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Archive for the ‘Lewis Carroll’ Category

É comum algum leitor aqui do blogue me procurar pedindo indicações de materiais bons e confiáveis para ajudar no estudo dos livros Alice no País das Maravilhas e Alice Através do Espelho, que, sabemos, podem ser um tanto herméticos para o leitor contemporâneo. Também, há aqueles outros leitores que chegam até mim buscando sugestões de textos sobre a polêmica e misteriosa biografia de Lewis Carroll. Seja por interesse acadêmico ou por pura realização pessoal, me parece que muitas pessoas têm interesse nesses tipos de materiais e, portanto, achei interessante dedicar um artigo ao assunto aqui no Bloggerwocky. Uma vez que algumas das recomendações abaixo são textos escritos originalmente em inglês, indicarei, sempre que existirem, as versões traduzidas para o português.

Primeiramente, o que é que há de mais essencial para que se possa começar a interpretar as Alices, que, vale lembrar, são textos literários? Se você, leitor, não souber muito bem o que é a linguagem literária e o que a faz especial e artística, o porquê de livros de autores como Machado de Assis, Clarice Lispector, Guimarães Rosa e Manuel Bandeira, dentre outros, serem considerados clássicos, a razão dos livros de alguns autores best-seller serem malvistos pela crítica e pela academia apesar de venderem bem, o que diferencia o tipo de linguagem empregada, por exemplo, em uma notícia do tipo de linguagem presente em contos, romances, crônicas e poesias, dentre outras coisas, recomendo, antes de mais nada, a leitura do livro A Linguagem Literária, do Domício Proença Filho. É um livro curto, barato, de linguagem acessível e que trata de temas bastante fundamentais, quase sempre esquecidos durante os ciclos do Ensino Fundamental e do Ensino Médio, porém importantíssimos para a percepção da linguagem literária enquanto fazer artístico que lança mão da palavra como matéria-prima. Em suma, é uma leitura que recomendo não só a quem queira estudar as Alices, mas a quem se interesse por começar a estudar literatura em geral.

Agora falemos sobre a bibliografia referente ao Alice no País das Maravilhas e ao Alice Através do Espelho, especificamente. Dentre os diversos materiais de estudo já publicados a respeito, há dois que considero como, digamos, os mais essenciais: o primeiro, e mais importante, é o livro Alice — Edição Comentada (traduzido por Maria Luiza X. de A. Borges e lançado no Brasil pela editora Jorge Zahar), que além das histórias propriamente ditas traz comentários de Martin Gardner; e o segundo é o estudo A criança como zagal, escrito por William Empson (traduzido por José Laurênio de Melo e presente no volume 2 do Teoria da literatura em suas fontes). Há outras edições comentadas, em inglês, mas a qualidade do estudo de Martin Gardner é incomparável. Considero livro obrigatório àqueles que pretendam realizar um estudo acadêmico ou mais aprofundado das obras. Já o texto de William Empson, por sua vez, apresenta leituras deliciosas e muito perspicazes para vários dos símbolos presentes nas Alices.

Há ainda outros livros e artigos que recomendo a quem queira se aprofundar ainda mais: Alice no País das Maravilhas e a Filosofia, organizado por William Irwin e Richard Brian Davis, e que, apesar de algumas vezes me passar a impressão de ser um bocado caça-níqueis, não deixa de apresentar reflexões interessantes, além de usar uma linguagem bem acessível; Rima e Solução: A Poesia Nonsense de Lewis Carroll e Edward Lear, de Myriam Ávila, um livro mais denso; Tradução e Adaptação: Encruzilhadas da textualidade em Alice no País das Maravilhas, de Lewis Carroll, e Kim, de Rudyard Kipling, de Lauro Maia Amorim, excelente para os que querem estudar a questão da tradução das Alices; o prefácio de Jean Gattégno para uma das traduções francesas de Alice, o qual contém algumas informações bastante básicas sobre o contexto de escritura das Alices (infelizmente não foi traduzido para o português); Alice in Wonderland — A Norton Critical Edition, publicado pela WW Norton, que além dos textos literários traz também uma série de notas e artigos ótimos sobre o autor, o contexto histórico e a interpretação das histórias (somente em inglês); e, finalmente, o subcapítulo sobre Lewis Carroll, parte do capítulo 3, do livro A Literatura Infantil, de Nelly Novaes Coelho.

