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Archive for the ‘Psicologia’ Category

Artigo muito interessante publicado na revista Mundo Estranho número 123, de abril de 2012. As reflexões apresentadas são bem relevantes e desenvolvem interpretações psicológicas para alguns dos fatos narrados nos livros.

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É com grande satisfação, contentamento e orgulho que compartilho com vocês, leitores, mais uma monografia minha sobre as Alices, dessa vez abordando questões concernentes à área de educação – a outra monografia, sobre as Alices e tradução literária, também já foi postada aqui no blogue. Sem mais, espero que gostem:

RESUMO

O presente estudo visa analisar literariamente alguns dos símbolos existentes nos livros Alice no País das Maravilhas (1865) e Alice Através do Espelho (1871), escritos por Lewis Carroll (1832-1898), a fim de propor como se trabalhar as obras supracitadas com fins didáticos, focando especificamente na docência de aulas de Língua Portuguesa para alunos da 8ª série (9º ano) do Ensino Fundamental.
Ao longo deste trabalho, será abordado como se deram o surgimento das atividades de escrita e de leitura e seu ensino em diferentes épocas; tratar-se-á o que os principais documentos brasileiros sobre educação defendem quanto ao ensino de Língua Portuguesa nas escolas; serão expostas algumas informações sobre o contexto histórico da escritura das narrativas carrollianas; dados sobre a vida de Lewis Carroll e sobre sua psicologia estarão evidenciados; os dois livros em questão terão algumas de suas partes-chave analisadas a fim de que se possa ter uma ideia do quão plurissignificativos são e para que o docente aqui encontre uma espécie de miniguia de leitura das histórias; e, por fim, será apresentada a proposta didática, que objetiva a introdução dos alunos aos estudos literários de maneira que lhes sejam estimulados o gosto e o prazer pela leitura.

Palavras-chave: Educação, docência, Alice no País das Maravilhas, Alice Através do Espelho, Lewis Carroll, literatura, era vitoriana.

Link: GONCALVES, Higor. Entrando na toca do Coelho

Arte por Su Blackwell

Arte por Su Blackwell

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Conforme exposto na seção “Leia-me” aqui do blogue, eu vinha já há algum tempo estudando as Alices, lendo sobre a vida do Lewis Carroll e pesquisando o contexto da Era Vitoriana a fim de elaborar uma monografia que relacionasse esses assuntos à área de tradução. À medida que os textos por mim preparados iam ficando prontos, eu os postava aqui para vocês, leitores, que sempre me motivaram a seguir em frente. Portanto, antes de mais nada gostaria de expressar aqui neste espaço meus sinceros agradecimentos a todos que vêm acompanhando o The Bloggerwocky e tecendo comentários sobre o site no Facebook, Orkut, Twitter ou aqui mesmo no blogue.

Agradecimentos feitos, é hora de irmos direto ao ponto principal deste post: no fim do ano passado concluí e defendi minha monografia, a qual foi muito elogiada e, para minha grande alegria, recebeu nota máxima por parte da banca examinadora. É então com muita satisfação que venho compartilhar esse trabalho com vocês. Espero que gostem e comentem:

RESUMO

Traduzir literatura é uma tarefa árdua, principalmente no caso de textos altamente polissêmicos. Nesse sentido, o presente trabalho tem como objetivo explicitar algumas das dificuldades e problemas com que se depara um tradutor literário frente aos desafios de uma obra altamente artística. Para tanto foram escolhidos os livros Alice no País das Maravilhas (1865) e Alice Através do Espelho (1871), escritos por Lewis Carroll (1832-1898): duas histórias das mais conhecidas e traduzidas no mundo, que por serem carregadas de referências à era vitoriana, jogos sonoros e poemas, trazem sempre dificuldades quando de sua transposição para outras línguas.
Ao longo deste trabalho, esses dois livros terão algumas de suas partes-chave analisadas a fim de que se possa ter uma ideia do quão plurissignificativos são, serão apresentadas algumas informações sobre o contexto histórico da escritura das narrativas, dados sobre a vida do autor e sobre sua psicologia estarão evidenciados e por fim encontrar-se-á uma sugestão de tradução para o capítulo 4 do Alice no País das Maravilhas, seguida de comentários feitos a partir do ponto de vista tradutório, de forma a ilustrar como toda a teorização e estudo da obra funcionam na prática.

