de Alice, inclusive com divertidíssimas intervenções de Emília, tia Nastácia, Dona Benta, Pedrinho e todo o pessoal do Sítio do Pica Pau Amarelo. Toda a obra está repleta de construções geniais e uma passagem significativa diz respeito à explicação que o Coelho Branco dá a Pedrinho ao perguntar se ele conhecia alguém que tivesse um despertador: — A Rainha tem, mas usa o ponteiro para fazer tricot. Lobato, de forma primorosa, usa os próprios personagens do Sítio para “recontar” Alice e o resultado são diálogos criativos, inusitados e completamente surpreendentes.

O processo de singularização, descrito por diversos autores (como Chklovski e também Guatari), encaminha o leitor a uma percepção particular de um objeto, uma cena ou evento, de modo a romper com um estágio de letargia para construir novas experiências, fazendo-o reagir e interrogar cotidianamente o mundo. A arte oferece caminhos para que as escolhas possam efetivamente se concretizar de forma livre e consciente.

A imaginação

Imaginação (do latim “imaginatione”) é a faculdade que tem o espírito de representar imagens; fantasia (Aurélio, 1971:742). Entre suas seis propostas, Calvino (1990) começa a descrever e nortear o processo da imaginação através de Dante que, em sua Divina Comédia, nos fala das visões que nos chegam como que projetadas em telas cinematográficas (com a licença do anacronismo); e divide a imaginação em dois campos distintos: imagens que pertencem às suas personagens e às suas próprias visões ou aquilo que acredita ver — recordações, inclusive. Assim, diz Calvino, o que Dante procura definir é a parte visual, que acompanha a expressão verbal. Mais adiante, são definidos dois processos imaginativos: um que parte da palavra para a imagem e outro, inverso, da imagem para a palavra. O primeiro processo se dá quando estamos em contato com a leitura; o segundo, ao nos deparamos com a imagem propriamente dita: como nos filmes, imagens de noticiários ou acontecimentos. Nossa acuidade visual nos faz guardar na memória cenas que visualizamos, embora muitas vezes estas nos cheguem de forma fragmentária, indistinta.

AliceNo caso do contato com o livro, em que primeiro visualizamos as imagens, a imaginação funciona como meio de colocar as personagens em ação de acordo com o que concebemos. Personagens ou situações narradas nos permitem dispor delas de diversas formas, ora são matizes, ora caleidoscópio de nossas sensações — e estão à mercê de nossa vontade. Como Kant definia, em Espírito e Imaginação, “a imaginação está ligada ao princípio insondável das coisas. É uma faculdade extraordinária, um talento excepcional, um dom inato”, propício à fertilização do conhecimento através do contato com a literatura. Ítalo Calvino também colocou em foco a questão das imagens visuais para que pudesse elaborar seus contos fantásticos. As primeiras imagens que lhe vinham à mente eram, sem dúvida, propícias para que sua criação partisse rumo ao visual e, depois, para o conceitual.

Em sua proposta sobre a visibilidade, podemos notar grande preocupação com a perda da capacidade de formar imagens de olhos fechados. Diante de tal dificuldade, privilegiam-se imagens já prontas, e a própria elaboração de idéias vai se perdendo, dando lugar a um mundo cada vez mais embotado pela poluição visual. O ato da leitura resgata, por assim dizer, a capacidade de visualização de imagens mentais, pois conduz o leitor às visões que fazem parte de seu “arcabouço imaginário”.

A comparação entre as obras

Por ser breve nossa abordagem, escolhemos apenas uma versão de Alice no país das maravilhas a fim de compreender como as adaptações se distanciam do original. Primeiramente, faremos alusão à passagem quando Alice toma da garrafa e torna-se menor, cada vez. No texto integral:

“Alice arriscou-se a prová-la. Achou o gosto muito bom (de fato, o sabor era uma mistura de torta de cereja, creme de leite, suco de abacaxi, peru assado, doce puxa-puxa e torradas quentes com manteiga) e bebeu até o finzinho. — Que sensação mais curiosa! — exclamou Alice, — devo estar encolhendo como um telescópio!” (1980: 45)

Esta é a passagem da tradução de Sebastião Uchoa Leite. Em nenhuma outra versão consultada, menciona-se o nome de Lewis Carroll como o autor adaptado em novo texto. Nossa comparação indicará passagens que se distanciam enormemente da obra original, com textos redutores e ilustrações empobrecedoras que dificultam a leitura e subtraem do leitor a magia de Alice. A versão que selecionamos para comparar a mesma passagem está descrita desta forma:

“…felizmente, atingiu o fundo sem se machucar. Viu uma porta muito pequena e exclamou: “Não poderei passar, esta porta é pequena demais!” “Beba um gole desta bebida e você ficará pequenininha”, disse-lhe um simpático ratinho. Alice engoliu aquele líquido e tornou-se muito pequena. Do outro lado da porta havia um jardim maravilhoso, no qual as árvores e os cogumelos possuíam portas e janelas.” (p. 3)

Muito se perdeu da riqueza em detalhes, quando atentamos para a descrição minuciosa do “sabor da bebida” que a adaptação não nos mostra. Há que se levar em conta o fato de que as ilustrações também não condizem em nada com o livro original. Por exemplo, o coelho, ao passar por Alice, leva na mão um despertador enorme, não mais o famoso relógio de bolso que é seu charme diferencial.