Ora ou outra, nos livros e artigos supracitados, trata-se um pouco sobre a vida de Lewis Carroll e sobre a era Vitoriana enquanto trata-se, ao mesmo tempo, sobre o Alice no País das Maravilhas e o Alice Através do Espelho, afinal são livros profundamente ligados à biografia do autor e ao momento histórico em que surgiram. Contudo, obviamente há também livros que focam mais nos aspectos biográficos e históricos do que nos literários. Dentre esses, destacarei apenas um, devido a sua qualidade: Lewis Carroll — Uma Biografia, de Morton N. Cohen, a melhor biografia já publicada sobre o autor. É excelente, vale muito a pena ler. Por fim, há um último livro interessantíssimo para se estudar os traços psicológicos de Lewis Carroll, ainda que não passe nem perto de ser uma biografia. Falo do Cartas às suas amiguinhas, uma compilação de diversas das cartas enviadas pelo escritor às suas amigas, todas crianças, tratando de assuntos diversos. Uma pena só é que nenhuma carta enviada à Alice Liddell (a Alice real, que inspirou a de papel) tenha sobrevivido ao tempo. Curioso e estranho, não?

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Olá, caros leitores!

Faz tempo não posto nada, eu sei. Peço desculpas por ter sumido. Não é que eu tenha parado de estudar as Alices ou desistido do blogue, de forma alguma. A questão é que, por estar envolvido com outras atividades, me faltavam tempo e energia para escrever aqui. Contudo, durante essa pausa repentina de quase um ano, aconteceram algumas agradáveis surpresas que me deram novas forças.

Em primeiro lugar, fiquei lisonjeado em saber que os textos que tenho publicado aqui no Bloggerwocky estão sendo usados em aulas da graduação em Letras da Universidade Federal de Campina Grande e da pós lato sensu em Letras da Universidade Presbiteriana Mackenzie. Que honra! Obrigado às professoras Márcia e Célia. Também, tenho notado que apesar da ausência de posts novos o Bloggerwocky vem alcançando cada vez mais pessoas dos mais diversos lugares, o que é perceptível no número diário de visitas ao blogue e no número de curtidas que nossa página no Facebook continua recebendo. Mas mais do que uma questão de números e de abrangência, o que realmente importa é que percebo com isso tudo que mais leitores têm interagido comigo: mais pessoas têm me enviado recados, comentado em artigos aqui do blogue e apoiado o trabalho que venho desenvolvendo. Isso é muito importante para mim, pois me motiva enormemente. Por favor continuem, é bom eu sentir que estou sendo lido e que estou no caminho certo.

Aproveitando, acho importante frisar que o Bloggerwocky não tem nenhum tipo de fim comercial. Aqui, tenho apenas um compromisso com a cultura e com a disseminação dela. Digo isso pois percebi não há muito tempo que infelizmente o WordPress, onde este site está hospedado, gera propagandas sem a minha autorização e as insere aleatoriamente ao fim dos meus posts. Como não pago pela hospedagem, infelizmente não posso fazer nada a respeito, mas lhes asseguro de que não recebo nenhum centavo por essas propagandas.

Agora que o blogue vai voltar, aproveitei para procurar por links de imagens que estivessem porventura quebrados e os arrumar. Como alguma coisa vez ou outra nos escapa ou mesmo volta a quebrar devido ao tempo, por favor me avisem caso vocês encontrem algo com problemas.

Por fim, ainda não sei com que frequência atualizarei a página. Isso vai depender do tanto de interesse que eu perceber em vocês, leitores, por continuarmos com nossos estudos carrollianos.

Meu muito obrigado a todos que vêm acompanhando e apoiando o Bloggerwocky!

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É com grande satisfação, contentamento e orgulho que compartilho com vocês, leitores, mais uma monografia minha sobre as Alices, dessa vez abordando questões concernentes à área de educação – a outra monografia, sobre as Alices e tradução literária, também já foi postada aqui no blogue. Sem mais, espero que gostem:

RESUMO

O presente estudo visa analisar literariamente alguns dos símbolos existentes nos livros Alice no País das Maravilhas (1865) e Alice Através do Espelho (1871), escritos por Lewis Carroll (1832-1898), a fim de propor como se trabalhar as obras supracitadas com fins didáticos, focando especificamente na docência de aulas de Língua Portuguesa para alunos da 8ª série (9º ano) do Ensino Fundamental.
Ao longo deste trabalho, será abordado como se deram o surgimento das atividades de escrita e de leitura e seu ensino em diferentes épocas; tratar-se-á o que os principais documentos brasileiros sobre educação defendem quanto ao ensino de Língua Portuguesa nas escolas; serão expostas algumas informações sobre o contexto histórico da escritura das narrativas carrollianas; dados sobre a vida de Lewis Carroll e sobre sua psicologia estarão evidenciados; os dois livros em questão terão algumas de suas partes-chave analisadas a fim de que se possa ter uma ideia do quão plurissignificativos são e para que o docente aqui encontre uma espécie de miniguia de leitura das histórias; e, por fim, será apresentada a proposta didática, que objetiva a introdução dos alunos aos estudos literários de maneira que lhes sejam estimulados o gosto e o prazer pela leitura.

Palavras-chave: Educação, docência, Alice no País das Maravilhas, Alice Através do Espelho, Lewis Carroll, literatura, era vitoriana.

Link: GONCALVES, Higor. Entrando na toca do Coelho

Arte por Su Blackwell

Arte por Su Blackwell

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Conforme exposto na seção “Leia-me” aqui do blogue, eu vinha já há algum tempo estudando as Alices, lendo sobre a vida do Lewis Carroll e pesquisando o contexto da Era Vitoriana a fim de elaborar uma monografia que relacionasse esses assuntos à área de tradução. À medida que os textos por mim preparados iam ficando prontos, eu os postava aqui para vocês, leitores, que sempre me motivaram a seguir em frente. Portanto, antes de mais nada gostaria de expressar aqui neste espaço meus sinceros agradecimentos a todos que vêm acompanhando o The Bloggerwocky e tecendo comentários sobre o site no Facebook, Orkut, Twitter ou aqui mesmo no blogue.

Agradecimentos feitos, é hora de irmos direto ao ponto principal deste post: no fim do ano passado concluí e defendi minha monografia, a qual foi muito elogiada e, para minha grande alegria, recebeu nota máxima por parte da banca examinadora. É então com muita satisfação que venho compartilhar esse trabalho com vocês. Espero que gostem e comentem:

RESUMO

Traduzir literatura é uma tarefa árdua, principalmente no caso de textos altamente polissêmicos. Nesse sentido, o presente trabalho tem como objetivo explicitar algumas das dificuldades e problemas com que se depara um tradutor literário frente aos desafios de uma obra altamente artística. Para tanto foram escolhidos os livros Alice no País das Maravilhas (1865) e Alice Através do Espelho (1871), escritos por Lewis Carroll (1832-1898): duas histórias das mais conhecidas e traduzidas no mundo, que por serem carregadas de referências à era vitoriana, jogos sonoros e poemas, trazem sempre dificuldades quando de sua transposição para outras línguas.
Ao longo deste trabalho, esses dois livros terão algumas de suas partes-chave analisadas a fim de que se possa ter uma ideia do quão plurissignificativos são, serão apresentadas algumas informações sobre o contexto histórico da escritura das narrativas, dados sobre a vida do autor e sobre sua psicologia estarão evidenciados e por fim encontrar-se-á uma sugestão de tradução para o capítulo 4 do Alice no País das Maravilhas, seguida de comentários feitos a partir do ponto de vista tradutório, de forma a ilustrar como toda a teorização e estudo da obra funcionam na prática.

Palavras-chave: Tradução literária, Alice no País das Maravilhas, Alice Através do Espelho, Lewis Carroll, literatura, era vitoriana.

Link: GONÇALVES, Higor B. Um sonho lúcido…

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Os livros Alice no País das Maravilhas (1865) e Alice Através do Espelho (1871) são, desde o século XIX, quando foram escritos, não apenas clássicos da literatura inglesa, mas clássicos da literatura universal. Há gerações eles encantam crianças, jovens e adultos, e assim Alice sai do simples domínio do papel impresso para povoar o imaginário de todos que passam a conhecer suas aventuras, tornando-se a personagem um arquétipo do feminismo e da pureza, da sagacidade, da curiosidade e do espírito aventureiro infantis. Isso acontece de uma forma tal que atualmente grande número de releituras (muito variadas entre si) da personagem e das situações narradas nos livros aparecem em qualquer parte do mundo sob a forma de ilustrações, filmes, jogos, músicas, animações ou mesmo inseridas em outros livros, não necessariamente literários.

Lewis Carroll

Lewis Carroll

Todo esse sucesso decorre da originalidade e da destreza com que o autor, Lewis Carroll, pseudônimo de Charles Lutwidge Dodgson, consegue criar histórias polissêmicas e de consequente valor literário. Alice no País das Maravilhas e Alice Através do Espelho são independentes entre si, porém podem ser vistas como complementares por compartilharem muitos elementos e terem mais ou menos a mesma essência.

Convém salientar que a personagem Alice foi inspirada em uma menininha real, chamada Alice Pleasance Liddell[1]. Diferentemente do que as pessoas influenciadas pela famosa animação de Walt Disney[2] e pelas ilustrações de Tenniel possam imaginar, a Alice de carne e osso, filha do deão do Christ Church, tinha cabelo escuro. Foi para ela que Carroll criou o Alice no País das Maravilhas. É interessante ressaltar que ainda que Dodgson gostasse muito da menina e tenha tentado homenageá-la, o próprio nome “Alice” nas histórias não deve ser interpretado como um mero acaso: derivado do grego “Alétheia” (“ἀλήθεια”), ele significa “Verdade”, reforçando a interpretação mais ampla dos livros carrollianos para além dos fatos narrados e abrindo todo um escopo de possibilidade de entendimento dos diversos enigmas que abundam nas duas obras.

A ideia para o primeiro livro, aliás, surgiu durante um passeio de barco a 4 de julho de 1962, em que Alice e suas irmãs pediram para Dodgson, um amigo da família, lhes contar uma história. Ele então inventou um embrião oral da narrativa, o qual por sua vez transformou-se no Alice’s Adventures under Ground, um livro redigido à mão (e já com ilustrações, feitas pelo próprio Dodgson) que o autor deu à menina como presente de Natal. Algum tempo depois o escritor decide publicar a história, mexe consideravelmente no texto e entra em contato com um ilustrador profissional famoso da época, chamado John Tenniel, para fazer as ilustrações. Essa publicação é o Alice no País das Maravilhas tal como o conhecemos, e a primeira edição foi bancada pelo próprio Dodgson. Ele sempre se preocupou com qualidade, por isso cuidava para que o acabamento das edições fosse o melhor possível. O sucesso foi enorme já no lançamento, sendo o livro mais vendido, e de lá para cá nunca mais deixou de ser reeditado.

Dodgson é uma figura bastante enigmática. Da mesma forma como assinava seus trabalhos literários com um pseudônimo, há críticas que defendem que sua própria personalidade também era dupla: de um lado haveria o lado fortemente racional do Dodgson real, um matemático, professor, religioso, homem apegado à normalidade da época e autor de livros sobre lógica e matemática; e em oposição, haveria um lado sonhador, o lado Carroll, aquele do mundo interior que se abre ao fantástico e que se manifestava nos trabalhos literários.

Também, até hoje se discute se ele era ou não pedófilo, já que só gostava de ficar na companhia de menininhas e não se sentia muito confortável com garotos ou adultos. Eram muitas as suas amiguinhas, e ele gostava de lhes escrever cartas peculiares, com desenhos ao invés de palavras. Várias dessas cartas foram preservadas até hoje, com exceção daquelas escritas para Alice, as quais desapareceram todas. Se essa atração por garotas era de cunho sexual ou não só temos como especular, pois não há fatos concretos que provem o que quer que seja. Ainda quanto a essa polêmica, é curioso notar que Dodgson mantinha um diário, mas as páginas que podiam ter alguma informação sobre sua relação com as meninas, bem como as páginas que em teoria continham o motivo de os laços com a família da Alice terem sido cortados, foram misteriosamente arrancadas após sua morte, talvez por algum membro de sua família. E isso levanta algumas suspeitas, pois o que é que poderia haver ali para que fossem arrancadas? Será que era algo comprometedor? Que fim teriam levado as cartas escritas para Alice e o que haveria nelas?

Dodgson tinha afeição pela lógica, por escrever e por meninas, e tinha como hobby a fotografia (à época uma novidade). Gostava de fotografar suas amiguinhas, fazendo por vezes até nus, mas tudo sempre com o consentimento das famílias e das próprias meninas. Esses nus, vale frisar, não têm nada de erótico, são apenas ensaios artísticos. E aí destaca-se outro traço importante da personalidade de Carroll: ele sempre foi muito nostálgico e inclusive escreveu poemas dizendo que gostaria de voltar a ser criança e que trocaria tudo por ser jovem de novo. E o que é que há de mais nostálgico do que a própria arte da fotografia? Fotografar nada mais é do que “congelar” alguma coisa em um determinado espaço e tempo. Dessa maneira, Carroll poderia ter as amiguinhas para sempre imutáveis. Já que é impossível não crescer, ao menos a juventude e a inocência delas estariam para sempre preservadas nos retratos, reificadas, uma réplica vulgar da essência. Meninas presas porém ausentes.

Outra peculiaridade interessante é que Carroll tinha uma coleção de bonecas, que alguns dizem servir para “atrair” as meninas. Mas se isso for analisado com mais calma, pode-se perceber que, psicologicamente falando, talvez o que aconteça nesse caso seja o mesmo que acontece no da fotografia, isto é, uma maneira consciente ou não que o autor encontrou de amenizar a nostalgia que havia dentro de si. Basta parar para pensar na semelhança entre bonecas e a imagem feminina (analogia que aliás é feita desde a antiguidade). Dodgson talvez tivesse o sonho de possuir uma menininha que nunca envelhecesse. A dedicação em escrever histórias nonsense para crianças, aliás, talvez tivesse como fim estabelecer um contato com o mundo infantil, que ele tanto admirava.

Com o tempo, a nostalgia de Carroll cresce e isso se reflete nas suas obras literárias. Por exemplo, ao compararmos o Alice no País das Maravilhas com o Alice Através do Espelho, notaremos que no segundo, escrito seis anos mais tarde, Alice sofre um tipo de crueldade sutil que diverge do tom do primeiro livro e que a personagem também passa por acontecimentos melancólicos impensáveis no contexto de sua primeira aventura, como por exemplo no capítulo cinco:

Assim deixou-se o barco seguir pelo ribeirão ao seu bel-prazer, até que deslizou suavemente para o meio dos juncos oscilantes. Então as manguinhas foram cuidadosamente arregaçadas, e os bracinhos mergulhados até os cotovelos para pegar os juncos bem mais abaixo antes de quebrá-los… e por algum tempo a Ovelha e seu tricô sumiram da cabeça de Alice, enquanto ela se debruçava sobre a borda do barco, só as pontas dos cabelos emaranhados mergulhando na água… e, com olhos faiscantes e sôfregos, apanhava feixe após feixe dos encantadores juncos perfumados.

“Espero que o barco não vire!” disse para si mesma. “Oh, que lindo é aquele. Só que não consegui alcançá-lo.” E certamente parecia um pouco enervante (“quase como se fosse de propósito”, ela pensou) que, embora conseguisse colher quantidades de lindos juncos à medida que o bote deslizava, houvesse sempre um mais lindo que não podia alcançar.

“Os mais bonitos estão sempre mais longe!” disse por fim, com um suspiro ante a teimosia dos juncos em crescerem tão afastados, enquanto, faces afogueadas e cabelo e mãos pingando, tentava voltar a seu lugar e começava a arrumar seus recém-descobertos tesouros.

Que lhe importava naquele momento que os juncos tivessem começado a murchar e a perder seu perfume e beleza, desde o momento em que os colhera? Até juncos perfumados reais, como você sabe, duram só por pouco tempo… e esses, sendo juncos de sonho, derretiam quase como neve enquanto repousavam em feixes aos pés dela… mas Alice mal percebeu isso, tantas outras coisas curiosas tinha para pensar. (CARROLL, 2002, p.58)

Seriam os juncos uma metáfora para a efemeridade da beleza das crianças de que Carroll gostava, ou mais além, para a fugacidade de todo tipo de beleza?

A vida de Dodgson sempre foi envolta em muito mistério. Foram vários os biógrafos e comentadores de suas obras que se propuseram a tentar desvendar os inúmeros enigmas e lacunas que envolvem criador e obras. De uma forma ou de outra, é disso que é feita a boa literatura: de releituras sempre novas e atualizadas e de, por vezes, dados biográficos que instigam a curiosidade das mentes curiosas.

 


[1] É interessante atentar na simetria existente entre os nomes “Alice Liddell” e “Lewis Carroll”. O número de letras é o mesmo e a relação consoante-vogal também chama a atenção: no primeiro nome, onde em um há consoante, no outro há vogal; e no sobrenome, a posição das consoantes e das vogais é a mesma.

[2] Essa versão de Walt Disney é na verdade uma mistura das histórias dos dois livros, apesar de levar o título “Alice no País das Maravilhas”.

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Comentários das traduções

Abaixo serão comentadas apenas as passagens mais interessantes do ponto de vista tradutório, seja pelas dificuldades encontradas em sua tradução ou por apresentarem alguma diferença digna de nota quando comparadas as versões inglesa, de Lewis Carroll, a tradução francesa, de Jacques Papy, e as duas traduções para o português, feitas por mim. Vale ressaltar também que, consequentemente, o intuito não é focar a análise dos textos a partir do ponto de vista literário.

Texto em inglês

Tradução do inglês

Texto em francês

Tradução do francês

“The Rabbit Sends in a Little Bill” “O Coelho envia Pedro e pedras” “Le Lapin Envoie Pierre et Pierres” “O Coelho envia Pedro e pedras”

Já no título do capítulo o tradutor se depara com um belo desafio, que advém de quatro elementos essenciais da construção da frase: o sintagma “The Rabbit” na posição sintática de sujeito, um verbo transitivo direto na voz ativa, o sintagma “a Little Bill” como o objeto direto (sofrendo a ação) e a polissemia do signo duplo “Bill”, este último elemento responsável por transformar os três anteriores em um quebra-cabeça complicado.

“Bill”, no caso, pode ser tanto o pequeno lagarto que é chutado pela chaminé (exercendo tal palavra uma função de substantivo próprio) como também pode significar “conta”, “fatura” (exercendo desse modo um papel de substantivo comum). Trata-se de uma brincadeira com o fato de Alice ter se hospedado, ainda que sem querer, na casa do Coelho. No tocante aos outros elementos, é interessante notar que quem pratica a ação de enviar alguém (“to send someone in”) é o Coelho, figura influente no País das Maravilhas, como o sugerem o pronome de tratamento “yer honour” pelo qual é chamado mais adiante no capítulo e o cargo por ele ocupado no tribunal do Rei de Copas ao fim do livro; por sua vez, é o lagarto Bill, em posição de serviçal, quem terá de cumprir a ordem do Coelho e descer pela chaminé.

Jacques Papy resolve bem esses problemas, adaptando o nome Bill, cujo correspondente em português seria Guilherme e em francês, Guillaume, para Pierre (Pedro), brincando assim com a raiz comum existente entre “Pierre” (“Pedro”) e “pierre” (“pedra”) a fim de criar um jogo sonoro que ao mesmo tempo compense as perdas da tradução e possibilite manter a estrutura sintática da frase em inglês, com toda a significação já discutida que ela encerra. Tomou-se emprestada essa ótima solução do tradutor francês para a tradução apresentada do texto inglês.

Texto em inglês

Tradução do inglês

Texto em francês

Tradução do francês

“Where can I have dropped them, I wonder?” Onde é que posso ter deixado cair?” “Où diable ai-je bien pu les laisser tomber ?” “Onde raios pude tê-los deixado cair?”

Ao longo das Alices, Carroll emprega com muita frequência o efeito itálico a fim de enfatizar algumas palavras. Contudo, o tradutor francês, ao menos no capítulo tomado para análise (capítulo 4), elimina a maior parte desses destaques e busca imprimir as ênfases por intermédio de construções gramaticais ligeiramente diferentes das existentes no texto em inglês. Detenhamo-nos à passagem acima como forma de exemplificação de tais adaptações: ao empregar “où diable”, traduzido por “onde raios”, Pappy faz uso do determinante “diable” (eufemizado em português por tratar-se de um livro infantil) como tentativa de transmitir a mesma inflexão presente em “where can I”, esse último, por sua vez, traduzido como “onde é que”.

E isso nos leva a mais uma ponderação relevante: na tradução inglês-português todos os itálicos enfáticos foram mantidos, ainda que com ligeiras adaptações, as quais objetivaram buscar uma melhor fluência na língua de chegada. Assim, deslocou-se a ênfase do verbo modal “can”, que na tradução corresponderia ao verbo “posso”, para o pronome interrogativo “onde”, em inglês, “where”.

Texto em inglês

Tradução do inglês

Texto em francês

Tradução do francês

“Why, Mary Ann, what are you doing out here?” “Por Deus, Amélia, o que você está fazendo aqui fora?” “Eh bien, Marie-Anne, que diable faites-vous là ?” “Oras, Mariana, que raios você está fazendo aqui?”

Sobre o significado de “Mary Ann”, Martin Gardner esclarece que:

Segundo Roger Green, Mary Ann era na época um eufemismo britânico para “criada”. A amiga de Dodgson, sra. Julia Cameron, uma apaixonada fotógrafa amadora, tinha realmente uma criada de 15 anos chamada Mary Ann e há uma fotografia dela na biografia de Carroll escrita por Anne Clark para prová-lo. Mary Anne Paragon era a criada desonesta que cuidava da casa de David Copperfield (ver cap.44 do romance de Dickens). Sua natureza, nos é dito, era “debilmente expressa” por seu último nome [paragon é modelo, exemplo].

Dicionários de gíria dão outros sentidos para Mary Ann correntes na época de Carroll. O mostruário de uma modista era chamada [sic] de Mary Ann. Mais tarde, especialmente em Sheffield, o nome ficou associado a mulheres que combatiam lojistas que exploravam os empregados. Ainda mais tarde, tornou-se um termo vulgar para sodomitas.

Antes da Revolução Francesa, Mary Anne era um termo genérico para organizações republicanas, bem como uma gíria para a guilhotina. Marianne tornou-se e ainda é um símbolo feminino mítico das virtudes republicanas, um símbolo francês comparável ao John Bull da Inglaterra e ao Tio Sam. É tradicionalmente representada, em charges políticas e estatuetas, carregando o barrete frígio vermelho usado pelos republicanos na Revolução Francesa. É provavelmente por coincidência que o uso do nome por Carroll antecipa a obsessão pela decapitação partilhada pela Duquesa e a Rainha de Copas.

Assim, por ser “Mary Ann” além de um substantivo próprio também um eufemismo para “criada”, buscou-se evocar na tradução do inglês para o português os semas de mulher submissa, muito sugestivos no contexto em questão, por intermédio da adaptação do nome para “Amélia”, também um signo duplo, cuja acepção segundo o dicionário Houaiss é:

amélia s.f. (1942) B infrm. mulher amorosa, passiva e serviçal. ETIM antr. Amélia, do samba Ai! que saudades da Amélia, de autoria de Ataulfo Alves e Mário Lago (1942)

Já na tradução feita a partir do francês, uma vez que o nome “Marie-Anne” não evoca nenhum outro sentido importante (ainda que de acordo com a definição supracitada de Martin Gardner pudéssemos estabelecer daí uma relação, a meu ver não tão relevante, com a Revolução Francesa), optou-se em português pelo nome equivalente “Mariana”, simplesmente.