Palavras-chave: Tradução literária, Alice no País das Maravilhas, Alice Através do Espelho, Lewis Carroll, literatura, era vitoriana.

Link: GONÇALVES, Higor B. Um sonho lúcido…

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Durante o século XIX, os contos de fadas foram fortemente criticados por não ensinarem nada específico e por não conterem valores cristãos, sendo malvista a própria presença do elemento fantástico nas histórias. Acreditava-se que os livros infantis deveriam ter conteúdo educacional, e assim, em 1840, os contos clássicos passam a ser reformulados e refinados de acordo com a nova postura moralizante. Nas décadas de 1840 e 1850, além da reescrita, muitos contos de fadas novos são criados, entretanto tratam-se de histórias fracas e sem originalidade.

E é nesse contexto que, em 1865, o livro Alice no País das Maravilhas é lançado, seguido seis anos depois pelo Alice Através do Espelho. Contudo, diferentemente das outras várias histórias infantis escritas à época, a devoção, o moralismo e o cunho didático não se fazem presentes nas obras de Carroll. Ainda assim, as Alices foram muito bem recebidas pela crítica e pelo público, sobreviveram ao tempo e suas aventuras são hoje das mais traduzidas e lidas no mundo. Por quê?

Para alguns, especialmente para as crianças, o que encanta nas aventuras de Alice é o fantástico (as mudanças de tamanho, os animais que falam, os acontecimentos imprevisíveis…), e para outros, é a lógica usada por Carroll para desenvolver as idéias, incluindo aí a habilidade do autor na escolha das palavras para criar, dentre outros, piadas, ironias e sensações diversas. Mas talvez o que mais faz com que os leitores se identifiquem é a forma como o nonsense é colocado em oposição à rotina diária e enfadonha da escola.

Seja no País das Maravilhas ou no mundo do outro lado do espelho, Alice é constantemente lembrada de coisas que aprendeu, mas sempre de maneira distorcida, o que faz com que tais coisas fiquem sem sentido. Por exemplo, os versos moralizantes que as crianças tinham que decorar nas escolas são ironizados na forma de paródias; fatos históricos sobre os anglo-saxões são repetidos pelo Rato como as coisas mais “secas” que ele conhece; a personagem Duquesa, que tem o hábito de encontrar uma moral irrelevante e absurda em tudo, é um escárnio contra se querer moralizar todas as histórias infantis; as matérias que a Tartaruga Falsa diz ter estudado na escola são uma crítica clara ao sistema de ensino; o final do Através do Espelho, em que Alice sacode a Rainha Vermelha, a essência concentrada de toda governanta (ela gosta de dar a todo momento instruções rápidas de etiqueta), também é bastante sugestivo; dentre outras muitas passagens satíricas.

Assim, pode-se ver como os dois livros de Alice vêm numa direção contrária às tendências moralizantes da época. Tratando tudo com bom humor e nonsense, Carroll reduz as dificuldades do dia-a-dia infantil de algo assustador para uma realidade tolerável. Ainda que Alice seja questionada e maltratada por outros personagens, o controle final é dela, e com isso o leitor se identifica e percebe que não é apenas um sujeito passivo dentro do mundo em que vive.

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Os livros Alice no País das Maravilhas (1865) e Alice Através do Espelho (1871) são, desde o século XIX, quando foram escritos, não apenas clássicos da literatura inglesa, mas clássicos da literatura universal. Há gerações eles encantam crianças, jovens e adultos, e assim Alice sai do simples domínio do papel impresso para povoar o imaginário de todos que passam a conhecer suas aventuras, tornando-se a personagem um arquétipo do feminismo e da pureza, da sagacidade, da curiosidade e do espírito aventureiro infantis. Isso acontece de uma forma tal que atualmente grande número de releituras (muito variadas entre si) da personagem e das situações narradas nos livros aparecem em qualquer parte do mundo sob a forma de ilustrações, filmes, jogos, músicas, animações ou mesmo inseridas em outros livros, não necessariamente literários.

Lewis Carroll

Lewis Carroll

Todo esse sucesso decorre da originalidade e da destreza com que o autor, Lewis Carroll, pseudônimo de Charles Lutwidge Dodgson, consegue criar histórias polissêmicas e de consequente valor literário. Alice no País das Maravilhas e Alice Através do Espelho são independentes entre si, porém podem ser vistas como complementares por compartilharem muitos elementos e terem mais ou menos a mesma essência.

Convém salientar que a personagem Alice foi inspirada em uma menininha real, chamada Alice Pleasance Liddell[1]. Diferentemente do que as pessoas influenciadas pela famosa animação de Walt Disney[2] e pelas ilustrações de Tenniel possam imaginar, a Alice de carne e osso, filha do deão do Christ Church, tinha cabelo escuro. Foi para ela que Carroll criou o Alice no País das Maravilhas. É interessante ressaltar que ainda que Dodgson gostasse muito da menina e tenha tentado homenageá-la, o próprio nome “Alice” nas histórias não deve ser interpretado como um mero acaso: derivado do grego “Alétheia” (“ἀλήθεια”), ele significa “Verdade”, reforçando a interpretação mais ampla dos livros carrollianos para além dos fatos narrados e abrindo todo um escopo de possibilidade de entendimento dos diversos enigmas que abundam nas duas obras.

A ideia para o primeiro livro, aliás, surgiu durante um passeio de barco a 4 de julho de 1962, em que Alice e suas irmãs pediram para Dodgson, um amigo da família, lhes contar uma história. Ele então inventou um embrião oral da narrativa, o qual por sua vez transformou-se no Alice’s Adventures under Ground, um livro redigido à mão (e já com ilustrações, feitas pelo próprio Dodgson) que o autor deu à menina como presente de Natal. Algum tempo depois o escritor decide publicar a história, mexe consideravelmente no texto e entra em contato com um ilustrador profissional famoso da época, chamado John Tenniel, para fazer as ilustrações. Essa publicação é o Alice no País das Maravilhas tal como o conhecemos, e a primeira edição foi bancada pelo próprio Dodgson. Ele sempre se preocupou com qualidade, por isso cuidava para que o acabamento das edições fosse o melhor possível. O sucesso foi enorme já no lançamento, sendo o livro mais vendido, e de lá para cá nunca mais deixou de ser reeditado.

Dodgson é uma figura bastante enigmática. Da mesma forma como assinava seus trabalhos literários com um pseudônimo, há críticas que defendem que sua própria personalidade também era dupla: de um lado haveria o lado fortemente racional do Dodgson real, um matemático, professor, religioso, homem apegado à normalidade da época e autor de livros sobre lógica e matemática; e em oposição, haveria um lado sonhador, o lado Carroll, aquele do mundo interior que se abre ao fantástico e que se manifestava nos trabalhos literários.

Também, até hoje se discute se ele era ou não pedófilo, já que só gostava de ficar na companhia de menininhas e não se sentia muito confortável com garotos ou adultos. Eram muitas as suas amiguinhas, e ele gostava de lhes escrever cartas peculiares, com desenhos ao invés de palavras. Várias dessas cartas foram preservadas até hoje, com exceção daquelas escritas para Alice, as quais desapareceram todas. Se essa atração por garotas era de cunho sexual ou não só temos como especular, pois não há fatos concretos que provem o que quer que seja. Ainda quanto a essa polêmica, é curioso notar que Dodgson mantinha um diário, mas as páginas que podiam ter alguma informação sobre sua relação com as meninas, bem como as páginas que em teoria continham o motivo de os laços com a família da Alice terem sido cortados, foram misteriosamente arrancadas após sua morte, talvez por algum membro de sua família. E isso levanta algumas suspeitas, pois o que é que poderia haver ali para que fossem arrancadas? Será que era algo comprometedor? Que fim teriam levado as cartas escritas para Alice e o que haveria nelas?

Dodgson tinha afeição pela lógica, por escrever e por meninas, e tinha como hobby a fotografia (à época uma novidade). Gostava de fotografar suas amiguinhas, fazendo por vezes até nus, mas tudo sempre com o consentimento das famílias e das próprias meninas. Esses nus, vale frisar, não têm nada de erótico, são apenas ensaios artísticos. E aí destaca-se outro traço importante da personalidade de Carroll: ele sempre foi muito nostálgico e inclusive escreveu poemas dizendo que gostaria de voltar a ser criança e que trocaria tudo por ser jovem de novo. E o que é que há de mais nostálgico do que a própria arte da fotografia? Fotografar nada mais é do que “congelar” alguma coisa em um determinado espaço e tempo. Dessa maneira, Carroll poderia ter as amiguinhas para sempre imutáveis. Já que é impossível não crescer, ao menos a juventude e a inocência delas estariam para sempre preservadas nos retratos, reificadas, uma réplica vulgar da essência. Meninas presas porém ausentes.

Outra peculiaridade interessante é que Carroll tinha uma coleção de bonecas, que alguns dizem servir para “atrair” as meninas. Mas se isso for analisado com mais calma, pode-se perceber que, psicologicamente falando, talvez o que aconteça nesse caso seja o mesmo que acontece no da fotografia, isto é, uma maneira consciente ou não que o autor encontrou de amenizar a nostalgia que havia dentro de si. Basta parar para pensar na semelhança entre bonecas e a imagem feminina (analogia que aliás é feita desde a antiguidade). Dodgson talvez tivesse o sonho de possuir uma menininha que nunca envelhecesse. A dedicação em escrever histórias nonsense para crianças, aliás, talvez tivesse como fim estabelecer um contato com o mundo infantil, que ele tanto admirava.

Com o tempo, a nostalgia de Carroll cresce e isso se reflete nas suas obras literárias. Por exemplo, ao compararmos o Alice no País das Maravilhas com o Alice Através do Espelho, notaremos que no segundo, escrito seis anos mais tarde, Alice sofre um tipo de crueldade sutil que diverge do tom do primeiro livro e que a personagem também passa por acontecimentos melancólicos impensáveis no contexto de sua primeira aventura, como por exemplo no capítulo cinco:

Assim deixou-se o barco seguir pelo ribeirão ao seu bel-prazer, até que deslizou suavemente para o meio dos juncos oscilantes. Então as manguinhas foram cuidadosamente arregaçadas, e os bracinhos mergulhados até os cotovelos para pegar os juncos bem mais abaixo antes de quebrá-los… e por algum tempo a Ovelha e seu tricô sumiram da cabeça de Alice, enquanto ela se debruçava sobre a borda do barco, só as pontas dos cabelos emaranhados mergulhando na água… e, com olhos faiscantes e sôfregos, apanhava feixe após feixe dos encantadores juncos perfumados.

“Espero que o barco não vire!” disse para si mesma. “Oh, que lindo é aquele. Só que não consegui alcançá-lo.” E certamente parecia um pouco enervante (“quase como se fosse de propósito”, ela pensou) que, embora conseguisse colher quantidades de lindos juncos à medida que o bote deslizava, houvesse sempre um mais lindo que não podia alcançar.

“Os mais bonitos estão sempre mais longe!” disse por fim, com um suspiro ante a teimosia dos juncos em crescerem tão afastados, enquanto, faces afogueadas e cabelo e mãos pingando, tentava voltar a seu lugar e começava a arrumar seus recém-descobertos tesouros.

Que lhe importava naquele momento que os juncos tivessem começado a murchar e a perder seu perfume e beleza, desde o momento em que os colhera? Até juncos perfumados reais, como você sabe, duram só por pouco tempo… e esses, sendo juncos de sonho, derretiam quase como neve enquanto repousavam em feixes aos pés dela… mas Alice mal percebeu isso, tantas outras coisas curiosas tinha para pensar. (CARROLL, 2002, p.58)

Seriam os juncos uma metáfora para a efemeridade da beleza das crianças de que Carroll gostava, ou mais além, para a fugacidade de todo tipo de beleza?

A vida de Dodgson sempre foi envolta em muito mistério. Foram vários os biógrafos e comentadores de suas obras que se propuseram a tentar desvendar os inúmeros enigmas e lacunas que envolvem criador e obras. De uma forma ou de outra, é disso que é feita a boa literatura: de releituras sempre novas e atualizadas e de, por vezes, dados biográficos que instigam a curiosidade das mentes curiosas.

 


[1] É interessante atentar na simetria existente entre os nomes “Alice Liddell” e “Lewis Carroll”. O número de letras é o mesmo e a relação consoante-vogal também chama a atenção: no primeiro nome, onde em um há consoante, no outro há vogal; e no sobrenome, a posição das consoantes e das vogais é a mesma.

[2] Essa versão de Walt Disney é na verdade uma mistura das histórias dos dois livros, apesar de levar o título “Alice no País das Maravilhas”.

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Capa

Material encontrado no blogue da Sociedade Lewis Carroll do Brasil (clique nas imagens para ampliá-las).