AliceOutra passagem importante, suprimida das adaptações meramente comerciais, diz respeito ao choro de Alice, quando esta não acha a chave dourada — e chora tanto que, com suas lágrimas, surge uma lagoa. Nos livros que analisamos, não há nenhuma referência a esta experiência vivida pela personagem, e a corrida promovida por Alice e os bichos simplesmente deixa de existir nas adaptações que estudamos. Como eliminar uma seqüência tão encantadora quanto aquela em que vemos Alice esforçando-se em nadar para “sair” do mar e, enquanto isto, se questiona: seria melhor que não tivesse chorado tanto! … serei castigada agora por isso, parece, afogando-me nas minhas próprias lágrimas! (1980:50) (tornando literal uma metáfora clichê). O diálogo com os bichos na lagoa faz com que o leitor preste atenção redobrada à história, principalmente para saber quem vai ganhar a corrida. Quando estas passagens são retiradas, corta-se muito do encantamento.

A linguagem extremamente econômica e a supressão dos diálogos interessantes fazem com que não haja nenhuma reflexão sobre o que está sendo lido. Acrescentam-se figuras, algumas frases desconexas e simplistas e já temos, aí, outro livro sem nenhum contato com a obra original.

Procuramos dirigir nossas leituras da obra de Carroll e suas adaptações a partir de dois pressupostos complementares: a imaginação ativa e a singularidade das descrições que permitem ao leitor uma experiência única no campo da leitura. Buscamos trazer ambas as definições para que este leitor se capacite a “visualizar as imagens de olhos fechados” e, a partir delas, formar seu “arsenal” profícuo de personagens fantásticos. Começar do zero — assevera Calvino.

Quem sabe não seria este o caminho para que pudéssemos re-iniciar com propostas aptas a abrirem um espaço de interlocução e conduzir os leitores (sem qualquer tipo de amarra) a uma leitura de fruição, de retorno ao fantástico e ao maravilhoso? Construir uma escola pautada pela alegria e pelo afeto, baseada na reflexão, seria uma utopia? Não. Nossa proposta é por uma sociedade de inclusão em que todos possam participar, democratizando, assim, o saber e repartindo os bens culturais. Que princípios éticos, morais, sociais e igualitários sejam para todos e não para alguns. Uma sociedade inclusiva poderá contar com a história integral de Alice no país das maravilhas para todas as crianças, quer sejam elas de escola pública ou privada. Aqui nutrimos nosso sonho: um lugar em que se “desdobre” a literatura, atraindo o leitor para o desejo e a posse total da significação da linguagem, re-inaugurada a cada dia no seu cotidiano.

*Lenir Fátima de Castro (UFF) apresentou este trabalho no III Congresso Internacional de Leitura e Literatura Infantil e Juvenil do Oeste Paulista – “A criança e o livro: das teorias às práticas educativas”, realizado na Universidade Estadual Paulista – UNESP/Campus Presidente Prudente, em 28 de agosto de 2006.

Referências Bibliográficas:

[1] BENJAMIN, W. O Narrador (1936). In: Magia, Técnica, Arte e Política. São Paulo: Brasiliense, 1985.

[2] CALVINO, I. Seis propostas para o próximo milênio. São Paulo: Companhia das Letras, 1990.

[3] CHKLOVSKI, V. A arte como procedimento. In: EIKHENBAUM et al. Teoria da literatura: formalistas russos. Porto Alegre: Globo, 1970.

[4] FREIRE, P. Pedagogia do oprimido. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987.

[5] LAJOLO, M. Do mundo da leitura para a leitura do mundo. 3ª ed. São Paulo: Ática, 1997.

[6] NUNES, B. Introdução à filosofia da arte. São Paulo. Ática, 1989.

[7] PAULINO, G. (org.). O jogo do livro infantil. Belo Horizonte: Dimensão, 1997.

[8] PENNAC, D. Como um romance. Rio de Janeiro: Rocco, 1995.

[9] SERRA, E. (org.). Ler é preciso. São Paulo: Global Editora, 2002.

Read Full Post »

O texto abaixo, a imagem e o link para download das músicas foram retirados do blogue Música de Ballet. Para ver o post original, clique aqui. Trata-se de uma adaptação musical do primeiro livro de Alice, interpretada pela Orquestra Filarmônica da Cidade de Praga.

“O título é Alice no País das Maravilhas, arranjado por Carl Davis a partir de uma trilha original de Tchaikovsky intitulada Album pour la jeunesse (que, por sua vez, é composta majoritariamente por peças de nível intermediário criadas no ano 1878, auge do período Romântico). Esta obra foi elaborada em 1995 a pedido do English National Ballet, que produziu uma peça inspirada na famosa obra de Lewis Carroll. O compositor Carl Davis preparou as músicas com a tarimba de quem fez carreira com a elaboração de trilhas para filmes e TV.”

Alice no País das Maravilhas – CD (70,8 MB)

Agradecimentos ao amigo Renato Aruta, autor do blogue Emerald Room (Clique aqui para ser redirecionado).

Read Full Post »

Interessante adaptação de Alice no País das Maravilhas com ilustrações originais e narração em voz alta. Uma ótima pedida para quem estuda francês ou para aqueles que simplesmente querem ouvir um pouco da langue de l’amour. Clique nas imagens para visualizá-las em tamanho maior.

Para baixar o áudio, clique aqui.

Material encontrado no ótimo blogue Alicenations, da ilustradora Adriana Peliano. Clique aqui para acessá-lo.

Read Full Post »

Older Posts »

%d blogueiros gostam disto: