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Conforme exposto na seção “Leia-me” aqui do blogue, eu vinha já há algum tempo estudando as Alices, lendo sobre a vida do Lewis Carroll e pesquisando o contexto da Era Vitoriana a fim de elaborar uma monografia que relacionasse esses assuntos à área de tradução. À medida que os textos por mim preparados iam ficando prontos, eu os postava aqui para vocês, leitores, que sempre me motivaram a seguir em frente. Portanto, antes de mais nada gostaria de expressar aqui neste espaço meus sinceros agradecimentos a todos que vêm acompanhando o The Bloggerwocky e tecendo comentários sobre o site no Facebook, Orkut, Twitter ou aqui mesmo no blogue.

Agradecimentos feitos, é hora de irmos direto ao ponto principal deste post: no fim do ano passado concluí e defendi minha monografia, a qual foi muito elogiada e, para minha grande alegria, recebeu nota máxima por parte da banca examinadora. É então com muita satisfação que venho compartilhar esse trabalho com vocês. Espero que gostem e comentem:

RESUMO

Traduzir literatura é uma tarefa árdua, principalmente no caso de textos altamente polissêmicos. Nesse sentido, o presente trabalho tem como objetivo explicitar algumas das dificuldades e problemas com que se depara um tradutor literário frente aos desafios de uma obra altamente artística. Para tanto foram escolhidos os livros Alice no País das Maravilhas (1865) e Alice Através do Espelho (1871), escritos por Lewis Carroll (1832-1898): duas histórias das mais conhecidas e traduzidas no mundo, que por serem carregadas de referências à era vitoriana, jogos sonoros e poemas, trazem sempre dificuldades quando de sua transposição para outras línguas.
Ao longo deste trabalho, esses dois livros terão algumas de suas partes-chave analisadas a fim de que se possa ter uma ideia do quão plurissignificativos são, serão apresentadas algumas informações sobre o contexto histórico da escritura das narrativas, dados sobre a vida do autor e sobre sua psicologia estarão evidenciados e por fim encontrar-se-á uma sugestão de tradução para o capítulo 4 do Alice no País das Maravilhas, seguida de comentários feitos a partir do ponto de vista tradutório, de forma a ilustrar como toda a teorização e estudo da obra funcionam na prática.

Palavras-chave: Tradução literária, Alice no País das Maravilhas, Alice Através do Espelho, Lewis Carroll, literatura, era vitoriana.

Link: GONÇALVES, Higor B. Um sonho lúcido…

Durante o século XIX, os contos de fadas foram fortemente criticados por não ensinarem nada específico e por não conterem valores cristãos, sendo malvista a própria presença do elemento fantástico nas histórias. Acreditava-se que os livros infantis deveriam ter conteúdo educacional, e assim, em 1840, os contos clássicos passam a ser reformulados e refinados de acordo com a nova postura moralizante. Nas décadas de 1840 e 1850, além da reescrita, muitos contos de fadas novos são criados, entretanto tratam-se de histórias fracas e sem originalidade.

E é nesse contexto que, em 1865, o livro Alice no País das Maravilhas é lançado, seguido seis anos depois pelo Alice Através do Espelho. Contudo, diferentemente das outras várias histórias infantis escritas à época, a devoção, o moralismo e o cunho didático não se fazem presentes nas obras de Carroll. Ainda assim, as Alices foram muito bem recebidas pela crítica e pelo público, sobreviveram ao tempo e suas aventuras são hoje das mais traduzidas e lidas no mundo. Por quê?

Para alguns, especialmente para as crianças, o que encanta nas aventuras de Alice é o fantástico (as mudanças de tamanho, os animais que falam, os acontecimentos imprevisíveis…), e para outros, é a lógica usada por Carroll para desenvolver as idéias, incluindo aí a habilidade do autor na escolha das palavras para criar, dentre outros, piadas, ironias e sensações diversas. Mas talvez o que mais faz com que os leitores se identifiquem é a forma como o nonsense é colocado em oposição à rotina diária e enfadonha da escola.

Seja no País das Maravilhas ou no mundo do outro lado do espelho, Alice é constantemente lembrada de coisas que aprendeu, mas sempre de maneira distorcida, o que faz com que tais coisas fiquem sem sentido. Por exemplo, os versos moralizantes que as crianças tinham que decorar nas escolas são ironizados na forma de paródias; fatos históricos sobre os anglo-saxões são repetidos pelo Rato como as coisas mais “secas” que ele conhece; a personagem Duquesa, que tem o hábito de encontrar uma moral irrelevante e absurda em tudo, é um escárnio contra se querer moralizar todas as histórias infantis; as matérias que a Tartaruga Falsa diz ter estudado na escola são uma crítica clara ao sistema de ensino; o final do Através do Espelho, em que Alice sacode a Rainha Vermelha, a essência concentrada de toda governanta (ela gosta de dar a todo momento instruções rápidas de etiqueta), também é bastante sugestivo; dentre outras muitas passagens satíricas.

Assim, pode-se ver como os dois livros de Alice vêm numa direção contrária às tendências moralizantes da época. Tratando tudo com bom humor e nonsense, Carroll reduz as dificuldades do dia-a-dia infantil de algo assustador para uma realidade tolerável. Ainda que Alice seja questionada e maltratada por outros personagens, o controle final é dela, e com isso o leitor se identifica e percebe que não é apenas um sujeito passivo dentro do mundo em que vive.

Os livros Alice no País das Maravilhas (1865) e Alice Através do Espelho (1871) são, desde o século XIX, quando foram escritos, não apenas clássicos da literatura inglesa, mas clássicos da literatura universal. Há gerações eles encantam crianças, jovens e adultos, e assim Alice sai do simples domínio do papel impresso para povoar o imaginário de todos que passam a conhecer suas aventuras, tornando-se a personagem um arquétipo do feminismo e da pureza, da sagacidade, da curiosidade e do espírito aventureiro infantis. Isso acontece de uma forma tal que atualmente grande número de releituras (muito variadas entre si) da personagem e das situações narradas nos livros aparecem em qualquer parte do mundo sob a forma de ilustrações, filmes, jogos, músicas, animações ou mesmo inseridas em outros livros, não necessariamente literários.

Lewis Carroll

Lewis Carroll

Todo esse sucesso decorre da originalidade e da destreza com que o autor, Lewis Carroll, pseudônimo de Charles Lutwidge Dodgson, consegue criar histórias polissêmicas e de consequente valor literário. Alice no País das Maravilhas e Alice Através do Espelho são independentes entre si, porém podem ser vistas como complementares por compartilharem muitos elementos e terem mais ou menos a mesma essência.

Convém salientar que a personagem Alice foi inspirada em uma menininha real, chamada Alice Pleasance Liddell[1]. Diferentemente do que as pessoas influenciadas pela famosa animação de Walt Disney[2] e pelas ilustrações de Tenniel possam imaginar, a Alice de carne e osso, filha do deão do Christ Church, tinha cabelo escuro. Foi para ela que Carroll criou o Alice no País das Maravilhas. É interessante ressaltar que ainda que Dodgson gostasse muito da menina e tenha tentado homenageá-la, o próprio nome “Alice” nas histórias não deve ser interpretado como um mero acaso: derivado do grego “Alétheia” (“ἀλήθεια”), ele significa “Verdade”, reforçando a interpretação mais ampla dos livros carrollianos para além dos fatos narrados e abrindo todo um escopo de possibilidade de entendimento dos diversos enigmas que abundam nas duas obras.