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O Gato de Cheshire

"O Gato de Cheshire", pintura de Carol Burgo

Alice encontra ao longo de sua jornada pelo País das Maravilhas uma série de animais antropomórficos, os quais assumem um comportamento ambivalente: como salienta Empson[1], quando a garota está pequena esses seres se mostram amistosos, ainda que infantilmente francos, e quando Alice está grande (sugerindo adulta) eles são sempre contrários a ela e/ou contestados por ela. O modo como tais animais pensam e agem e o tom professoral em que conversam e dão ordens visam esconder a sua infantilidade intrínseca, criando no leitor uma falsa impressão de que eles são os adultos enquanto Alice é a criança ingênua.

Contudo, entre esses animais há um que assume um etos diferenciado e proeminente, e será o único personagem com quem Alice criará um vínculo mais profundo, a saber, o Gato de Cheshire[2]. Apesar de ter “garras muito longas e um número enorme de dentes”[3], Alice sente-se bastante à vontade na presença do Gato, chegando inclusive a chamá-lo de amigo[4]:

“Com quem está falando?” indagou o Rei, aproximando-se de Alice e olhando para a cabeça do Gato com muita curiosidade.

“É um amigo meu… um Gato de Cheshire”, disse Alice. “Permita-me que lhe apresente.”[5]

Mas por que é justamente com ele que Alice mais se identifica? E por que ele é tão ponderado? Por que ele aparece e desaparece? Por que Cheshire? Por que ele está sempre rindo? Por que o sorriso dele é tão sugestivo? Por quê?

Alice and Cheshire Cat

"Alice and Cheshire Cat", desenho de *mashi

O País das Maravilhas é um sonho, o que fica claro no último capítulo. É possível então entender cada um dos personagens nonsense como manifestações inconscientes tanto de características da personalidade de Alice como de elementos com que ela convive na sociedade vitoriana e que influenciam seu Eu. Assim, o Gato de Cheshire poderia muito bem ser uma representação onírica da gata Dinah, o que já explica em partes a aproximação dos dois. Também, o Gato parece ser a única figura além da própria Alice a englobar os outros personagens, sendo uma espécie de alter ego mais sábio da protagonista; mais sábio justamente por ele ser ciente de sua própria loucura, peculiaridade importante que o diferencia de todos na história. E ao dizer a Alice que ela está no País das Maravilhas por ser louca, o Gato talvez esteja respondendo também à pergunta “Quem sou eu?”[6], central na obra, ainda que a garota não possa aceitar ser insana e permaneça num silêncio sugestivo quanto a isso.

O Gato parece partilhar do mesmo tipo de inteligência e do mesmo espírito independente que Alice, além de estar em perfeito equilíbrio com as fúrias interior (inerente a ele) e exterior (imposta pelo meio). Tanto gato como criança podem alhear-se do mundo e encontrar abrigo em um microcosmo interno e particular, o que é simbolizado de um lado pela habilidade de aparecer e desaparecer e do outro lado pelo próprio País das Maravilhas, que nada mais é do que a psique de Alice. Empson analisa o tópico da seguinte maneira:

O célebre gato é um símbolo imediato desse ideal de distanciamento intelectual; todos os gatos são distanciados, e desde que este sorri, é um observador divertido. Pode desaparecer, porque pode alhear-se do seu meio e refugiar-se num mundo interior mais interessante; aparece somente como cabeça, porque é quase uma inteligência desencarnada, e apenas como um sorriso, porque é capaz de impor uma atmosfera sem estar presente. (…) é indecapitável, porque sua alma não pode ser assassinada (…)[7]

Ademais, conforme aponta Martin Gardner, a expressão idiomática inglesa “sorrir como um gato de Cheshire” [“grin like a Cheshire cat”], usada para designar alguém que mostra os dentes e a gengiva quando ri, era corrente no tempo de Carroll. Segundo o comentarista, há duas principais hipóteses sobre sua origem: uma delas diz respeito ao fato de os queijos de Cheshire (o condado onde Carroll nasceu) serem moldados, à época, na forma de gatos sorrindo, criando assim uma fantasia de que o gato de queijo poderia comer o rato que iria comer o queijo; a outra hipótese advém da pintura malfeita das tabuletas de hospedarias de Cheshire, em que os leões rugindo mais pareciam gatos sorridentes (o leão é o animal símbolo da Inglaterra). Tendo em mente a primeira hipótese, encontramos mais uma explicação para a habilidade do Gato de desaparecer: era costume começar a comer o tal queijo zoomórfico pelo rabo até se chegar à cabeça, assim como acontece com o personagem de Carroll, que ora materializa-se apenas como uma cabeça sem corpo, e ora começa a desvanecer pelo rabo, deixando por último seu sorriso.