Texto em inglês

Tradução do inglês

Texto em francês

Tradução do francês

“”Sure, it’s an arm, yer honour!” (He pronounced it “arrum.”)” “— Claro, é um braço, S’Excelência! (Ele pronunciava “umbrás”.)” “‒ Pour sûr que c’est un bras, not’ maît’ ! » (Il prononçait : brâââs).” “— Com certeza que é um braço, senhô! (Ele pronunciava “braaaço”.)”

Conforme aponta o estudioso Martin Gardner (CARROLL, 2002, p.38), o personagem Pat, da maneira como foi originalmente criado por Carroll, tem nome e sotaque irlandeses. Era comum (e é ainda hoje) explorar variações linguísticas e desvios da chamada norma-padrão como elementos humorísticos em textos cômicos, orais ou escritos.

Tendo isso em mente, pode-se notar que tanto na tradução francesa de Papy como nas para o português levou-se mais em conta a preservação do tom oral e do humor presentes nesse diálogo do que a adaptação da fala de Pat para um determinado sotaque regional e notório. Traduzir variações lingüísticas é sempre um desafio para o tradutor, e assim há que se trabalhar constantemente com base em compensações: ora alguma nuance se perde, ora outra nuance se ganha.

Vale ressaltar também a preocupação em se traduzir com uniformidade o vício de linguagem de Pat, que em inglês inicia todas as falas dizendo “sure”, palavra vertida na tradução inglês-português por “claro”, na tradução inglês-francês, pela expressão “pour sûr” (que, convém frisar, nem sempre está no início da fala) e, na francês-português, por “com certeza”.

Texto em inglês

Tradução do inglês

Texto em francês

Tradução do francês

“”Where’s the other ladder?—Why, I hadn’t to bring but one. Bill’s got the other—Bill! Fetch it here, lad!—Here, put ‘em up at this corner—No, tie ‘em together first—they don’t reach half high enough yet (…)” ““Onde está a outra escada? — Ora, eu tinha que trazer só uma. O Pedro está com a outra — Pedro! Traga ela aqui, rapaz! — Aqui, bote de pé nesse canto — Não, amarre uma na outra antes… elas ainda não chegam nem na metade da altura (…)” “« Ousqu’est l’autre échelle? — On m’a dit d’en apporter qu’une ; c’est Pierre qu’a l’autre. — Pierre, amène-là ici, mon gars ! — Mettez-les à ce coin-ci. — Non, faut d’abord les attacher bout à bout ; elles arrivent point assez haut.” “— Onde é que tá a outra escada? — Só me falaram pra trazer uma; é o Pedro que tá co’a outra. — Pedro, traga ela aqui, meu rapaz! — Coloquem as duas neste canto aqui. — Não, precisa primeiro prender as pontas delas juntas, senão não vão alcançar até lá.”

A exemplo do personagem Pat, os outros animaizinhos e aves que aparecem para ajudar o Coelho a tirar Alice de dentro da casa não falam de acordo com a norma-padrão. Dessa forma, aqui mais uma vez compensaram-se perdas em algumas partes com ganhos em outras, conforme as especificidades de cada língua.

É relevante destacar que a tradução francesa apresenta mais desvios da norma-padrão do que o texto de Carroll, talvez por não haver na língua inglesa uma distância tão grande no que tange às diferenças de registro quando em comparação com as línguas francesa e portuguesa. De qualquer forma, as traduções para o português refletem essas diferenças. Assim, pode-se notar que a tradução feita a partir do francês tem um tom ligeiramente mais informal do que a tradução inglês-português.

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Link para download:

http://www.4shared.com/document/mCp_s414/Prface_de_Jean_Gattgno.html

Agradecimentos a Teresa de Almeida Arco e Flexa pelo material.

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