A ideia para o primeiro livro, aliás, surgiu durante um passeio de barco a 4 de julho de 1962, em que Alice e suas irmãs pediram para Dodgson, um amigo da família, lhes contar uma história. Ele então inventou um embrião oral da narrativa, o qual por sua vez transformou-se no Alice’s Adventures under Ground, um livro redigido à mão (e já com ilustrações, feitas pelo próprio Dodgson) que o autor deu à menina como presente de Natal. Algum tempo depois o escritor decide publicar a história, mexe consideravelmente no texto e entra em contato com um ilustrador profissional famoso da época, chamado John Tenniel, para fazer as ilustrações. Essa publicação é o Alice no País das Maravilhas tal como o conhecemos, e a primeira edição foi bancada pelo próprio Dodgson. Ele sempre se preocupou com qualidade, por isso cuidava para que o acabamento das edições fosse o melhor possível. O sucesso foi enorme já no lançamento, sendo o livro mais vendido, e de lá para cá nunca mais deixou de ser reeditado.

Dodgson é uma figura bastante enigmática. Da mesma forma como assinava seus trabalhos literários com um pseudônimo, há críticas que defendem que sua própria personalidade também era dupla: de um lado haveria o lado fortemente racional do Dodgson real, um matemático, professor, religioso, homem apegado à normalidade da época e autor de livros sobre lógica e matemática; e em oposição, haveria um lado sonhador, o lado Carroll, aquele do mundo interior que se abre ao fantástico e que se manifestava nos trabalhos literários.

Também, até hoje se discute se ele era ou não pedófilo, já que só gostava de ficar na companhia de menininhas e não se sentia muito confortável com garotos ou adultos. Eram muitas as suas amiguinhas, e ele gostava de lhes escrever cartas peculiares, com desenhos ao invés de palavras. Várias dessas cartas foram preservadas até hoje, com exceção daquelas escritas para Alice, as quais desapareceram todas. Se essa atração por garotas era de cunho sexual ou não só temos como especular, pois não há fatos concretos que provem o que quer que seja. Ainda quanto a essa polêmica, é curioso notar que Dodgson mantinha um diário, mas as páginas que podiam ter alguma informação sobre sua relação com as meninas, bem como as páginas que em teoria continham o motivo de os laços com a família da Alice terem sido cortados, foram misteriosamente arrancadas após sua morte, talvez por algum membro de sua família. E isso levanta algumas suspeitas, pois o que é que poderia haver ali para que fossem arrancadas? Será que era algo comprometedor? Que fim teriam levado as cartas escritas para Alice e o que haveria nelas?

Dodgson tinha afeição pela lógica, por escrever e por meninas, e tinha como hobby a fotografia (à época uma novidade). Gostava de fotografar suas amiguinhas, fazendo por vezes até nus, mas tudo sempre com o consentimento das famílias e das próprias meninas. Esses nus, vale frisar, não têm nada de erótico, são apenas ensaios artísticos. E aí destaca-se outro traço importante da personalidade de Carroll: ele sempre foi muito nostálgico e inclusive escreveu poemas dizendo que gostaria de voltar a ser criança e que trocaria tudo por ser jovem de novo. E o que é que há de mais nostálgico do que a própria arte da fotografia? Fotografar nada mais é do que “congelar” alguma coisa em um determinado espaço e tempo. Dessa maneira, Carroll poderia ter as amiguinhas para sempre imutáveis. Já que é impossível não crescer, ao menos a juventude e a inocência delas estariam para sempre preservadas nos retratos, reificadas, uma réplica vulgar da essência. Meninas presas porém ausentes.

Outra peculiaridade interessante é que Carroll tinha uma coleção de bonecas, que alguns dizem servir para “atrair” as meninas. Mas se isso for analisado com mais calma, pode-se perceber que, psicologicamente falando, talvez o que aconteça nesse caso seja o mesmo que acontece no da fotografia, isto é, uma maneira consciente ou não que o autor encontrou de amenizar a nostalgia que havia dentro de si. Basta parar para pensar na semelhança entre bonecas e a imagem feminina (analogia que aliás é feita desde a antiguidade). Dodgson talvez tivesse o sonho de possuir uma menininha que nunca envelhecesse. A dedicação em escrever histórias nonsense para crianças, aliás, talvez tivesse como fim estabelecer um contato com o mundo infantil, que ele tanto admirava.

Com o tempo, a nostalgia de Carroll cresce e isso se reflete nas suas obras literárias. Por exemplo, ao compararmos o Alice no País das Maravilhas com o Alice Através do Espelho, notaremos que no segundo, escrito seis anos mais tarde, Alice sofre um tipo de crueldade sutil que diverge do tom do primeiro livro e que a personagem também passa por acontecimentos melancólicos impensáveis no contexto de sua primeira aventura, como por exemplo no capítulo cinco:

Assim deixou-se o barco seguir pelo ribeirão ao seu bel-prazer, até que deslizou suavemente para o meio dos juncos oscilantes. Então as manguinhas foram cuidadosamente arregaçadas, e os bracinhos mergulhados até os cotovelos para pegar os juncos bem mais abaixo antes de quebrá-los… e por algum tempo a Ovelha e seu tricô sumiram da cabeça de Alice, enquanto ela se debruçava sobre a borda do barco, só as pontas dos cabelos emaranhados mergulhando na água… e, com olhos faiscantes e sôfregos, apanhava feixe após feixe dos encantadores juncos perfumados.

“Espero que o barco não vire!” disse para si mesma. “Oh, que lindo é aquele. Só que não consegui alcançá-lo.” E certamente parecia um pouco enervante (“quase como se fosse de propósito”, ela pensou) que, embora conseguisse colher quantidades de lindos juncos à medida que o bote deslizava, houvesse sempre um mais lindo que não podia alcançar.

“Os mais bonitos estão sempre mais longe!” disse por fim, com um suspiro ante a teimosia dos juncos em crescerem tão afastados, enquanto, faces afogueadas e cabelo e mãos pingando, tentava voltar a seu lugar e começava a arrumar seus recém-descobertos tesouros.

Que lhe importava naquele momento que os juncos tivessem começado a murchar e a perder seu perfume e beleza, desde o momento em que os colhera? Até juncos perfumados reais, como você sabe, duram só por pouco tempo… e esses, sendo juncos de sonho, derretiam quase como neve enquanto repousavam em feixes aos pés dela… mas Alice mal percebeu isso, tantas outras coisas curiosas tinha para pensar. (CARROLL, 2002, p.58)

Seriam os juncos uma metáfora para a efemeridade da beleza das crianças de que Carroll gostava, ou mais além, para a fugacidade de todo tipo de beleza?

A vida de Dodgson sempre foi envolta em muito mistério. Foram vários os biógrafos e comentadores de suas obras que se propuseram a tentar desvendar os inúmeros enigmas e lacunas que envolvem criador e obras. De uma forma ou de outra, é disso que é feita a boa literatura: de releituras sempre novas e atualizadas e de, por vezes, dados biográficos que instigam a curiosidade das mentes curiosas.

 


[1] É interessante atentar na simetria existente entre os nomes “Alice Liddell” e “Lewis Carroll”. O número de letras é o mesmo e a relação consoante-vogal também chama a atenção: no primeiro nome, onde em um há consoante, no outro há vogal; e no sobrenome, a posição das consoantes e das vogais é a mesma.

[2] Essa versão de Walt Disney é na verdade uma mistura das histórias dos dois livros, apesar de levar o título “Alice no País das Maravilhas”.

Comentários das traduções

Abaixo serão comentadas apenas as passagens mais interessantes do ponto de vista tradutório, seja pelas dificuldades encontradas em sua tradução ou por apresentarem alguma diferença digna de nota quando comparadas as versões inglesa, de Lewis Carroll, a tradução francesa, de Jacques Papy, e as duas traduções para o português, feitas por mim. Vale ressaltar também que, consequentemente, o intuito não é focar a análise dos textos a partir do ponto de vista literário.

Texto em inglês

Tradução do inglês

Texto em francês

Tradução do francês

“The Rabbit Sends in a Little Bill” “O Coelho envia Pedro e pedras” “Le Lapin Envoie Pierre et Pierres” “O Coelho envia Pedro e pedras”

Já no título do capítulo o tradutor se depara com um belo desafio, que advém de quatro elementos essenciais da construção da frase: o sintagma “The Rabbit” na posição sintática de sujeito, um verbo transitivo direto na voz ativa, o sintagma “a Little Bill” como o objeto direto (sofrendo a ação) e a polissemia do signo duplo “Bill”, este último elemento responsável por transformar os três anteriores em um quebra-cabeça complicado.

“Bill”, no caso, pode ser tanto o pequeno lagarto que é chutado pela chaminé (exercendo tal palavra uma função de substantivo próprio) como também pode significar “conta”, “fatura” (exercendo desse modo um papel de substantivo comum). Trata-se de uma brincadeira com o fato de Alice ter se hospedado, ainda que sem querer, na casa do Coelho. No tocante aos outros elementos, é interessante notar que quem pratica a ação de enviar alguém (“to send someone in”) é o Coelho, figura influente no País das Maravilhas, como o sugerem o pronome de tratamento “yer honour” pelo qual é chamado mais adiante no capítulo e o cargo por ele ocupado no tribunal do Rei de Copas ao fim do livro; por sua vez, é o lagarto Bill, em posição de serviçal, quem terá de cumprir a ordem do Coelho e descer pela chaminé.

Jacques Papy resolve bem esses problemas, adaptando o nome Bill, cujo correspondente em português seria Guilherme e em francês, Guillaume, para Pierre (Pedro), brincando assim com a raiz comum existente entre “Pierre” (“Pedro”) e “pierre” (“pedra”) a fim de criar um jogo sonoro que ao mesmo tempo compense as perdas da tradução e possibilite manter a estrutura sintática da frase em inglês, com toda a significação já discutida que ela encerra. Tomou-se emprestada essa ótima solução do tradutor francês para a tradução apresentada do texto inglês.

Texto em inglês

Tradução do inglês

Texto em francês

Tradução do francês

“Where can I have dropped them, I wonder?” Onde é que posso ter deixado cair?” “Où diable ai-je bien pu les laisser tomber ?” “Onde raios pude tê-los deixado cair?”

Ao longo das Alices, Carroll emprega com muita frequência o efeito itálico a fim de enfatizar algumas palavras. Contudo, o tradutor francês, ao menos no capítulo tomado para análise (capítulo 4), elimina a maior parte desses destaques e busca imprimir as ênfases por intermédio de construções gramaticais ligeiramente diferentes das existentes no texto em inglês. Detenhamo-nos à passagem acima como forma de exemplificação de tais adaptações: ao empregar “où diable”, traduzido por “onde raios”, Pappy faz uso do determinante “diable” (eufemizado em português por tratar-se de um livro infantil) como tentativa de transmitir a mesma inflexão presente em “where can I”, esse último, por sua vez, traduzido como “onde é que”.

E isso nos leva a mais uma ponderação relevante: na tradução inglês-português todos os itálicos enfáticos foram mantidos, ainda que com ligeiras adaptações, as quais objetivaram buscar uma melhor fluência na língua de chegada. Assim, deslocou-se a ênfase do verbo modal “can”, que na tradução corresponderia ao verbo “posso”, para o pronome interrogativo “onde”, em inglês, “where”.

Texto em inglês

Tradução do inglês

Texto em francês

Tradução do francês

“Why, Mary Ann, what are you doing out here?” “Por Deus, Amélia, o que você está fazendo aqui fora?” “Eh bien, Marie-Anne, que diable faites-vous là ?” “Oras, Mariana, que raios você está fazendo aqui?”

Sobre o significado de “Mary Ann”, Martin Gardner esclarece que:

Segundo Roger Green, Mary Ann era na época um eufemismo britânico para “criada”. A amiga de Dodgson, sra. Julia Cameron, uma apaixonada fotógrafa amadora, tinha realmente uma criada de 15 anos chamada Mary Ann e há uma fotografia dela na biografia de Carroll escrita por Anne Clark para prová-lo. Mary Anne Paragon era a criada desonesta que cuidava da casa de David Copperfield (ver cap.44 do romance de Dickens). Sua natureza, nos é dito, era “debilmente expressa” por seu último nome [paragon é modelo, exemplo].

Dicionários de gíria dão outros sentidos para Mary Ann correntes na época de Carroll. O mostruário de uma modista era chamada [sic] de Mary Ann. Mais tarde, especialmente em Sheffield, o nome ficou associado a mulheres que combatiam lojistas que exploravam os empregados. Ainda mais tarde, tornou-se um termo vulgar para sodomitas.

Antes da Revolução Francesa, Mary Anne era um termo genérico para organizações republicanas, bem como uma gíria para a guilhotina. Marianne tornou-se e ainda é um símbolo feminino mítico das virtudes republicanas, um símbolo francês comparável ao John Bull da Inglaterra e ao Tio Sam. É tradicionalmente representada, em charges políticas e estatuetas, carregando o barrete frígio vermelho usado pelos republicanos na Revolução Francesa. É provavelmente por coincidência que o uso do nome por Carroll antecipa a obsessão pela decapitação partilhada pela Duquesa e a Rainha de Copas.

Assim, por ser “Mary Ann” além de um substantivo próprio também um eufemismo para “criada”, buscou-se evocar na tradução do inglês para o português os semas de mulher submissa, muito sugestivos no contexto em questão, por intermédio da adaptação do nome para “Amélia”, também um signo duplo, cuja acepção segundo o dicionário Houaiss é:

amélia s.f. (1942) B infrm. mulher amorosa, passiva e serviçal. ETIM antr. Amélia, do samba Ai! que saudades da Amélia, de autoria de Ataulfo Alves e Mário Lago (1942)

Já na tradução feita a partir do francês, uma vez que o nome “Marie-Anne” não evoca nenhum outro sentido importante (ainda que de acordo com a definição supracitada de Martin Gardner pudéssemos estabelecer daí uma relação, a meu ver não tão relevante, com a Revolução Francesa), optou-se em português pelo nome equivalente “Mariana”, simplesmente.

Texto em inglês

Tradução do inglês

Texto em francês

Tradução do francês

“”Sure, it’s an arm, yer honour!” (He pronounced it “arrum.”)” “— Claro, é um braço, S’Excelência! (Ele pronunciava “umbrás”.)” “‒ Pour sûr que c’est un bras, not’ maît’ ! » (Il prononçait : brâââs).” “— Com certeza que é um braço, senhô! (Ele pronunciava “braaaço”.)”

Conforme aponta o estudioso Martin Gardner (CARROLL, 2002, p.38), o personagem Pat, da maneira como foi originalmente criado por Carroll, tem nome e sotaque irlandeses. Era comum (e é ainda hoje) explorar variações linguísticas e desvios da chamada norma-padrão como elementos humorísticos em textos cômicos, orais ou escritos.

Tendo isso em mente, pode-se notar que tanto na tradução francesa de Papy como nas para o português levou-se mais em conta a preservação do tom oral e do humor presentes nesse diálogo do que a adaptação da fala de Pat para um determinado sotaque regional e notório. Traduzir variações lingüísticas é sempre um desafio para o tradutor, e assim há que se trabalhar constantemente com base em compensações: ora alguma nuance se perde, ora outra nuance se ganha.

Vale ressaltar também a preocupação em se traduzir com uniformidade o vício de linguagem de Pat, que em inglês inicia todas as falas dizendo “sure”, palavra vertida na tradução inglês-português por “claro”, na tradução inglês-francês, pela expressão “pour sûr” (que, convém frisar, nem sempre está no início da fala) e, na francês-português, por “com certeza”.

Texto em inglês

Tradução do inglês

Texto em francês

Tradução do francês

“”Where’s the other ladder?—Why, I hadn’t to bring but one. Bill’s got the other—Bill! Fetch it here, lad!—Here, put ‘em up at this corner—No, tie ‘em together first—they don’t reach half high enough yet (…)” ““Onde está a outra escada? — Ora, eu tinha que trazer só uma. O Pedro está com a outra — Pedro! Traga ela aqui, rapaz! — Aqui, bote de pé nesse canto — Não, amarre uma na outra antes… elas ainda não chegam nem na metade da altura (…)” “« Ousqu’est l’autre échelle? — On m’a dit d’en apporter qu’une ; c’est Pierre qu’a l’autre. — Pierre, amène-là ici, mon gars ! — Mettez-les à ce coin-ci. — Non, faut d’abord les attacher bout à bout ; elles arrivent point assez haut.” “— Onde é que tá a outra escada? — Só me falaram pra trazer uma; é o Pedro que tá co’a outra. — Pedro, traga ela aqui, meu rapaz! — Coloquem as duas neste canto aqui. — Não, precisa primeiro prender as pontas delas juntas, senão não vão alcançar até lá.”

A exemplo do personagem Pat, os outros animaizinhos e aves que aparecem para ajudar o Coelho a tirar Alice de dentro da casa não falam de acordo com a norma-padrão. Dessa forma, aqui mais uma vez compensaram-se perdas em algumas partes com ganhos em outras, conforme as especificidades de cada língua.

É relevante destacar que a tradução francesa apresenta mais desvios da norma-padrão do que o texto de Carroll, talvez por não haver na língua inglesa uma distância tão grande no que tange às diferenças de registro quando em comparação com as línguas francesa e portuguesa. De qualquer forma, as traduções para o português refletem essas diferenças. Assim, pode-se notar que a tradução feita a partir do francês tem um tom ligeiramente mais informal do que a tradução inglês-português.

Dando continuidade à série de posts iniciada na semana passada (clique aqui para ler a parte 1), hoje lhes trago a tradução para o português do capítulo 4 de “Alice no País das Maravilhas” que fiz a partir da tradução francesa de Jacques Papy. Disponibilizo ao fim do post o arquivo da tradução em formato pdf, bem como o texto em francês para cotejo.

Semana que vem postarei os comentários comparando as minhas duas traduções, a tradução francesa e o texto em inglês.


Capítulo 4

O Coelho envia Pedro e pedras

Era o Coelho que vinha caminhando a passos curtos e lentos e olhando inquieto em volta, como se tivesse perdido alguma coisa. Alice o ouviu murmurar: “A Duquesa! A Duquesa! Ai, minhas pobres patinhas! Ai, meu pelo e meus bigodes! Ela vai ordenar me executarem, tão certo quanto furões são furões! Onde raios pude tê-los deixado cair?” Alice adivinhou no mesmo instante que ele procurava pelo leque e pelas luvas brancas de pele de cabrito. Muito gentilmente, a menina pôs-se a procurá-los à sua volta, mas não estavam em lugar algum. Tudo parecia ter mudado desde quando saíra do mar de lágrimas: o salão, a mesa de vidro e a chavezinha de ouro haviam desaparecido completamente.

Logo o Coelho viu Alice vasculhando por todos os cantos e dirigiu-se a ela em tom irritado:

— Oras, Mariana, que raios você está fazendo aqui? Vá imediatamente para casa e traga-me um par de luvas e um leque! Vamos, rápido!

Alice ficou com tanto medo que partiu no mesmo instante, correndo o mais rápido que podia na direção para onde ele apontava, sem tentar lhe explicar que tinha se enganado.

“Ele me confundiu com a criada” — falava para si mesma enquanto corria. “Imagine como ficará surpreso quando souber quem sou! Mas é melhor que eu lhe traga o leque e as luvas… isso é, se eu chegar a encontrá-los.” Enquanto dizia isso, chegou à entrada de uma casinha bastante graciosa; em cima da porta, uma placa brilhante de cobre onde estava gravado o nome “C. BRANCO”. Entrou sem bater e voou escada acima, pois estava com muito medo de topar com a verdadeira Mariana e de ser expulsa antes de ter encontrado o leque e as luvas.

“Que sensação mais esquisita” — pensou Alice —, “receber ordens de um coelho! Depois disso, imagino que será Dinah a próxima a ficar mandando em mim!” E começou a imaginar que tipo de coisa aconteceria: “ ‘Senhorita Alice, venha imediatamente se aprontar para seu passeio!’ ‘Ah, em um minutinho! Mas preciso ficar vigiando esse buraco até Dinah voltar para que o rato não fuja.’ Só acho” — continuou Alice — “que não deixariam Dinah ficar em casa se ela se metesse a dar ordens desse jeito!”

Alice chegara agora a um quartinho maravilhosamente bem arrumado. Diante da janela havia uma mesa; sobre a mesa, como ela tinha esperado, havia um leque e dois ou três pares de minúsculas luvas brancas feitas de pele de cabrito. Pegou o leque e um par de luvas e estava para sair do quarto quando seu olhar pousou sobre uma pequena garrafa ao lado de um espelho. Desta vez não havia rótulo com as palavras “BEBA-ME”, mas, ainda assim, ela desarrolhou a garrafa e a levou aos lábios. “Sei que sempre acontece alguma coisa interessante cada vez que como ou bebo o que quer que seja” — disse para si mesma. — “Vou ver o efeito que essa garrafa produzirá. O que espero é que ela me faça crescer de novo, porque, realmente, estou farta de ser tão pequenininha!”

Alice de fato começou a crescer, e mais cedo do que esperava. Antes de ter bebido a metade do conteúdo da garrafa, deu-se conta de que sua cabeça estava pressionada contra o teto de tal forma que teve de se abaixar para não quebrar o pescoço. Apressou-se em recolocar a garrafa no lugar, dizendo: “Já está bom assim… Espero não crescer mais… Do jeito que estou já não posso mais sair pela porta… Não devia ter bebido tanto!”

Mas ai! Arrepender-se era inútil! Ela continuava a crescer sem parar e, não demorou muito, foi obrigada a se ajoelhar no chão. Um minuto depois já não tinha mais espaço nem para isso. Ela experimentou deitar-se, com um cotovelo contra a porta e o outro braço dobrado sobre a cabeça. Depois, como não parava nunca de crescer, colocou um braço para fora da janela, enfiou um pé pela chaminé e disse para si mesma: “Agora não posso fazer mais nada, aconteça o que acontecer. O que será de mim?”

