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Alice

Deriving from Old French and Old German, related to Adelaide, Alice was a popular name in medieval England. Like most such names, by the middle of the 17th century Alice was regarded as old-fashioned and rustic, fit only for servants and the like. It had to wait until the mid-19th century love affair with the Middle Ages for its revival as a fashionable name; the novelist Charlotte M Yonge called it ‘a favourite fancy name’ in 1863. It was the name of the real middle-class child who inspired Lewis Carroll to write Alice in Wonderland, the publication of which in 1865 spread the name’s popularity.

Alicia

In about the 12th century Alice was latinised into the alternative form, Alicia, picked up again in the 18th century with the vogue for such variants.


Reference:

LANE, Maggie. Jane Austen and names. Endeavour Press Ltd., 2014.

É comum algum leitor aqui do blogue me procurar pedindo indicações de materiais bons e confiáveis para ajudar no estudo dos livros Alice no País das Maravilhas e Alice Através do Espelho, que, sabemos, podem ser um tanto herméticos para o leitor contemporâneo. Também, há aqueles outros leitores que chegam até mim buscando sugestões de textos sobre a polêmica e misteriosa biografia de Lewis Carroll. Seja por interesse acadêmico ou por pura realização pessoal, me parece que muitas pessoas têm interesse nesses tipos de materiais e, portanto, achei interessante dedicar um artigo ao assunto aqui no Bloggerwocky. Uma vez que algumas das recomendações abaixo são textos escritos originalmente em inglês, indicarei, sempre que existirem, as versões traduzidas para o português.

Primeiramente, o que é que há de mais essencial para que se possa começar a interpretar as Alices, que, vale lembrar, são textos literários? Se você, leitor, não souber muito bem o que é a linguagem literária e o que a faz especial e artística, o porquê de livros de autores como Machado de Assis, Clarice Lispector, Guimarães Rosa e Manuel Bandeira, dentre outros, serem considerados clássicos, a razão dos livros de alguns autores best-seller serem malvistos pela crítica e pela academia apesar de venderem bem, o que diferencia o tipo de linguagem empregada, por exemplo, em uma notícia do tipo de linguagem presente em contos, romances, crônicas e poesias, dentre outras coisas, recomendo, antes de mais nada, a leitura do livro A Linguagem Literária, do Domício Proença Filho. É um livro curto, barato, de linguagem acessível e que trata de temas bastante fundamentais, quase sempre esquecidos durante os ciclos do Ensino Fundamental e do Ensino Médio, porém importantíssimos para a percepção da linguagem literária enquanto fazer artístico que lança mão da palavra como matéria-prima. Em suma, é uma leitura que recomendo não só a quem queira estudar as Alices, mas a quem se interesse por começar a estudar literatura em geral.

Agora falemos sobre a bibliografia referente ao Alice no País das Maravilhas e ao Alice Através do Espelho, especificamente. Dentre os diversos materiais de estudo já publicados a respeito, há dois que considero como, digamos, os mais essenciais: o primeiro, e mais importante, é o livro Alice — Edição Comentada (traduzido por Maria Luiza X. de A. Borges e lançado no Brasil pela editora Jorge Zahar), que além das histórias propriamente ditas traz comentários de Martin Gardner; e o segundo é o estudo A criança como zagal, escrito por William Empson (traduzido por José Laurênio de Melo e presente no volume 2 do Teoria da literatura em suas fontes). Há outras edições comentadas, em inglês, mas a qualidade do estudo de Martin Gardner é incomparável. Considero livro obrigatório àqueles que pretendam realizar um estudo acadêmico ou mais aprofundado das obras. Já o texto de William Empson, por sua vez, apresenta leituras deliciosas e muito perspicazes para vários dos símbolos presentes nas Alices.

Há ainda outros livros e artigos que recomendo a quem queira se aprofundar ainda mais: Alice no País das Maravilhas e a Filosofia, organizado por William Irwin e Richard Brian Davis, e que, apesar de algumas vezes me passar a impressão de ser um bocado caça-níqueis, não deixa de apresentar reflexões interessantes, além de usar uma linguagem bem acessível; Rima e Solução: A Poesia Nonsense de Lewis Carroll e Edward Lear, de Myriam Ávila, um livro mais denso; Tradução e Adaptação: Encruzilhadas da textualidade em Alice no País das Maravilhas, de Lewis Carroll, e Kim, de Rudyard Kipling, de Lauro Maia Amorim, excelente para os que querem estudar a questão da tradução das Alices; o prefácio de Jean Gattégno para uma das traduções francesas de Alice, o qual contém algumas informações bastante básicas sobre o contexto de escritura das Alices (infelizmente não foi traduzido para o português); Alice in Wonderland — A Norton Critical Edition, publicado pela WW Norton, que além dos textos literários traz também uma série de notas e artigos ótimos sobre o autor, o contexto histórico e a interpretação das histórias (somente em inglês); e, finalmente, o subcapítulo sobre Lewis Carroll, parte do capítulo 3, do livro A Literatura Infantil, de Nelly Novaes Coelho.

Ora ou outra, nos livros e artigos supracitados, trata-se um pouco sobre a vida de Lewis Carroll e sobre a era Vitoriana enquanto trata-se, ao mesmo tempo, sobre o Alice no País das Maravilhas e o Alice Através do Espelho, afinal são livros profundamente ligados à biografia do autor e ao momento histórico em que surgiram. Contudo, obviamente há também livros que focam mais nos aspectos biográficos e históricos do que nos literários. Dentre esses, destacarei apenas um, devido a sua qualidade: Lewis Carroll — Uma Biografia, de Morton N. Cohen, a melhor biografia já publicada sobre o autor. É excelente, vale muito a pena ler. Por fim, há um último livro interessantíssimo para se estudar os traços psicológicos de Lewis Carroll, ainda que não passe nem perto de ser uma biografia. Falo do Cartas às suas amiguinhas, uma compilação de diversas das cartas enviadas pelo escritor às suas amigas, todas crianças, tratando de assuntos diversos. Uma pena só é que nenhuma carta enviada à Alice Liddell (a Alice real, que inspirou a de papel) tenha sobrevivido ao tempo. Curioso e estranho, não?

Olá, caros leitores!

Faz tempo não posto nada, eu sei. Peço desculpas por ter sumido. Não é que eu tenha parado de estudar as Alices ou desistido do blogue, de forma alguma. A questão é que, por estar envolvido com outras atividades, me faltavam tempo e energia para escrever aqui. Contudo, durante essa pausa repentina de quase um ano, aconteceram algumas agradáveis surpresas que me deram novas forças.

Em primeiro lugar, fiquei lisonjeado em saber que os textos que tenho publicado aqui no Bloggerwocky estão sendo usados em aulas da graduação em Letras da Universidade Federal de Campina Grande e da pós lato sensu em Letras da Universidade Presbiteriana Mackenzie. Que honra! Obrigado às professoras Márcia e Célia. Também, tenho notado que apesar da ausência de posts novos o Bloggerwocky vem alcançando cada vez mais pessoas dos mais diversos lugares, o que é perceptível no número diário de visitas ao blogue e no número de curtidas que nossa página no Facebook continua recebendo. Mas mais do que uma questão de números e de abrangência, o que realmente importa é que percebo com isso tudo que mais leitores têm interagido comigo: mais pessoas têm me enviado recados, comentado em artigos aqui do blogue e apoiado o trabalho que venho desenvolvendo. Isso é muito importante para mim, pois me motiva enormemente. Por favor continuem, é bom eu sentir que estou sendo lido e que estou no caminho certo.

Aproveitando, acho importante frisar que o Bloggerwocky não tem nenhum tipo de fim comercial. Aqui, tenho apenas um compromisso com a cultura e com a disseminação dela. Digo isso pois percebi não há muito tempo que infelizmente o WordPress, onde este site está hospedado, gera propagandas sem a minha autorização e as insere aleatoriamente ao fim dos meus posts. Como não pago pela hospedagem, infelizmente não posso fazer nada a respeito, mas lhes asseguro de que não recebo nenhum centavo por essas propagandas.

Agora que o blogue vai voltar, aproveitei para procurar por links de imagens que estivessem porventura quebrados e os arrumar. Como alguma coisa vez ou outra nos escapa ou mesmo volta a quebrar devido ao tempo, por favor me avisem caso vocês encontrem algo com problemas.

Por fim, ainda não sei com que frequência atualizarei a página. Isso vai depender do tanto de interesse que eu perceber em vocês, leitores, por continuarmos com nossos estudos carrollianos.

Meu muito obrigado a todos que vêm acompanhando e apoiando o Bloggerwocky!

Artigo muito interessante publicado na revista Mundo Estranho número 123, de abril de 2012. As reflexões apresentadas são bem relevantes e desenvolvem interpretações psicológicas para alguns dos fatos narrados nos livros.