Convém ressaltar a semelhança desse “sorriso sem gato”, como Alice chama, com a Lua, o que também é sugestivo. De acordo com o dicionário de símbolos de Chevalier e Gheerbrant,

A Lua é um símbolo do conhecimento indireto, discursivo, progressivo, frio. A Lua, astro das noites, evoca metaforicamente a beleza e também a luz na imensidade tenebrosa. Mas, como essa luz não é mais que um reflexo da luz do Sol, a Lua é apenas o símbolo do conhecimento por reflexo, isto é, do conhecimento teórico, conceptual, racional; é nesse ponto que é ligada ao simbolismo da coruja.[8]

SorrisoIsso vai de encontro ao que foi dito sobre a inteligência do Gato, além de ter também um certo apelo carrolliano no que tange ao conhecimento racional, de que o personagem também demonstra ser dotado sobretudo quando responde a Alice (naquela célebre frase) que se ela não sabe aonde quer ir, qualquer caminho lhe servirá[9]. O verbete prossegue com uma análise vasta, da qual pode-se destacar o seguinte:

A Lua, cujo disco aparente é do mesmo tamanho do Sol, tem na astrologia um papel especialmente importante. Simboliza o princípio passivo, mas fecundo, a noite, a umidade, o subconsciente, a imaginação, o psiquismo, o sonho, a receptividade, a mulher e tudo que é instável, transitório e influenciável, por analogia com seu papel de refletor da luz solar.[10]

Oras, isso resume o que foi dito até aqui. O excerto encaixa-se perfeitamente no que expôs-se sobre inteligência infantil, sonho e inconsciente, bem como também no que diz respeito à problemática do devir, onipresente nas Alices.

Não é à toa que o Gato de Cheshire é um dos personagens mais famosos dos livros, ficando atrás provavelmente apenas da própria Alice no quesito popularidade. Apesar de aparecer relativamente pouco, trata-se de uma figura que marca o leitor, consciente e inconscientemente, e cujo mistério encanta e atrai, assim como a Lua.


[1] EMPSON, William. Alice no País das maravilhas. A criança como zagal. Tradução de José Laurênio de Melo. In: LIMA, Luiz Costa (org). Teoria da literatura em suas fontes, vol. 2. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2002.

[2] Em português também conhecido como Gato que Ri, Gato Risonho ou Gato Listrado.

[3] CARROLL, Lewis. Alice – Edição Comentada. Notas de Martin Gardner. Tradução de Maria Luiza X. de A. Borges. 1. ed. São Paulo: Jorge Zahar Editor, 2002. p. 62.

[4] É curioso notar que em Alice Através do Espelho quem fará as vezes de amigo da Alice será o Cavaleiro Branco, personagem que, dentre outras possibilidades, pode ser lido como uma representação do próprio Carroll.

[5] CARROLL, Lewis. Alice – Edição Comentada. Notas de Martin Gardner. Tradução de Maria Luiza X. de A. Borges. 1. ed. São Paulo: Jorge Zahar Editor, 2002. p. 84.

[6] À guisa de comparação, Alice Através do Espelho gira menos em torno dessa questão da identidade, tendo como motivo central a pergunta “De quem é o sonho?”

[7] EMPSON, William. Alice no País das maravilhas. A criança como zagal. Tradução de José Laurênio de Melo. In: LIMA, Luiz Costa (org). Teoria da literatura em suas fontes, vol. 2. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2002. p. 603.

[8] CHEVALIER, Jean; GHEERBRANT, Alain. Dicionário de símbolos: (mitos, sonhos, costumes, gestos, formas, figuras, cores, números). 24. ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 2009. p. 562.

[9] Essa frase do Gato, talvez a mais citada dos livros, traz uma ideia de livre-arbítrio oposta àquela de predestinação contida no Alice Através do Espelho, em que a estrutura do jogo de xadrez remete a uma mão invisível que controla o fado dos personagens-peça.

[10] CHEVALIER, Jean; GHEERBRANT, Alain. Dicionário de símbolos: (mitos, sonhos, costumes, gestos, formas, figuras, cores, números). 24. ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 2009. p. 564.

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