Mas felizmente o efeito da garrafinha mágica havia cessado e Alice parou de crescer; ainda assim, sentia-se pouquíssimo à vontade e, como não parecia ter a menor chance de poder sair um dia do quartinho, não era de surpreender que se sentisse infeliz.

“Era muito mais agradável em casa” — pensava a pobre menina. — “Lá não se ficava crescendo nem encolhendo a todo momento e nem tinha rato ou coelho nenhum para ficar dando ordens. Estou quase me arrependendo de ter entrado nesta terra estranha… E no entanto… no entanto… é mesmo um estilo de vida bastante curioso, este! Eu me pergunto o que é que pode ter acontecido comigo! Quando lia contos de fadas, achava que esse tipo de coisa não acontecia nunca, e agora aqui estou eu bem no meio de um desses contos! Deviam escrever um livro sobre mim, ah, se deviam! Quando for grande, escreverei um… Mas já sou bastante grande agora” — acrescentou em tom pesaroso. — “Em todo caso, aqui já não tenho mais absolutamente espaço algum para crescer…”

“Mas então” — prosseguiu —, “será que terei sempre a mesma idade que tenho hoje? Por um lado seria bem reconfortante não ser nunca uma mulher velha… mas, por outro lado, ter que estudar lições a vida inteira! Oh, eu não gostaria disso nem um pouco!”

“Minha pobre Alice, como você pode ser tola!” — respondeu para si mesma — “Como poderia estudar aqui? Mal tem espaço para você! Imagine então para os livros!”

E continuou desse jeito por um bom tempo, mantendo uma verdadeira conversa consigo mesma: alternadamente perguntava e respondia. Depois, passados alguns minutos, ouviu uma voz do lado de fora da casa e se calou para escutar.

— Mariana! Mariana! — dizia a voz. — Traga-me minhas luvas imediatamente!

Em seguida, Alice ouviu um barulho de passos apressados na escada. Ela soube que era o Coelho vindo ver o que tinha acontecido e se pôs a tremer ao ponto de sacudir a casa toda, pois tinha esquecido que estava agora mil vezes maior que ele e que não tinha mais nenhuma razão para temê-lo.

Logo o Coelho chegou até a porta e tentou abri-la; mas, como ela abria para dentro e o cotovelo da menina estava fortemente apoiado contra o batente, a tentativa fracassou. Alice ouviu o Coelho, que dizia:

— Já que é assim, vou dar a volta e entrar pela janela.

“Se está mesmo achando isso, está enganado!” — pensou Alice. Ela esperou um momento e então, quando lhe pareceu ter ouvido o Coelho bem debaixo da janela, abriu a mão bruscamente e fez um grande gesto como que para apanhar uma mosca. Não apanhou nada, mas ouviu um grito agudo, um barulho de queda e um ruído de vidro quebrado, de onde concluiu que o Coelho devia ter caído sobre uma estufa de pepinos, ou algo do gênero.

Em seguida ressoou uma voz furiosa, a voz do Coelho, gritando:

— Pat! Pat! Onde você está?

Depois do que uma voz que a menina não conhecia respondeu:

— Aqui, tô aqui, com certeza! Tô colhendo maçã, senhô!

— Ah! Francamente, colhendo maçãs! Venha cá! Venha me ajudar a sair daqui!

(Novo ruído de vidro quebrado.)

— Vejamos, Pat… diga -me: o que você acha que é aquilo na janela?

— Com certeza que é um braço, senhô! (Ele pronunciava “braaaço”.)

— Um braço, seu pateta! Onde é que já se viu um braço daquele tamanho? Vou te falar, ele ocupa a janela todinha!

— Com certeza, isso é, senhô. Mas, apesar disso, não deixa de ser um braço.

— Em todo caso, não tem nada que fazer ali: então vai e tire-o de lá!

A essa conversa seguiu-se um longo silêncio, e Alice ouviu apenas algumas frases ditas em voz baixa de tempos em tempos, tais como: “Com certeza, não gosto nadinha disso, senhô. De verdade, não gosto nadinha disso!” e “Faça o que eu estou dizendo, seu medroso!”

Por fim, Alice abriu a mão novamente e fez mais um grande gesto como o de apanhar mosca. Dessa vez, houve dois gritos agudos e um novo ruído de vidro quebrado. “Como deve ter estufas de pepinos por aqui!” — pensou Alice. “Imagino o que vão fazer agora! Quanto a me tirar da janela, bem que eu gostaria que pudessem fazer isso! Eu é que não tenho vontade de ficar aqui por mais tempo!”

Por um momento não ouviu mais nada. Em seguida veio o ruído surdo de rodinhas de charrete e o barulho de várias vozes falando ao mesmo tempo. Ela distinguiu as seguintes frases:

— Onde é que tá a outra escada? — Só me falaram pra trazer uma; é o Pedro que tá co’a outra. — Pedro, traga ela aqui, meu rapaz! — Coloquem as duas neste canto aqui. — Não, precisa primeiro prender as pontas delas juntas, senão não vão alcançar até lá. — Ah, assim já dá, como você é complicado! — Então, Pedro, pegue pra mim essa corda! — Mas será que o teto vai aguentar seu peso? — Cuidado com aquela telha que está solta! — Aí vem ela, está caindo! Se protejam aqui em baixo!

(Aí houve um barulhão.)

— Quem foi que fez isso? — Acho que foi o Pedro. — Quem que vai descer pela chaminé? — Eu é que não vou! Desce você! — Se é assim, não vou mesmo! — É o Pedro que tem que descer. — Tá ouvindo, Pedro? O patrão disse que você tem que descer pela chaminé!

“Ah, francamente! O Pedro tem que descer pela chaminé!” — pensou Alice. “Vou falar uma coisa, parece que tudo cai nas costas do Pedro! Eu não queria por nada no mundo estar no lugar dele: a chaminé é estreita, é bem verdade, mas estou bem certa de que tenho espaço para dar um chute!”

Recolheu o pé para o mais longe que pôde e esperou. Não tardou e ouviu os sons de um animalzinho (ela não conseguiu adivinhar que tipo de animal era) arranhando as paredes da chaminé bem acima. Falou para si mesma: “Aí está o Pedro”, deu um forte chute e apurou os ouvidos para saber o que ia acontecer.

Primeiro ouviu várias vozes que exclamavam em coro: “Ó lá, lá vai o Pedro!”, depois o Coelho ordenou: “Apanhem-no, vocês aí perto da sebe!”, em seguida houve um momento de silêncio e então um coro de vozes confusas: “Levantem a cabeça dele. — Agora um pouco de cachaça. — Não afogue ele. — Como te aconteceu isso, meu velho? Que houve? Conte pra gente!”

Por fim, ouviu-se uma vozinha fraca e aguda (“Esse é o Pedro”, pensou Alice):

— Juro que não sei… Não, obrigado, já tomei bastante… Sim, tô me sentindo melhor, mas ainda tô muito zonzo pra conseguir contar alguma coisa… Tudo que eu sei é que um negócio me bateu com força por baixo e me mandou pros ares que nem um foguete!

— É, foi isso mesmo, meu velho! — exclamaram os outros.

— Precisaremos queimar a casa! — disse a voz do Coelho.

— Se fizerem isso, mando Dinah ir atrás de vocês! — exclamou Alice com todas as forças.