Clique nas imagens para visualizá-las em tamanho maior.

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É com grande satisfação, contentamento e orgulho que compartilho com vocês, leitores, mais uma monografia minha sobre as Alices, dessa vez abordando questões concernentes à área de educação – a outra monografia, sobre as Alices e tradução literária, também já foi postada aqui no blogue. Sem mais, espero que gostem:

RESUMO

O presente estudo visa analisar literariamente alguns dos símbolos existentes nos livros Alice no País das Maravilhas (1865) e Alice Através do Espelho (1871), escritos por Lewis Carroll (1832-1898), a fim de propor como se trabalhar as obras supracitadas com fins didáticos, focando especificamente na docência de aulas de Língua Portuguesa para alunos da 8ª série (9º ano) do Ensino Fundamental.
Ao longo deste trabalho, será abordado como se deram o surgimento das atividades de escrita e de leitura e seu ensino em diferentes épocas; tratar-se-á o que os principais documentos brasileiros sobre educação defendem quanto ao ensino de Língua Portuguesa nas escolas; serão expostas algumas informações sobre o contexto histórico da escritura das narrativas carrollianas; dados sobre a vida de Lewis Carroll e sobre sua psicologia estarão evidenciados; os dois livros em questão terão algumas de suas partes-chave analisadas a fim de que se possa ter uma ideia do quão plurissignificativos são e para que o docente aqui encontre uma espécie de miniguia de leitura das histórias; e, por fim, será apresentada a proposta didática, que objetiva a introdução dos alunos aos estudos literários de maneira que lhes sejam estimulados o gosto e o prazer pela leitura.

Palavras-chave: Educação, docência, Alice no País das Maravilhas, Alice Através do Espelho, Lewis Carroll, literatura, era vitoriana.

Link: GONCALVES, Higor. Entrando na toca do Coelho

Arte por Su Blackwell

Arte por Su Blackwell

Apesar de o ensino de literatura só se iniciar de fato no Ensino Médio, o uso de textos literários em aulas ministradas para o Ensino Fundamental é não só recomendado como necessário para o desenvolvimento cognitivo dos educandos. Segundo os Parâmetros Curriculares Nacionais, é importante incluir na educação textos de grande qualidade no que diz respeito à interpretação e à produção de um discurso a fim de fazer o aluno passar do leitor de “textos facilitados (infantis ou infanto-juvenis) para o leitor de textos de complexidade real, tal como circulam socialmente na literatura e nos jornais (…)”. (PCN, 2000, p.70) Defendendo também que um dos objetivos do ensino em Língua Portuguesa é estimular o “interesse pela literatura, considerando-a forma de expressão da cultura e do povo (…)” (ibidem, p.64), o documento aconselha que no Ensino Fundamental deve-se fazer o uso de literatura principalmente em práticas de leitura, atividade na qual “(…) o leitor realiza um trabalho ativo de compreensão e interpretação do texto, a partir de seus objetivos, de seu conhecimento sobre o assunto, sobre o autor, de tudo o que sabe sobre a linguagem.” (ibidem, p.69)

Com relação ao uso de Alice no País das Maravilhas e de Alice Através do Espelho em sala de aula, é interessante notar que tratam-se de obras muito peculiares quanto ao seu potencial didático. Foram livros escritos originalmente para crianças, as quais até hoje ainda encontram nos fatos narrados divertimento e uma forma de amenizar os acontecimentos do dia-a-dia infantil, tornando-o mais fácil de se tolerar. Mas também são livros complexos que encantam até os adultos, sendo objetos de estudo e de análises diversas (e incrivelmente variadas) desde há muito. Assim, são textos que podem ser usados desde os primeiros anos de vida escolar, com os intuitos de ensinar a ler, entreter e/ou de estimular nos discentes o interesse pela leitura (e para esses jovens leitores as ilustrações que complementam as histórias, sejam os desenhos clássicos de Tenniel ou os de outro artista, exercem papel fundamental[1]), como também são livros que podem facilmente integrar a bibliografia de cursos de graduação e pós-graduação.

Obviamente, a metodologia deverá se adaptar a cada faixa etária para ser o mais efetiva possível, o que implica dizer que não só será diferente aquilo que o professor ensinará (no tocante a informações e profundidade de análise), mas também o como ele ensinará. Na presente seção, apresentar-se-á especificamente uma proposta de como as Alices podem ser utilizadas em aulas de Língua Portuguesa para alunos da 8ª série (9º ano) do Ensino Fundamental de forma a introduzi-los aos estudos literários de uma maneira lúdica, desenvolvendo-lhes o gosto pela leitura e pela produção de textos.

Alice no País das Maravilhas e Alice Através do Espelho são livros de forte potencial imagético. São muitos os ilustradores que, aproveitando-se dessa peculiaridade, dedicaram-se a ilustrar as histórias com sua arte, ou mesmo os diretores que transpuseram as aventuras de Alice para o cinema. Assim, uma atividade interessante de se trabalhar é propor aos discentes, após um estudo da(s) obra(s), que transformem um dos livros (ou os dois, se assim o docente preferir) em uma história em quadrinhos. É essa a premissa diferencial da proposta que será apresentada em detalhes a seguir.

Após a conclusão da leitura de um dos livros, ou dos dois, por parte dos alunos (as histórias são independentes uma da outra, portanto podem ser lidas em qualquer ordem), o professor deve, inicialmente, discutir com os discentes sobre o que eles acharam daquilo que leram e abordar um pouco da biografia do escritor, Lewis Carroll. Em seguida, deve-se analisar alguns dos aspectos literários presentes; o docente deve analisar o que achar mais adequado e da forma que achar mais eficiente para cada sala, haja vista que, ainda que a proposta aqui desenvolvida seja para turmas de 8ª série, cada turma tem uma especificidade, e assim uma estratégia que funcione bem em uma pode não dar bons resultados em outra. O importante é demonstrar aos alunos que há toda uma construção de sentido por trás do nonsense das Alices e explicitar que isso se dá graças à maneira que a narrativa foi escrita. É forçoso salientar em sala de aula que em literatura a qualidade artística de um texto não está relacionada com seu tema, mas sim com a forma com que o tema é desenvolvido: não é uma questão de “o que” se fala, mas sim de “como” se fala; é a maneira especial com que um texto é trabalhado por seu autor que faz esse texto se tornar um objeto polissêmico, consequentemente artístico, e portanto literatura. É também essencial expor aos alunos (ainda que pareça óbvio à primeira vista) que cada livro tem uma proposta diferente: há aqueles cujo objetivo principal é entreter o leitor e que, sendo assim, focam mais no enredo do que em desenvolver polissemia e níveis mais profundos de significação; são os livros classificados como literatura de entretenimento (ou literatura de massa) e que, de um modo geral, vêm a ser as narrativas best-sellers. E há aqueles outros livros que visam fazer uso da palavra como matéria-prima artística, aqueles cujo(s) texto(s) mais esconde(m) do que diz(em) (emprega-se a possibilidade do plural por levar-se em conta não só romances, mas também livros de poesias, de contos e afins, compostos por várias histórias); chamados de alta literatura, são textos que desestabilizam o leitor, provocam-no e dele exigem atenção, dedicação e investigação minuciosa para serem interpretados, senão na sua completude, tarefa impossível, ao menos de forma satisfatória à guisa de exercício mental, experiência estética e satisfação de prazer estético.

É claro que não se pode encarar “literatura de entretenimento” e “alta literatura” como dois polos, nem que toda ficção encaixe-se perfeitamente ou em um ou em outro. As coisas não são tão simples assim, afinal na prática tudo se mistura. Há, dentre outras possibilidades, literatura de entretenimento que com o tempo passa a ser encarada como alta literatura e alta literatura que entretém (como é o caso das próprias Alices), bem como textos que são bons esteticamente justamente por serem maçantes (no caso, por exemplo, de uma narrativa sobre a vida enfadonha de um casal, em que o modo maçante de narrar causa uma isomorfia entre forma e conteúdo). Mas enfim, para fins didáticos, separar a literatura em dois eixos facilita o entendimento dos discentes e contribui para que os educandos, nos próximos anos, entendam melhor do que se tratam os livros clássicos que lerão e saibam como encará-los.

Façamos uma rápida digressão, importante para uma reflexão acerca do sistema de ensino brasileiro. Ao entrarem no Ensino Médio, os alunos já são expostos desde o início à alta literatura, estudando ao longo de sua formação autores como D. Diniz, Gil Vicente, Camões, Gregório de Matos, José de Alencar, Machado de Assis, Fernando Pessoa, Guimarães Rosa, Manuel Bandeira, Carlos Drummond, Graciliano Ramos, Clarice Lispector, Rubem Braga e outros tantos. Todos escreveram obras de grande valor (estético, sintático, lexical…) não por acaso tidas como clássicas e importantes, sendo, portanto, estudadas na escola. Todavia, a grande maioria dos alunos ainda não tem um senso estético suficientemente desenvolvido para interpretá-las adequadamente e consequentemente apreciá-las, e isso por conta da própria maneira como o ensino se dá nas escolas, o que prejudica o aprendizado e o estímulo do gosto pela leitura.

O discente, quando está aprendendo a ler na Educação Infantil, é exposto pela escola a gêneros textuais adequados, isso é, a obras que têm mais imagens do que texto escrito e/ou a obras que ressaltam o aspecto sonoro da língua (trabalham mais o significante do que o significado), de forma a estimular a manipulação lúdica dos sons por parte da criança, que então se sentirá à vontade para brincar com a língua tal qual essa fosse um brinquedo. Dessa maneira, possibilita-se que a criança tenha uma melhor aquisição da linguagem.

O Pequeno PríncipeDepois, ao longo do Ensino Fundamental, são trabalhados em sala livros paradidáticos apropriados a cada faixa etária: quadrinhos, contos de fadas, fábulas… enfim, literatura infantojuvenil que estimula nos alunos a vontade de ler. Basta reparar em como os jovens, e outros tantos não tão jovens assim, gostam, por exemplo, de livros como O Pequeno Príncipe, de Antoine de Saint-Exupéry, do próprio Alice no País das Maravilhas, dos contos de fadas de autores como Charles Perrault, irmãos Grimm e Hans Christian Andersen e de séries como A Turma da Mônica, de Mauricio de Sousa, Harry Potter, de J. K. Rowling, e Crepúsculo, de Stephenie Meyer.

Contudo, no Ensino Médio, há uma ruptura, e os alunos se veem forçados a, repentinamente, terem que ler e estudar literatura altamente artística. Quer dizer, todo um processo é interrompido, e assim muitas pessoas concluem a escola não gostando de literatura, encarando o ato de ler como uma obrigação maçante e se afastando dos livros. Os professores, por sua vez, não têm como não trabalhar os grandes escritores, pois as obras que serão exigidas em vestibulares são as clássicas, e é o desempenho dos alunos nesses vestibulares que decidirá qual futuro terão esses estudantes. É lamentável que haja tal ruptura, pois não fosse ela talvez os educandos tivessem mais tempo para amadurecer cognitivamente e adquirir conhecimento de mundo com leituras mais adequadas ao seu estágio de desenvolvimento. Assim, futuramente, quiçá se interessassem em conhecer os grandes nomes da literatura e suas obras por conta própria, e então, melhor preparados, conseguissem apreciar as leituras.

Levando-se em conta o que foi dito anteriormente sobre como os ensinos da leitura e da literatura se dão e retornando à questão do uso das Alices com fins didáticos, parece-nos interessante aproveitar a 8ª série (9º ano), último ano do Ensino Fundamental, para se preparar o alunado de forma prazerosa para os estudos literários mais profundos que se seguirão nos próximos anos de formação, lançando mão, para tanto, de livros que são ao mesmo tempo divertidos e, em termos técnicos, duas das melhores obras da literatura mundial.

O docente deve, após a introdução supracitada ao mundo literário em que aborda o que é literatura e explica o que é literatura de entretenimento e alta literatura, ensinar a estratégia de leitura que deve ser empregada no caso de textos literários: o leitor deve, de preferência, ler primeiramente o texto todo, do começo ao fim, para em seguida retornar ao seu início e relê-lo com atenção, agora tendo em mente uma perspectiva global que permite detectar pistas textuais fundamentais para uma melhor interpretação. Interpretar um texto literário implica releituras cuidadosas, pesquisa e esforço mental. Estabelecendo uma analogia, o aluno precisará, nesse momento, se dedicar ao texto da mesma forma com que se dedica a resolver um problema matemático. E com isso chegamos a mais um ponto fundamental que o professor deve evidenciar para os alunos: as interpretações depreendidas precisam poder ser confirmadas pelo próprio texto para serem válidas. Assim, só se pode, por exemplo, afirmar que o Gato de Cheshire é um alter ego da Alice em Alice no País das Maravilhas se for possível comprovar textualmente esse argumento. Um mesmo texto literário abre margem a interpretações variadas, certamente, entretanto é necessário ter cuidado para não digredir.