Fez-se um silêncio mortal instantaneamente e ela pensou: “Eu me pergunto o que é que eles vão inventar de fazer agora! Se tivessem um pouquinho que fosse de bom senso, arrancariam o telhado.”

Passados um ou dois minutos, voltaram a se agitar e Alice ouviu o Coelho, que dizia:

— Um carrinho de mão cheio será o suficiente pra começar.

“Um carrinho de mão cheio de quê?” — pensou a menina. Mas não ficou em dúvida por muito tempo, porque, um segundo depois, uma chuva de cascalho caiu sobre a janela e algumas das pedrinhas a atingiram no rosto. “Vou fazer isso parar” — disse para si mesma, e então gritou com toda a força: “É melhor vocês não fazerem mais isso!”, o que gerou um silêncio mortal.

Alice percebeu, não sem surpresa, que o cascalho espalhado pelo piso se transformava em pequenos bolos, e uma ideia luminosa veio-lhe à mente. “Se eu comer um desses bolinhos” — pensou, “com certeza vou mudar de tamanho e, como é impossível eu crescer ainda mais, suponho que vou encolher.”

Em seguida engoliu um bolo e ficou encantada em ver que começava a diminuir imediatamente. Assim que ficou pequena o bastante para poder passar pela porta, saiu da casa correndo. No jardim, encontrou uma grande quantidade de animaizinhos e aves. Pedro, o Lagarto mal-afortunado, estava no meio do grupo, sendo sustentado por dois porquinhos-da-índia, que lhe davam de beber. Todos se precipitaram na direção de Alice assim que ela apareceu, mas a menina fugiu a toda velocidade e não demorou para que se encontrasse em segurança em um bosque cerrado.

“A primeira coisa que devo fazer” — disse para si mesma enquanto se aventurava pelo bosque — “é voltar ao meu tamanho normal. Depois, tenho que conseguir entrar naquele jardim encantador. Acho que esse é um plano muito bom.”

Certamente o plano parecia excelente, ao mesmo tempo simples e preciso. A única dificuldade era que Alice não fazia a menor ideia de como colocá-lo em prática. Enquanto olhava a sua volta entre as árvores com inquietação, um latidinho seco bem acima de sua cabeça fez com que levantasse os olhos correndo.

Um cachorrinho enorme a olhava lá de cima com grandes olhos redondos e tentava tocá-la esticando timidamente uma de suas patas.

“Pobre bichinho!” disse Alice com uma voz carinhosa. Depois tentou com esforço assobiar para o cachorrinho; mas, na verdade, sentia um medo terrível da ideia de que ele pudesse estar com fome porque, nesse caso, poderia muito bem ser devorada, apesar dos agrados.

Não sabendo muito bem o que fazer, apanhou um graveto e o estendeu para o cachorrinho, que deu um grande pulo no ar, latindo de prazer, e em seguida se lançou sobre o objeto para mordê-lo. Alice se esquivou para trás de um grande cardo a fim de evitar ser atropelada, mas, assim que ela apareceu do outro lado da planta, o cachorrinho disparou novamente na direção do graveto e deu uma cambalhota na pressa de pegá-lo. Então Alice (que tinha nitidamente a impressão de estar brincando com um cavalo, e que esperava ser pisoteada a qualquer momento) se esquivou de novo para trás do cardo. Nisso, o cachorrinho executou uma série de ataques curtos contra o graveto, avançando bem pouco e recuando bastante a cada vez, sempre latindo com uma voz rouca. Finalmente ele sentou-se a uma distância bem grande, ofegando, com a língua para fora e com os olhos grandes metade fechados.

Alice julgou que aquela era uma boa chance para se salvar; partiu no mesmo instante e correu até ficar esgotada e sem fôlego, e até que o latido do cachorrinho soasse apenas muitíssimo fraco ao longe.

“Ainda assim, que cachorrinho encantador aquele era!” — disse para si mesma enquanto se apoiava em um botão-de-ouro para descansar e se abanava com uma das folhas. “Eu teria adorado ensinar-lhe a fazer truques se… se eu pelo menos tivesse o tamanho necessário para isso! Ah! Meu Deus! Tinha quase esquecido que preciso crescer! Vejamos… como é que posso fazer isso? Acho que eu deveria comer ou beber alguma coisa; mas a grande pergunta é: o quê?”

A grande pergunta certamente era “o quê?”. Alice olhou as flores e as ervas a sua volta sem ver nada que parecesse com a coisa que deveria comer ou beber, dadas as circunstâncias. Bem perto erguia-se um cogumelo quase que da mesma altura que ela; depois de ter olhado embaixo do cogumelo, atrás do cogumelo e dos dois lados do cogumelo, veio-lhe a ideia de que ela poderia da mesma forma olhar o que havia na parte de cima do cogumelo.

Ficou na ponta dos pés, deu uma olhada atenta e seu olhar cruzou-se imediatamente com o olhar de uma grande lagarta azul, que estava sentada com os braços cruzados, fumando tranquilamente um comprido narguilé sem prestar a menor atenção em Alice ou no que quer que fosse.

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Tradução francês-português:

O Coelho envia Pedro e pedras

Texto em francês para cotejo:

Le Lapin Envoie Pierre Et Pierres

Como parte da minha monografia, resolvi traduzir do inglês e do francês para o português o capítulo 4 de “Alice no País das Maravilhas” e em seguida comentar, a partir do ponto de vista tradutório, as passagens mais interessantes. Também planejei uma série de 3 posts aqui para o blogue em que publicarei esse material, no qual venho trabalhando há algum tempo.

Neste primeiro momento, mostrarei a tradução que fiz do inglês; daqui uma semana, a tradução feita a partir do francês; e dentro de duas semanas, os comentários comparando os 4 textos. Espero que gostem e comentem.

(Disponibilizo ao fim do post o arquivo da tradução em formato pdf, bem como o original em inglês para cotejo.)


Capítulo IV

O Coelho envia Pedro e pedras

 

Era o Coelho Branco, caminhando a passos curtos e lentos enquanto olhava em volta aflito por onde passava, como se tivesse perdido alguma coisa. Alice o ouviu murmurando para si mesmo: “A Duquesa! A Duquesa! Ai, minhas patinhas! Ai, meu pelo e meus bigodes! Ela vai mandar me executarem, e isso é tão certo quanto furões são furões! Onde é que posso ter deixado cair?” Alice adivinhou num instante que o Coelho estava procurando pelo leque e pelo par de luvinhas brancas, e então muito amavelmente começou a procurá-los também, mas os objetos não estavam em lugar algum: tudo parecia ter mudado desde que a menina caíra na lagoa, e o salão, junto com a mesa de vidro e a portinha, desaparecera completamente.

Não demorou muito o Coelho percebeu Alice vasculhando por todos os cantos e a chamou, com um tom irritado:

— Por Deus, Amélia, o que você está fazendo aqui fora? Corra pra casa agora mesmo e me traga um par de luvas e um leque! Rápido, vai!

Alice ficou tão assustada que saiu correndo imediatamente na direção aonde o Coelho estava apontando, sem tentar explicar o engano que ele tinha cometido.

“Ele me confundiu com a criada” — disse para si mesma enquanto corria. “Imagine como ficará surpreso quando descobrir quem eu sou! Mas é melhor eu levar-lhe o leque e as luvas… isto é, se eu conseguir encontrá-los.” Ao dizer isso, deparou-se com uma casinha bem-cuidada; na porta, uma placa brilhante de latão com o nome “COELHO B.” gravado. Entrou sem bater e subiu as escadas correndo, com muito medo de topar com a verdadeira Amélia e ser colocada pra fora antes de ter encontrado o leque e as luvas.

“Que história esquisita” — Alice disse para si mesma, “essa de receber ordens de um coelho! Do jeito que as coisas vão, será Dinah a próxima a ficar mandando em mim!” E começou a fantasiar qual tipo de coisa que aconteceria: “ ‘Senhorita Alice! Venha já aqui e apronte-se para o seu passeio!’ ‘Num minuto, ama! Mas eu tenho que ficar vigiando esse buraco até a Dinah voltar pra que o rato não fuja.’ Só acho” — Alice continuou, “que não deixariam Dinah ficar em casa se ela começasse a mandar nas pessoas assim!”

Enquanto devaneava, Alice tinha entrado num quartinho arrumado com uma mesa à janela, e sobre essa mesa (como ela tinha esperado), havia um leque e dois ou três pares de pequenas luvinhas brancas: ela apanhou o leque e um par de luvas, e estava para sair do quarto quando seu olhar pousou sobre uma pequena garrafa que estava perto do espelho. Não havia rótulo desta vez com as palavras “BEBA-ME”, mas de qualquer forma ela desarrolhou a garrafinha e a levou aos lábios. “Sei que alguma coisa interessante com certeza vai acontecer” — disse para si mesma, “sempre que eu comer ou beber algo, então vou só ver o que esta garrafa faz. O que espero é que ela me faça ficar grande de novo, porque estou realmente bastante cansada de ser uma coisinha tão pequena assim!”

Foi o que aconteceu de fato, e muito antes do que ela esperava: antes de ter bebido metade da garrafa, sentiu de repente sua cabeça pressionando contra o teto e teve de curvar-se para evitar quebrar o pescoço. Largou apressadamente a garrafa, dizendo para si mesma: “Isso foi mais do que o suficiente, espero não crescer nem mais um pouco… Do jeito que está, não posso sair pela porta… Bem que eu queria não ter bebido tanto!”

Mas ai! Era tarde demais para desejar isso! Ela continuou crescendo, e crescendo, e em pouco tempo teve de se ajoelhar no chão. Um minuto depois não havia espaço nem mesmo para tal, e ela experimentou deitar-se com um cotovelo pressionando contra a porta e o outro braço enrolado em volta da cabeça. Mesmo assim continuou a crescer e, como não tinha outro jeito, colocou um braço para fora da janela e enfiou um pé pela chaminé. Disse então para si mesma: “Agora não posso fazer mais nada, aconteça o que acontecer. O que será de mim?”

Para a sorte de Alice, o efeito da pequena garrafa mágica havia cessado e a menina não cresceu mais. Contudo, a situação em que se encontrava era muito desconfortável, e como não parecia haver nenhum tipo de chance de sair do quarto novamente, não é de admirar que se sentisse infeliz.

“Era muito mais agradável em casa” — pensou a pobre Alice, “quando não se vivia sempre crescendo ou encolhendo… nem recebendo ordens de ratos e coelhos. Estou quase desejando não ter descido por aquela toca de coelho… mas ainda assim… ainda assim… é bastante curioso, sabe, esse tipo de vida! Eu bem que penso o que pode ter acontecido comigo! Quando eu lia contos de fadas, imaginava que aquelas coisas todas nunca aconteciam… e agora aqui estou eu no meio de um desses contos! Deveria haver um livro escrito sobre mim, ah, se deveria! E quando eu crescer, escreverei um… mas já estou crescida agora” — acrescentou em tom pesaroso. “Ao menos não há espaço para crescer nem mais um pouquinho aqui.”

“Mas então” — pensou Alice, “eu nunca vou ficar mais velha do que estou agora? Isso vai ser um consolo, de certa forma… nunca ser uma mulher velha… mas então… ter sempre lições para estudar! Oh, eu não gostaria disso!”

“Ah, Alice, sua boba!” — respondeu para si mesma. “Como você poderia estudar aqui? Oras, mal tem lugar para você, imagine para os livros!”

E assim ela continuou, falando e em seguida se respondendo. Era uma conversa e tanto! Mas passados alguns minutos, ouviu uma voz do lado de fora e parou para ouvir.

— Amélia! Amélia! — disse a voz. — Traga-me minhas luvas agora mesmo!

E então ouviu-se o som de passinhos rápidos na escada. Alice sabia que era o Coelho vindo procurá-la e tremeu tanto que chacoalhou a casa, esquecendo-se totalmente de que estava agora umas mil vezes maior do que o Coelho e que por isso não tinha motivo para temê-lo.

Não tardou e o Coelho chegou até a porta e tentou abri-la. Mas como era uma porta que abria para dentro e o cotovelo da Alice estava fortemente espremido contra ela, a tentativa não foi bem-sucedida. Alice o ouviu dizer para si mesmo: “Então vou dar a volta e entrar pela janela.”

“Não vai mesmo!” pensou Alice e, depois de esperar até o momento em que acreditou ter ouvido o Coelho bem embaixo da janela, abriu a mão de repente e tentou apanhá-lo, com um movimento cego no ar. Ela não pegou nada, mas ouviu um gritinho agudo e alguma coisa caindo, seguido do barulho de vidro se quebrando, de onde concluiu que era bastante provável que o Coelho tivesse caído em uma estufa de pepinos, ou coisa do tipo.

Em seguida ouviu-se uma voz zangada (a do Coelho):

— Pat! Pat! Onde você está?

E então veio uma voz que Alice nunca tinha ouvido:

— Claro, tô aqui! Tô aqui! Procurando maçãs, S’Excelência!

— Procurando maçãs, pelo amor! — disse o Coelho, com raiva. — Venha cá! Venha me ajudar a sair daqui! (Sons de mais vidro quebrado.)

— Agora me diga, Pat, o que é aquilo na janela?

— Claro, é um braço, S’Excelência! (Ele pronunciava “umbrás”.)

— Um braço, seu besta! Onde é que já se viu um daquele tamanho? Olha lá, ocupa a janela toda!

— Claro, ocupa, S’Excelência, mas é um braço mesm’assim.

— Bom, não tem nada que estar fazendo ali, de qualquer forma. Vá e tire-o de lá!

Houve um longo silêncio depois disso, e Alice podia ouvir apenas sussurros de vez em quando; coisas como “Claro, não gosto disso, S’Excelência, não gosto nadinha, nadinha!” “Faça o que estou falando, seu covarde!”, e por fim a menina abriu a mão de novo e lançou ao ar mais um movimento de apanhar. Desta vez houve dois gritinhos, e mais sons de vidro quebrado. “Quantas estufas de pepino devem ter por aqui!” — pensou Alice. “Imagino o que vão fazer agora! Quanto a me puxar pela janela, eu bem que gostaria que pudessem! Estou bem certa de que eu não quero ficar aqui dentro mais nem um pouco!”

Esperou algum tempo sem ouvir mais nada: finalmente ouviu-se um ruído de rodinhas de carrinhos de mão e o som de um bom número de vozes falando juntas. Conseguiu distinguir as palavras: “Onde está a outra escada? — Ora, eu tinha que trazer só uma. O Pedro está com a outra — Pedro! Traga ela aqui, rapaz! — Aqui, bote de pé nesse canto — Não, amarre uma na outra antes… elas ainda não chegam nem na metade da altura — Ah, vai dar certo sim. Não seja rabugento — Aqui, Pedro! Segure esta corda — O telhado vai aguentar? — Cuidado com aquela telha solta — Ai, está caindo! Abaixem a cabeça!” (estrondo) —“E então, quem fez isso? — Foi o Pedro, imagino — Quem é que vai descer pela chaminé?— Eu que não! Vai você! — Se é assim eu também não vou! — O Pedro que tem que descer — Vem cá, Pedro! O patrão tá dizendo que você tem que descer pela chaminé!”