Explicações e análises literárias feitas, o docente então proporá aos alunos que eles próprios ilustrem as aventuras da Alice em forma de história em quadrinhos. A sala deverá ser dividida em 12 grupos, caso se esteja trabalhando um dos livros, ou em 24 grupos, caso se esteja trabalhando os dois (a quantidade de alunos por grupo fica a cargo do professor). Cada grupo ficará responsável por ilustrar um capítulo da narrativa, de forma que ao fim do projeto, a sala, em um esforço em conjunto, terá em mãos um livro produzido pelos seus próprios integrantes com a ajuda do professor. Os alunos geralmente apreciam bastante atividades lúdicas como essa, e assim se empenham em produzir algo de que irão se orgulhar depois, principalmente no caso de propostas como a sugerida, que colocam toda a sala unida por um mesmo objetivo.

Há sítios na internet (sugerimos alguns endereços nas referências bibliográficas) onde pode-se criar quadrinhos virtualmente de forma simples e descomplicada. Caso os alunos tenham fácil acesso a computadores e a internet, o que é bem provável visto que as novas tecnologias se fazem cada vez mais presentes no dia-a-dia de todos, recomenda-se que os quadrinhos sejam produzidos digitalmente, e não em papel. Primeiramente porque vivemos em uma época na qual tecnologias como a televisão e a internet têm mais importância na vida dos discentes do Ensino Fundamental do que a própria sala de aula, consequentemente há um novo público leitor e novas maneiras de se ler, e assim uma metodologia que visa ser efetiva precisa se adaptar a essa realidade. E depois porque um texto digital permite maior difusão do que um texto impresso: uma vez que os trabalhos estejam prontos, o docente pode, até mesmo em conjunto com os próprios educandos, montar um blogue para a postagem on-line do produto final, que agora poderá ser acessado por qualquer aluno da escola (e de outras escolas), por familiares dos alunos, enfim, por todos que tenham interesse. Com isso, um problema muito presente na educação é contornado: o de se “escrever para ninguém”. É muito comum, quando um docente pede à sala para elaborar, por exemplo, uma redação sobre um tema qualquer, que os alunos sintam-se desmotivados, já que, afinal, encararão a tarefa apenas como sendo mais um texto a ser escrito para avaliação do professor. Isso é, o texto que deverão escrever não será produzido tendo-se em mente um público-alvo, e isso porque o público-alvo simplesmente não existe. O texto não será lido por outras pessoas. O texto será lido somente pelo professor, que é a pessoa cuja obrigação é corrigir e apontar problemas de escrita que porventura existam. Isso não só desestimula como empobrece a experiência da escrita.

Nada impede, contudo, que se organize um livro físico com os desenhos dos discentes para o caso de não haver acesso a computadores. O que importa é estimular os alunos, para que eles sintam o ímpeto e o prazer não só de ler como também de produzir textos, afinal escrita e leitura são atividades indissociáveis, que caminham juntas tanto no ensino como na vida e essenciais para um bom desenvolvimento cognitivo. É forçoso trabalhar literatura de uma forma interessante em sala de aula e desenvolver atividades que façam os alunos se envolver e se interessar pelos conteúdos, o que, apesar de não ser nada fácil, é extremamente recompensador para o professor. Ver um aluno apreendendo aquilo que é ensinado, evoluindo com seus ensinamentos e demonstrando interesse nas suas aulas é a realização moral de todo educador.


[1] Conforme o próprio Carroll salienta logo no início do Alice no País das Maravilhas: “(…) uma ou duas vezes [Alice] espiara furtivamente o livro que ela [a irmã] estava lendo, mas não tinha figuras nem diálogos, “e de que serve um livro” – pensou Alice – “sem figuras nem diálogos?”” (CARROLL, 1980, p.41)

Referências bibliográficas:

BRASIL. Secretaria de Ensino Fundamental. Parâmetros curriculares nacionais. 2. ed. Rio de Janeiro: DP & A Editora, 2000.

CARROLL, Lewis. Aventuras de Alice no país das maravilhas e Através do espelho e o que Alice encontrou lá. Tradução de Sebastião Uchoa Leite. São Paulo: Summus, 1980.

SITES PARA A CRIAÇÃO DE HISTÓRIAS EM QUADRINHOS:

Pixton (em português)

ToonDoo (em inglês)

Make Beliefs Comix (em inglês)

Strip Generator (em inglês)

Via Alicenations

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