“Ah! Então o Pedro tem que descer pela chaminé, é?” disse Alice para si mesma. “Nossa, parece que eles jogam tudo pra cima do Pedro! Definitivamente não queria estar no lugar dele por nada: a lareira é estreita, sem dúvidas; mas acho que consigo dar uns belos chutes!”

Enfiou o pé dentro da chaminé o máximo que pôde e esperou até ouvir um animalzinho (ela não conseguiu adivinhar de que tipo era) arranhando os tijolos e se arrastando logo acima; e então, dizendo para si mesma “é o Pedro”, acertou um chute em cheio e esperou para ver o que aconteceria em seguida.

A primeira coisa que ouviu foi um coro geral de “Lá vai o Pedro!”, seguido da voz do Coelho sozinha — “Peguem-no, vocês aí perto da sebe!” então silêncio, e em seguida outra confusão de vozes — “Ergam a cabeça dele — Agora deem conhaque — Não afogue ele — Como foi, meu bom? Que aconteceu com você? Conte-nos tudo!”

Por fim veio uma vozinha fraca e aguda (“Esse é o Pedro”, pensou Alice):

— Bom, eu mal sei… Já tá bom, obrigado; já tô me sentindo melhor… mas tô muito perturbado pra conseguir contar… tudo que sei é que tava lá, daí alguma coisa vem e me bate por baixo e me joga pra cima que nem se eu fosse um foguete!

— Que nem um foguete mesmo, meu bom! — disseram os outros.

— Devemos queimar a casa! — disse a voz do Coelho. A que Alice respondeu, o mais alto que pôde:

— Se fizerem isso, vou mandar Dinah pegar vocês!

Houve um silêncio mortal instantaneamente, e Alice pensou consigo: “Imagino o que vão fazer agora! Se tivessem algum juízo, arrancariam o teto.” Depois de um minuto ou dois, começaram novamente a se agitar e Alice ouviu o Coelho dizer:

— Um carrinho cheio é o bastante, para começar.

“Um carrinho cheio de quê?” pensou Alice. Mas ela não teve muito tempo para ficar em dúvida, pois no momento seguinte uma chuva de pedrinhas estava batendo ruidosamente na janela e algumas pedrinhas a atingiram no rosto. “Vou colocar um fim nisso” — disse para si mesma, e gritou: “É melhor que não façam isso de novo!”, o que produziu outro silêncio mortal.

Alice percebeu, com alguma surpresa, que as pedrinhas todas estavam se transformando em bolinhos conforme chegavam ao chão, e uma ideia brilhante veio à sua cabeça. “Se eu comer um desses bolinhos” — ela pensou, “com certeza vai acontecer alguma mudança no meu tamanho; e, como possivelmente não tem como fazer eu ficar maior, devo encolher, suponho.”

Então engoliu um dos bolinhos e ficou encantada em descobrir que estava encolhendo no mesmo instante. Assim que estava pequena o bastante para passar pela porta, correu para fora da casa e lá encontrou uma multidão consideravelmente grande de animaizinhos e aves esperando. O pobre lagartinho, Pedro, estava no meio, sendo sustentado por dois porquinhos-da-índia, que estavam lhe dando algo de uma garrafa. Todos eles dispararam em direção a Alice no momento em que a menina apareceu; mas ela saiu correndo o mais rápido que pôde e não demorou até que se encontrasse segura em um bosque fechado.

“A primeira coisa que tenho que fazer” — disse Alice para si mesma enquanto perambulava pelo bosque — “é voltar ao meu tamanho certo de novo; e a segunda coisa é conseguir entrar naquele jardim adorável. Acho que esse é o melhor plano.”

Soou como um plano excelente, sem dúvidas, e pensado de forma bem hábil e simples: a única dificuldade era que ela não tinha a menor ideia de como colocá-lo em prática; e, enquanto vasculhava ansiosamente por entre as árvores, um latidinho agudo bem acima de sua cabeça a fez olhar correndo para cima.

Um enorme filhotinho de cachorro a fitava com olhos grandes e redondos e esticava debilmente uma pata em sua direção, tentando tocá-la. “Coitadinho!” disse Alice em um tom carinhoso e tentou ao máximo assobiar para ele; mas estava terrivelmente assustada todo o tempo com o pensamento de que ele pudesse estar com fome, e nesse caso seria bastante provável que a comesse apesar de todos os agrados.

Mal sabendo o que fazia, pegou um graveto e o estendeu para o filhotinho. Em seguida o cachorrinho pulou no ar usando todas as patas de uma vez, com um ganido de prazer, e disparou em direção ao objeto parecendo que ia atacá-lo. Alice esquivou-se para trás de um grande cardo a fim de evitar ser pisoteada, e, no momento em que a menina apareceu do outro lado, o filhote disparou novamente para cima do graveto e caiu desajeitadamente na pressa de pegá-lo. Então Alice, pensando que isso parecia muito com brincar com um cavalo, e esperando a cada momento ser pisoteada, deu a volta no cardo novamente. Em seguida o cachorrinho começou uma série de pequenas investidas ao graveto, fazendo corridinhas bem curtas para frente a cada vez e recuos rápidos e longos, latindo roucamente o tempo todo, até que por fim sentou-se bem longe, ofegando, com a língua para fora e os olhões metade fechados.

Isso pareceu a Alice uma boa oportunidade para escapar; assim, partiu imediatamente e correu até se sentir bastante cansada e sem fôlego, e até o latido do cachorrinho soar bem fraco na distância.

“Ainda assim, como era um cachorrinho fofinho!” — disse Alice enquanto se encostava em um botão-de-ouro para descansar e se abanava com uma das folhas. “Eu na certa teria gostado muito de ter ensinado truques para ele se… se eu ao menos estivesse no tamanho certo pra fazer isso! Ai, nossa! Tinha quase me esquecido de que tenho que crescer de novo! Deixe-me ver… como é que isso deve funcionar? Acredito que eu tenha que comer ou beber alguma coisa; mas a grande pergunta é: o quê?”

A grande pergunta certamente era “o quê?”. Alice olhou a sua volta para todas as flores e por toda a grama, mas não viu nada que parecesse a coisa certa para se comer ou beber naquelas circunstâncias. Havia um enorme cogumelo crescendo perto da menina, quase que da mesma altura que ela; e depois de ter olhado embaixo, nos dois lados e atrás dele, lhe ocorreu que deveria também olhar e ver o que tinha em cima.

Esticou-se até ficar na ponta dos pés, espiou por cima da borda do cogumelo e seu olhar se encontrou imediatamente com o de uma grande lagarta azul, que estava sentada no topo com os braços cruzados, fumando em silêncio um comprido narguilé sem dar a menor atenção à menina ou a qualquer outra coisa.

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Tradução inglês-português:

O Coelho envia Pedro e pedras

Texto em inglês para cotejo:

The Rabbit Sends in a Little Bill

Link para download:

http://www.4shared.com/document/mCp_s414/Prface_de_Jean_Gattgno.html

Agradecimentos a Teresa de Almeida Arco e Flexa pelo material.

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